O autômato de Kempelen, a máquina de Deleuze, o ciborgue de Lacan e o robô de Freud

por Adriano Messias

“(…) toute machine est machine de machine.”
(Deleuze e Guattari, L’Anti Oedipe)

“De repente seu corpo se esburacou feito um queijo suíço. Abriram-se grandes vãos, e deles saltitavam pequenos parafusos, fios coloridos, chips, eletrodos, graxa, fluidos, pequenos zumbidos. Recolhi as pecinhas caídas, montei com elas trenzinhos, maquininhas inúteis, daquelas de Tinguély que admirávamos juntos. (…)

Como sempre, nunca sei onde estou eu ou você, sempre disse que ser uma pessoa é algo duvidoso, não temos certeza alguma de que somos pessoas, somos uma corrente de ar, um vento, uma hora do dia, um riacho, uma batalha, um tique, um charme….”
(Peter Pal Pébart, Filosofia aos Suínos)

La Fontaine, Niki de Saint Phalle e Jean Tinguély, pátio lateral do Centre Georges Pompidou, ParisFigura 1: La Fontaine, Niki de Saint Phalle e Jean Tinguély,
pátio lateral do Georges Pompidou, Paris.

I

Ora pela ansiedade, ora pela euforia, desde o século XVIII, notadamente, tem-se visto a ascensão da máquina como especial companheira do humano. De forma sumária, as máquinas automáticas que conhecemos hoje podem se dividir em três tipos: as cinéticas, que se movem sozinhas, as cibernéticas, capazes de conduzir a si mesmas e demonstrar comportamentos semelhantes aos de seres vivos, e os computadores, hábeis em representar o mundo a partir de operações numéricas. E na longa jornada em que o homem tenta criar máquinas que lhe sejam duplos, atenho-me, aqui, como exemplificação, aos autômatos de Johann Wolfgang Ritter von Kempelen (1734 – 1804), imitadores das atividades humanas. Dentre os engenhos mais famosos de Kempelen, saliento o Jogador de Xadrez e a Máquina Falante. O segundo era capaz de “falar” palavras em francês, alemão e italiano a partir de um sistema de sopro em foles, com o objetivo de ajudar surdos-mudos na comunicação e de se compreender melhor a linguagem humana. O primeiro, porém, é mais sedutor para os propósitos deste texto: por muito tempo, o empenhado enxadrista seduziu seletas plateias nas cortes e na alta burguesia da Europa, atravessando vários países em uma espécie de turnê, e chegando até mesmo a inspirar Poe na escrita do ensaio Maelzel’s Chessplayer (1836), texto este em que são preditos aspectos da moderna ficção científica. E foi mais longe do que se esperava, influenciando ideias de Graham Bell, Charles Babbage, Walter Benjamin, Alan Turing e Claude E. Shannon.

A intrigante façanha humanoide conseguia dar o xeque-mate em vários jogadores famosos, o que intrigava o público. Muito tempo depois do sucesso salonnier é que se descobriu tratar-se de um artifício em sentido mais lato do que se supunha: a marionete assentada, trajada em roupas orientais – o que lhe conferiu o apelido de “turco” e este, por consequência, assumiu o sentido de “engodo” e “logro” em língua alemã – somente conseguia ganhar no xadrez porque existia, de fato, um jogador humano oculto dentro da caixa adjacente ao aparato. Ele conhecia as jogadas do rival mediante um sistema de pinos magnetizados na parte inferior do tabuleiro, pinos estes que acompanhavam o movimento das peças sobre a superfície. Apesar da frustração que a descoberta certamente tenha causado na época, não vejo aqui qualquer invalidação à proposta inicial do autômato oriental de Kempelen – bela máquina metafórica –, pois o artifício revelava, malgrado a presença de um manipulador escondido, uma máquina semicibernética, ainda que o software tenha sido um ser humano e o hardware apenas simulasse inteligência artificial. O homenzinho de Kempelen, duplo do próprio inventor-artista e representante de um novo estado de espírito que invadia as mentes europeias, instiga-me a levantar as seguintes questões: até que ponto e em que nível uma máquina pode estar totalmente desprovida do humano? E em que medida um ser humano não seria, ele mesmo, uma máquina produtora de outras?

