Máquinas de sensação: Whitehead e o rompimento sensacional da dualidade sujeito-objeto

por Daniele Fernandes

Feeling machines: Whitehead and the sensational disruption of subject-object duality

[Abstract]

“We intend to present, in general lines, both subject and object as machines that interact in an agency and constitute themselves mutually, without any hierarchy between them. We intend to do it based on the Whitehead’s concept of actual entity. He is one of the key influencers of speculative realism, often cited especially by Shaviro. We still intend to sketch a relation between Whitehead’s concept of feeling and Peirce’s perception theory.”

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Fita de Möbius (foto: Daniele Fernandes)

A dualidade sujeito-objeto e a superioridade do primeiro em relação ao segundo formam uma das ideias filosóficas mais criticadas pelo realismo especulativo. Uma das saídas para isso está na noção de máquina de Levi Bryant. Para ele, máquinas são entidades que funcionam, operam, agem (cf. BRYANT, 2014, p. 15). Shaviro, por sua vez, usa a noção de actante de Latour para se referir tanto a ferramentas, quanto a seres humanos e a coisas em geral (cf. SHAVIRO, 2011, p. 3), indicando uma ausência de hierarquia ontológica entre os seres.

Neste post, pretendemos apresentar tanto o sujeito quanto o objeto como máquinas que interagem em um agenciamento e se formam mutuamente, sem que haja hierarquia entre eles. Pretendemos fazê-lo baseando-nos no conceito de entidade atual de Whitehead, um dos principais influenciadores do realismo especulativo, muito citado especialmente citado por Shaviro. Ainda pretendemos esboçar uma relação entre o conceito de sensação em Whitehead e o de percepção em Peirce.

Para entendermos o que é entidade atual, sujeito e objeto em Whitehead, precisamos antes entender alguns outros conceitos que lhes dão suporte: sensação, preensão, concrescência, satisfação e o que o autor chama de filosofia do organismo.

A filosofia do organismo é, para Whitehead, uma filosofia de processos, em que os elementos últimos da realidade são células de atualidade, também chamadas de entidades atuais. São elementos atômicos, complexos e discretos (tanto no tempo quanto no espaço) que possuem unidade e são fundamentalmente diferentes em relação aos outros. Entretanto, o mais interessante é que essas próprias células são em si processos.

A entidade atual (célula de atualidade), objeto da sensação física, forma-se por meio da integração de suas próprias sensações. Isso parece paradoxal; mas é o cerne do pensamento que faz romper a dualidade sujeito-objeto. A sensação, para Whitehead, é um processo de apropriação positiva de elementos de outras entidades. A esse processo de apropriação, positiva ou não, ele dá o nome de preensão e é esse processo de apropriação que funda a existência de uma entidade atual. Sensação é o mesmo que preensão positiva.

Definindo melhor, o processo da sensação é composto por cinco fatores: “(i) o ‘sujeito’ que sente, (ii) os‘dados iniciais’ que são para ser sentidos, (iii) a ‘eliminação’ em virtude das preensões negativas, (iv) o ‘dado objetivo’ que é sentido, (v) a ‘forma subjetiva’ que é como o sujeito sente aquele dado objetivo” (WHITEHEAD, 1978, p. 221). Os dados iniciais são tudo o que está no mundo e que ainda não foi sentido pelo sujeito. Desse universo de dados, o sujeito elimina vários, excluindo-os do seu mundo atual por meio das preensões negativas. Mas esse “negativo” seria melhor descrito como um potencial de apropriação que não foi atualizado. O dado objetivo é o que sobra dos dados iniciais depois da eliminação. Por fim, a forma subjetiva é a maneira como o sujeito interpreta o dado objetivo. É o que o sujeito efetivamente sente e é o que atribui novidade à sensação, pois cada sujeito sente de maneira diferente os dados iniciais e mesmo o dado objetivo.

Guardadas as devidas proporções, sem entrar nos meandros teóricos de cada autor, parece-nos que os “dados iniciais” estão para o “percepto” de Peirce, que ocupa o lugar lógico do objeto dinâmico; o “dado objetivo” está para o “percipuum”, que ocupa o lugar lógico do objeto imediato (não se tem controle sobre ele) e a “forma subjetiva” está para o “juízo perceptivo”, ligado a esquemas interpretativos. O dado objetivo seria mais como a sensação pura, antes de qualquer percepção propriamente dita. Mas, na medida em que o percipuum é o percepto tal como é imediatamente interpretado no julgamento perceptivo, ele depende de dois filtros. Um é dado pelo aparato sensorial do organismo e outro, pelos seus esquemas mentais. São, portanto, duas camadas de critérios seletivos eliminatórios que ainda não têm nada a ver com ações intencionais.