II

Caio em Deleuze: O Anti-Édipo ([1972] 2014) sempre foi um “mal-olhado” para a psicanálise setorizada em “freguesias”, sobretudo na França. Para mim, uma das grandes contribuições desta obra se situa no pensamento em torno das chamadas máquinas[1] desejantes, aquelas que se acoplam, realizam trocas, engendram conexões, se movem por fluxos, expansões, fagias… A recusa insistente dos autores para com o trinômio edípico “papai-mamãe e eu” – recusa a qual eu não referendo – era também em decorrência do repúdio à ortodoxia psicanalítica do final dos anos de 1960. Deleuze e Guattari lapidaram um viés nocional que pensava a grande máquina da sociedade, aquela que estaria além da “historinha suja” do pequeno romance familiar de cada um. Seríamos, para a dupla de autores, todos máquinas desejantes partícipes de um organismo social do qual o corpo se torna apenas mais uma maquinaria: a boca beija, come, suga e morde…; o estômago tritura, liquefaz, contrai-se e empurra… Tudo seria máquina, tudo (se) moveria em múltiplos que fugiriam da frágil ideia de identidade. E mais: uma máquina seria capaz de produzir outra máquina, e esta, ainda uma nova. Penso: a máquina desejante do corpo, de maneira específica, transborda pelos orifícios, que são conectados às pulsões, estas, por si mesmas, outras máquinas de desejo. Georges Bataille, em sua História do Olho, nos dá a ver avant la lettre um corpo maquinal que se inebria em um sem-número de fetiches, experimentando-os, muito mais do que os interpretando: na urina, no esperma, na vagina e no ânus, no pênis e nos testículos, na boca, e, sobretudo, no próprio olho, de cujos significados Bataille soube tão bem se apropriar; olho/ ovo, duas máquinas cujo plural em francês é praticamente uma homofonia: les yeux/ les oeufs. Os engenhos, alavancas e arcabouços do corpo produziriam um espetáculo de “delírio sexual, frenesi blasfemo e furor homicida”, segundo Michel Leiris (cf. BATAILLE, 2003, p. 99). Em Conversações (1998), Deleuze também fez dos aparelhos psíquicos maquinarias, usinas de desejos (1998 [1972], p. 26), e especulava sobre o futuro do homem com as máquinas: “Mas quando as forças do homem se compõem com a do silício, o que acontece, e quais novas formas estão em vias de nascer?” (1998 [1986], p. 125); e adiante: “(…) todo mundo diz que o homem entra em relação ainda com outras formas (o cosmos no espaço, as partículas na matéria, o silício na máquina…): uma nova forma nasce daí, que já não é mais a do homem…” (1998 [1986], p. 146). Ele afirmava ainda que as máquinas cibernéticas e os computadores seriam, por excelência, instrumentos das sociedades de controle (1998 [1990], p. 216). Portanto, a máquina deleuziana era social, antes de ser técnica, mesmo que, para o filósofo, ambas fossem as mesmas, ainda que inseridas em regimes diferentes (DELEUZE; GUATTARI: 2014, p. 48), pois a segunda teria uma função indicial para com as formas de produção social (DELEUZE; GUATTARI: 2014, p. 50). O Anti-Édipo, entretanto, não veio para desabonar Freud, muito menos Lacan, ainda que o ataque certeiro à edipianização do mundo e ao inconsciente estruturado e teatral, à maneira clássica, tenha sido uma de suas frentes textuais:

Pois o que Freud e os primeiros analistas descobriram foi o domínio das sínteses livres onde tudo é possível, as conexões sem fim, as disjunções sem exclusão, as conjunções sem especificidade, os objetos parciais e os fluxos. As máquinas desejantes grunhem, zumbem no fundo do inconsciente, a injeção de Irma, o tique-taque do Homem dos Lobos, a máquina de tossir de Anna, e também todos os aparelhos explicativos montados por Freud, todas essas máquinas neurobiológicas-desejantes (DELEUZE; GUATTARI, 2014, 76-77).

Ideias de “conexões”, “disjunções”, “conjunções” e “fluxos” já estavam presentes, decerto, no sólido trabalho que vinha sendo desenvolvido há décadas por Jacques Lacan, mediante um emaranhado de seminários que buscavam renovar o freudismo, por um lado, e torná-lo, ainda mais, um campo multidisciplinar, por outro, valendo-se de pesquisas sobre a linguagem. Falo, doravante, do Lacan cibernético.

III

As indagações em torno da cibernética e de suas consequências para o mundo mobilizaram pensadores do calibre de Jacques Lacan, dentre muitos outros. É, entretanto, pouco conhecido, até mesmo por estudiosos, um texto lacaniano datado de 1955, Psicanálise e Cibernética, ou Da Natureza da Linguagem, cuja elucubração certamente pode ser considerada precursora da empolgação contemporânea no campo da I.A., inteligência artificial, assim como no escopo dos objetos e ambientes sencientes. Acredito que haja algo de sintomático no descaso para com este texto, expresso na difícil relação entre a psicanálise e as ciências cognitivas e a neurociência, e vice-versa. Uma demoniza a outra mútua e reiteradamente, em um esforço pouco produtivo de demarcação de territórios, em vez de se optar por uma relação mais dialógica. Outro ponto a ser abordado é que, naquela época, o texto de Lacan sobre as relações do inconsciente com a jovem cibernética era de árduo entendimento, considerando-se que uma importante faixa da sociedade ainda olhava com desgosto a chegada da televisão e entendia a criação de robôs como mera especulação fantasiosa.

De fato, Lacan, contrariando qualquer lugar-comum, deixou, também em Psicanálise e Cibernética, sua marca de precursor. Com certeza, ele participava do conhecimento em torno do que de mais recente surgia na cibernética e na linguística dos anos de 1950, tanto é que ressaltava, no referido texto, a representação das portas lógicas de um computador por meio de desenhos, antevendo na recursividade[2] não apenas uma questão de ciência, mas, igualmente, de linguagem, o que convergiria em temáticas caras que seriam exaustivamente trabalhadas por ele no futuro, como “repetição” e “sintoma”.

O que numa máquina não advém a tempo, cai simplesmente e não reivindica nada. Não é a mesma coisa no homem, a escansão está viva, e o que não adveio a tempo permanece suspenso. É disto que se trata no recalque.

Decerto, algo que não é expresso não existe. Mas o recalcado está sempre aí, insistindo, e pedindo para ser (LACAN, 1995a, p. 384).

Lacan tratou da máquina cibernética em uma instância abstrata, e foi claro ao dizer que não discutiria maquininhas ou maquinonas, tampouco a “máquina dentro da caixa”, provavelmente uma referência à famosa e espirituosa invenção de Claude Shannon[3]. Antes, ele estava interessado em falar sobre duas técnicas e duas ordens de pensamento e ciência: a psicanálise, de um lado, e a cibernética, de outro; esta última, como um campo de fronteiras indeterminadas, cuja origem remontaria, segundo ele, a muito além da engenharia de apenas dez anos antes de seu discurso de 22 de junho de 1955. Ele defendeu que o alcance da cibernética seria mais amplo e de origem mais remota do que se imaginava, ligando-se às próprias ciências conjeturais, isto é, as humanas, em oposição às exatas. Os antecessores seriam Condorcet e Pascal; este último, o próprio pai da cibernética, na visão de Lacan.