Já o “sujeito” de Whitehead estaria mais para o “intérprete”, dado que não existe algo semelhante a um sujeito em Peirce. Na semiose peirciana, a figura do sujeito é substituída pelo papel que o intérprete ocupa na cadeia sígnica (signo-objeto-interpretante) quando se produz uma interpretação (outro signo) na mente desse intérprete. O signo rompe a relação dual entre sujeito e objeto ao ser um mediador entre a mente interpretadora e o mundo objetivo (SANTAELLA, 2014).

Para Whitehead, por seu lado, não há hierarquia entre dados iniciais e forma subjetiva, pois embora a sensação “precise sempre ter referência reprodutiva aos dados, não é totalmente determinada por eles. […] [a entidade atual] é uma integração progressiva de sensações controladas por suas formas subjetivas.” (WHITEHEAD, 1978, p. 232). Peirce também não estabelece hierarquia entre percepto e juízo perceptivo; aliás, não faz nenhum sentido falar em superioridade de nenhum dos três correlatos da percepção, incluindo o percipuum.

Para uma discussão específica da relação entre signo em Peirce e máquina no realismo especulativo, deve-se consultar o texto O universo permeado de máquinas de Levi Bryant (NÖTH, 2015), que se encontra neste blog.

Retornando a Whitehead, as sensações são, portanto, um processo que vai dos dados iniciais a uma novidade subjetiva, sem que haja uma superioridade hierárquica entre eles. O processo de integração de preensões positivas (sensações) é a própria entidade atual em si, a célula complexa de atualidade de Whitehead. Na verdade, ele chama de concrescência esse processo de constituição das entidades atuais. E esse processo se consolida na satisfação, que é precisamente quando a integração das sensações adquire uma unidade subjetiva completa, acrescentando novidade ao universo. É nesse ponto que seu processo interno se desgasta, mas que a entidade atual se torna capaz de produzir efeitos em outras entidades.

Os efeitos de uma entidade atual são justamente “suas intervenções em processos de concrescência outros que não o seu próprio. Qualquer entidade assim intervindo em processos que transcendem a si mesma, diz-se estar funcionando como um ‘objeto’” (WHITEHEAD,1978, p. 220). Esse é o conceito de objeto em Whitehead: uma entidade funciona como objeto se é capaz de produzir efeitos em outras entidades. Por isso, dissemos que o objeto de Whitehead é uma máquina, pois funciona (age, opera) em um agenciamento de entidades atuais.

Na verdade, essa máquina (ou entidade atual) pode se comportar como objeto, quando é preendida, e como sujeito, quando é preendente. Mas vejamos o que Whitehead entende por sujeito. Segundo ele, “O termo ‘sujeito’ tem sido mantido porque nesse sentido é familiar em filosofia. Mas ele é enganador. O termo ‘superjecto’ seria melhor. O sujeito-superjecto é o propósito do processo que origina as sensações” (ibid., 1978, p. 222). Se, por um lado, a causa final e unidade das sensações é o superjecto, as sensações que ele tem dos objetos o constituem como superjecto. Onde está a hierarquia?

É somente na satisfação, quando intervém a unidade subjetiva, introduzindo a novidade na sensação, que a entidade atual passa a funcionar como objeto para outra entidade (superjecto), por ser capaz de produzir efeitos nela. Não existe superjecto sem objeto ou vice-versa: ambas são entidades atuais constituídas por sensações, que, por sua vez, são o fruto do encontro entre os dois. Na verdade, não há hierarquia entre sujeito e objeto porque uma mesma entidade atual se comporta como sujeito preendente e como objeto preendido. A célula de atualidade ou entidade atual é, em si, uma máquina, funcionando com outras entidades. É, na verdade, um processo maquínico constituído pela integração de sensações e que funciona tanto como superjecto quanto como objeto, dependendo do papel que desempenha no agenciamento no qual se encontra.

Referências

BRYANT, Levi. Onto-Cartography: An Ontology of Machines and Media. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2014.

NÖTH, Winfried. O universo permeado de máquinas de Levi Bryant. Trad. Adelino Gala. 2015. Disponível em: <https://transobjeto.wordpress.com/2015/04/05/o-universo-permeado-de-maquinas-de-levi-bryant/&gt; Acesso: 02/06/2016.

SANTAELLA, Lucia. A renitência do binômio sujeito-objeto. 2014. Disponível em: <https://transobjeto.wordpress.com/2014/05/15/a-renitencia-do-binomio-sujeito-objeto/&gt; Acesso: 02/06/2016.

SHAVIRO, Steven. The universe of things. 2011. Disponível em: <http://www.shaviro.com/Othertexts/Things.pdf&gt; Acesso: 02/06/2016.

WHITEHEAD, Alfred. Process and Reality: An Essay in Cosmology. New York: The Free Press, 1978.

 

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