Jacques Lacan mencionou que, antes de desenvolverem o pensamento científico, os homens supunham um mundo real capaz de se esvanecer caso fosse privado de uma ordem criada para fins de estruturação, podendo tal ordenação ser de fundo mitológico ou ritualístico, por exemplo. A ciência só surgiria de fato quando a humanidade viesse a perceber que o relógio da natureza funcionava a despeito de qualquer atividade humana (cf. LACAN, 1995, p. 371). O psicanalista chamava atenção, neste momento, para a significação do acaso (cf. LACAN, 1995, p. 369). Para ele, o termo “real” vestiu-se de definições bem variantes no decorrer da História, o que ilustra ao mencionar Voltaire, quem chegou a concordar com a polêmica (e hoje insustentável) História natural do Conde de Buffon, que de “natural” pouco trazia, conforme discuti em um artigo (cf. MESSIAS, 2014). Afinal, se uma ciência exata requeria precisão, o primeiro pêndulo isócrono de Huyghens, de 1659, é que talvez viesse a conferir tal característica (cf. LACAN, 1995, p. 372). Cinco anos antes, porém, com o desenvolvimento do cálculo das probabilidades de Pascal a respeito do triângulo aritmético, a então ciência numérica tornava-se combinatória, e surgia a noção de lance e escansão, o que mantinha direta relação com a ideia de coordenação intersubjetiva. Em suma: a expressão do “azar do inconsciente” que o homem sempre carregou consigo (cf. LACAN, 1995, p. 374). Lacan argumentou, pois, a favor de uma cibernética – esta ciência dos lugares vazios – que não teria tanto a ver com as ciências duras. “Pela cibernética, o símbolo se encarna num aparelho com o qual não se confunde, por ser o aparelho apenas o suporte. Ele se encarna de maneira literalmente transubjetiva” (LACAN, 1995, p. 379). E prossegue, comentando que a mensagem, em um sistema de símbolos, circularia em rede.

Lacan discutiu também que, se éramos hábeis em dar sentido a quase tudo, podíamos igualmente dizer que tudo o que circulava em uma máquina não teria sentido de espécie alguma; tratava-se de sinais orientados oriundos da própria semântica maquínica. Portanto, não seria o desejo humano que introduziria sozinho o sentido desta linguagem primitiva a rigor, pois sempre haveria algo que nos escapa: “(…) algo não é eliminável da função simbólica do discurso humano, trata-se do papel que nele desempenha o imaginário” (LACAN, 1995, p. 381).

Acompanhando estudos de linguagem e de engenharia da época, Lacan quis refletir, em Psicanálise e Cibernética, e, no texto imediatamente seguinte do mesmo Seminário, A. m. a. s., sobre o viés repetitivo do inconsciente – e, por conseguinte, do sintoma neurótico. Uma vez que a linguagem é recursiva, por que, então, o inconsciente não o seria, se este se estrutura “(…) como uma linguagem” (LACAN, [1964] 1979, p. 25) e, posteriormente, em reformulação pessoal da proposição anterior, “(…) por uma linguagem” (LACAN, [1976] 2007, p. 66)?[4]. Durante algum tempo, Lacan estudou a mente como metáfora computacional, e o texto em questão, originário de uma palestra proferida na Sociedade Psicanalítica Francesa, passeou por conceitos da teoria computacional, do código binário e das funções lógicas do tipo inclusivas e exclusivas (“e”/“ou”). Depois, ele regressou ao metafórico modelo hidrodinâmico da mente proposto por Freud ao estudar a psicodinâmica, evidente herança da ciência do XIX, século em que se pensava a mente à semelhança de um sistema hidráulico de tubos e líquidos que se deslocavam mediante pressão. É inegável, entretanto, considerar que a cibernética norteou as principais pesquisas em torno da I.A., assumindo um papel preponderante no cenário que ora se desenrola no campo conflituoso dos saberes e do pós/humano. Lacan, porém, foi fascinado pelas comparações que os ciberneticistas faziam entre o homem e a máquina, o que colaborou para que ele redefinisse o conceito de inconsciente freudiano: “Vocês não sabem que a energética não é outra coisa – seja lá o que creiam os ingênuos corações dos engenheiros – senão a sobreposição da rede de significantes ao mundo?” (LACAN, 1998, p. 46).

IV

Freud, por sua vez, ainda que tenha passado de maneira ambígua por questões ligadas à tecnologia[5], não quis flertar com ela por muito tempo. Mas me chamam a atenção algumas aproximações freudianas com o tecnológico, e, por que não, com a robótica. Não me refiro aqui apenas à catatônica boneca Olímpia do conto de Hoffmann, que inspirou bons percursos no imprescindível ensaio sobre o estranho familiar. Trato, antes, de concepções que ressoam em ideias contemporâneas sobre robôs e afins. Dentro do modelo bioenergético da psique e do sistema termodinâmico da mente, Freud nos comparava a uma máquina a vapor neurótica que se movia entre duas pulsões basais e conflitantes, a de vida e a de morte, em que o inconsciente possuiria as qualidades de uma máquina biofísica ao desempenhar as funções de transformador entre fluxos de energia e de produtor de simbolizações. Se Freud tivesse insistido um pouco mais na ideia de redes neuronais e de pessoas como sistemas de processamentos de informação, teria antecipado a cibernética de algumas décadas mais tarde.

No contexto do que aqui discuto, elejo, como máquina freudiana, um mecanismo discreto enclausurado numa caixa, capaz de causar estranhamento: trata-se da já mencionada ultimate machine, de Claude Shannon, um enigmático autômato, que, diferentemente das engenhocas de Kempelen, não tinha nenhuma função a não ser desligar-se quando algum curioso acionasse o interruptor lateral: um tipo de “robô freudiano” que buscava o próprio sossego mediante a ação de sua casmurra mãozinha. Arthur C. Clarke, em Voice Across the Sea: Telstar and the Laying of the Trans-Atlantic Cable, descreveu assim essa “máquina ideal” de Claude Shannon[6]:

Nada poderia ser mais simples. Trata-se meramente de uma pequena urna em madeira do tamanho e formato de uma caixa de charutos, com um único interruptor em um dos lados. Quando você liga o interruptor, surge um irritante e proposital zumbido. A tampa se ergue lentamente e, do fundo, surge uma mão. A mão se inclina, desliga o interruptor e recua para dentro da caixa. Com a finalidade de fechar o caixão, a tampa se encaixa, o zumbido cessa, e a paz reina uma vez mais. O efeito psicológico, se você não sabe o que o está esperando, é devastador. Há algo de indescritivelmente sinistro em torno de uma máquina que não faz nada – absolutamente nada – a não ser desligar-se.[7]

Este brinquedo, que curiosamente lembra um personagem da família Adams de sugestivo nome para a psicanálise (a Coisa, em português; no original, Thing T. Thing, ou, simplesmente, “Thing”), tem parentesco também com figuras que sempre atraíram Freud em seus escritos: partes desmembradas de corpos, cabeças decepadas, mãos cortadas no punho, pés dançantes, todas elas assombrações para a mente inquieta do psicanalista. E defendo que foi essa tópica que fez com que ele tomasse, de forma mais insistente, as noções de repressão e castração para explicar o impacto de Natanael perante a fascinante boneca de madeira, insistindo na metáfora ocular, nos objetos parciais e na força do pulsional, em vez de questionar quem, de fato, seria aquele personagem jovem que parecia tão esvaziado: um vivo, um morto… ou um outro autômato criado pela imaginação do contista alemão? A incerteza intelectual entre o que era animado e o que era inanimado, tema que acabou sendo posto de lado por Freud, já havia incomodado outros pensadores, a exemplo de Ernst Jentsch, que pensou o autômato a partir da personagem de O Homem de Areia em sua obra Zur Psychologie des Unheimlichen (1906). Hoje, roboticistas, ciberneticistas e biomédicos deveriam recuperar aspectos importantes ressaltados no texto do estranho familiar para tentarem dar conta do insucesso que muitas criações – que vão de videogames a braços cibernéticos, passando por cirurgias plásticas e outras intervenções corporais – têm junto às pessoas; aspectos esses que discuto em outro texto, quando trato do “estranho familiar biociobernético”. O que seriam, nesse sentido, as mãos robóticas do cirurgião humano que opera um paciente à distância? Haverá sempre uma angustiante incerteza quanto a um objeto sem vida estar de fato vivo ou morto sempre que este expressar algum estado de animação? Aqueles que relutam em dar aval à psicanálise como instrumento para as pesquisas avançadas em robótica e cibernética precisam tomar conhecimento sobre a importância de Freud no campo da I.A. e da Vida Artificial, a V.A. Está na obra de Marvin Minsky (2006) a defesa de que a máquina emocional – como ele próprio denomina, ou, ainda, o “sanduíche freudiano” – torna-se modelar para as teorias sobre robôs humanoides. Segundo Freud, em um ensaio de 1920, a mente possuiria uma ampla antessala, na qual várias excitações mentais estariam se atropelando umas às outras, como seres individuais. Ao lado, em um cômodo menor, residiria o que se chama de consciência. Entre ambos os ambientes, estaria, de pronto, um atento guardião, que teria por finalidade examinar as excitações mentais e censurar várias delas, proibindo-as de adentrar a sala de recepção da consciência. Tal raciocínio, o “sanduíche freudiano”, apresentava a mente como um sistema de fluxos e contrafluxos que estaria sempre a enfrentar conflitos entre as ideias instintivas e as adquiridas (cf. FREUD, 1920, p. 259).

sanduiche freudiano

Reforçando essa discussão de órbita psicanalítica, apoio-me em um pequeno texto de Hari Kunzru, no qual o romancista indiano afirma: “Os seguidores de Wiener[8] viram a cibernética como uma ciência que explicaria o mundo como um conjunto de sistemas de feedbacks, permitindo o controle racional, de corpos, máquinas, fábricas, comunidades e praticamente qualquer outra coisa” (KUNZRU: 2013, p. 124). Também é Kunzru quem reforça que a cibernética deixou dois importantes “resíduos culturais”: a descrição do mundo como coleção de redes e a intuição de que não haveria uma distinção tão clara, como se supunha, entre pessoas e máquinas (cf. KUNZRU: 2013, p. 126).

É incontestável que caminhamos rumo a uma civilização digital povoada por “robôs freudianos” em avançadíssimas formas maquínicas de silício, ou de silício e carbono, que têm por protótipo poético o enxadrista de Kempelen. E virá o dia em que se imporá um checkpoint para as separações entre o humano e o robô, estas cada vez mais dissipadas: “O potencial para as combinações entre vida natural e artificial é tamanho que nos leva a pensar que estamos nos aproximando de um tempo em que a distinção entre vida natural e artificial não terá mais onde se balizar” (SANTAELLA: 2003, p. 199). Contudo, nesse “glorioso” e aturdido “mundo à Jetsons” que solapou definitivamente a dualidade entre a res cogitans e a res extensa, cada autômato, cada robô humanoide e cada ciborgue há de encarnar a sombria constatação que certa ciência quer evitar a todo custo: a inexorabilidade da morte, mesmo que retardada ao máximo pelo tecnológico.

Eis nossa (ainda) grande barreira!

IMAGEM 1 O turco de Kempelen

Figura 2: O turco de Kempelen.

 

enki bilal

Figura 3: Imagem de Animal’z (álbum do quadrinista Enki Bilal),
história que se passa em um aterrorizante planeta senciente pós-apocalíptico.

 

 

gigolo-joe

Figura 4: “Gigolo Joe”, personagem de A.I. (Steven Spielberg, 2001): um mecanoide de companhia programado para seduzir mulheres com canções românticas.

 

Imagem 2 modelo da ultimate machine de shannon

Figura 5: The Ultimate Machine, de Claude Shannon.

 

revista time

Figura 6: Capa da revista Time de 10 de fevereiro de 2011.

 

cena de Os Jetsons

Figura 7: Cena de Os Jetsons, desenho da Hanna Barbera
produzido nos anos de 1960 e 1980.

___________________

Notas:

[1] E, aqui, uma máquina pode ser entendida como um objeto, no âmbito da Ontologia Orientada aos Objetos, conforme também pensa Levi Bryant (cf. BRYANT, 2011, p. 271).

[2] Este termo se refere, em ciências da computação e em matemática, mas também em linguística, a uma certa repetição de um objeto ou proposição.

[3] Basicamente, um engenho inútil provido de uma mão mecânica dentro de uma caixa com uma portinhola. Quando alguém acionava um interruptor, a mão saía para fora e imediatamente o desligava.

[4] Destaques meus.

[5] O que fica evidente em textos como O Mal-estar na Civilização: “Nunca dominaremos completamente a natureza, e nosso organismo, ele mesmo parte dessa natureza, será sempre uma construção transitória, limitada em adequação e desempenho” (FREUD, 2011, p. 30), e: “Com todos os seus instrumentos ele [o homem] aperfeiçoa seus órgãos – tanto motores como sensoriais – ou elimina obstáculos para o desempenho deles” (FREUD, 2011, p. 35).

[6] Alguns modelos desta máquina podem ser visualizados nos sites a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=cZ34RDn34Ws, https://www.youtube.com/watch?v=G5rJJgt_5mg, https://www.youtube.com/watch?v=urgL4Br2rqI.

[7] Do original, traduzido por mim: “Nothing could be simpler. It is merely a small wooden casket, the size and shape of a cigar box, with a single switch on one face. When you throw the switch, there is an angry, purposeful buzzing. The lid slowly rises, and from beneath it emerges a hand. The hand reaches down, turns the switch off and retreats into the box. With the finality of a closing coffin, the lid snaps shut, the buzzing ceases and peace reigns once more. The psychological effect, if you do not know what to expect, is devastating. There is something unspeakably sinister about a machine that does nothing — absolutely nothing — except switch itself off.” Disponível em: http://kk.org/thetechnium/2008/03/the-unspeakable/ Acesso em: 18 de junho de 2015.

[8] Norbert Wiener, matemático do Massachussets Institute of Technology (MIT), autor de Cybernetics, or control and communication in the animal and machine (1948), considerado o criador do sintagma contemporâneo “cibernética”.

Referências:

BATAILLE, Georges. História do Olho. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

BRYANT, Levi. The Democracy of Objects. Ann Arbor: MPublishing/ University of Michigan Library, 2011.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1998.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. L’Anti Oedipe. Paris: Les Éditions de Minuit, 1972/1973.

_________________________________. O Anti-Édipo. São Paulo: Editora 34, [1972] 2014.

FREUD, Sigmund. A General Introduction to Psychoanalysis. New York: Boni and Liveright, 1920.

_______________. O Mal-estar na Civilização. São Paulo: Penguin/ Companhia das Letras, 2011.

GROSSMAN, Lev. 2045: The Year Man Becomes Immortal. Revista Time, 10 fev. 2011. Disponível em: http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,2048299,00.html. Acesso em: 26 de junho de 2015.

HOFFMANN, E. T. A. O Homem de Areia. In: TAVARES, Braulio; CAVALCANTI, Romero (Orgs.). Freud e o Estranho. Contos fantásticos do inconsciente. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.

KUNZRU, Hari. Genealogia do ciborgue. In: TADEU, Tomaz (Org.). Antropologia do ciborgue. As vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 11. Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. [1964] Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

_______________. Psicanálise e Cibernética, ou Da Natureza da Linguagem. In: O Seminário. Livro 2. O Eu na teoria de Freud e na técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995a.

_______________. A, m, a, S. In: O Seminário. Livro 2. O Eu na teoria de Freud e na técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995b.

_______________. O Seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

______________. O Seminário. Livro 23. O Sinthoma. [1976] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

MESSIAS, Adriano. Le monstrueux et le fantastique dans l’étrangeté des Amériques. Paris: Revue Rita/ Sorbonne Nouvelle. N. 7. Disponível em: http://www.revue-rita.com/regards7/o-monstruoso-e-o-fantastico-na-estranheza-das-americas.html Acesso em 01 de junho de 2015.

MINSKY, Marvin. The Emotion Machine. Commonsense Thinking, Artificial Intelligence, and the Future of the Human Mind. New York: Simon & Schuster, 2006.

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SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano. Da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo, Paulus, 2003.

SEREXHE, Bernhard; WEIBEL, Peter (Eds.). Mensch in der Maschine. Man – [in the] – Machine. Karlsruhe: ZKM, Zentrum für Kunst und Medientechnologie Karlsruhe, 2007.

THE (UNSPEAKABLE) ULTIMATE MACHINE. Disponível em: http://kk.org/thetechnium/the-unspeakable/ Acesso em: 18 de junho de 2015.

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