Realismo Especulativo vs. Deleuzeanismo: reflexões sobre a arte

por Márcia Fusaro

Speculative Realism vs. Deleuzeanism: reflections on art

[Abstract]

“Deleuze devoted a major part of his philosophy and reflections to art. He is acknowledged to have been a major influence upon speculative realism. In this work I propose certain reflections on possible proximities to, and distances from, art as seen by Deleuze – the result of inchoate dynamic interactions between affects and percepts – and art as seen by twenty-first-century speculative realists, above all Graham Harman, one of the founders of the movement, and Timothy Morton, alongside Harman, one of the best-known thinkers in the movement in its connections to contemporary art.”

Untitled1Our Product – Pamela Rosenkranz (Bienal de Veneza, 2015)
Untitled2Nebulosa do Véu – Imagem do Telescópio Hubble (NASA)

Desde que tomei contato com a proposta filosófica do Realismo Especulativo, tenho me interessado em saber como esse novo movimento considera a arte. Afinal, como entender a arte para além da manifestação do binômio sujeito-objeto? As artes contemporâneas & o realismo especulativo, publicação de Lucia Santaella, postada em 26 de abril de 2016, aqui no Transobjeto, trouxe algumas luzes sobre essa abordagem, da qual parto para outras reflexões.

Quanto aos textos dos realistas especulativos que tenho lido, alguns produzidos por seus próprios fundadores, outros por seus defensores, confesso que tenho sentido falta de alguma presença poética. Excetuando-se, talvez, Timothy Morton, aliado posterior ao início do movimento, estudioso de arte e literatura em interfaces ecológicas. Talvez eu esteja mal-acostumada, frequentadora que sou dos escritos de Deleuze, onde poesia e filosofia não se apartam, mesmo quando em diálogo com a ciência. Ensinamento de Nietzsche, um de seus principais interlocutores, e de autores do naipe de um Proust, um Kafka, aos quais dedicou destacáveis reflexões literário-filosóficas. A pintura de Francis Bacon, o teatro de Beckett, o cinema clássico e o moderno compuseram outros de seus trajetos filosóficos voltados à arte. Sendo Deleuze um dos influenciadores do Realismo Especulativo, citado por seus fundadores, elimina-se dessa influência, no entanto, sua poética do pensamento. Por outro lado, tratando a questão por um viés menos ingênuo, se uma das principais reivindicações do RE é a desarticulação da relação sujeito-objeto (correlacionismo), muito provavelmente a eliminação da poesia se mostre um caminho mais seguro (Seguro mesmo?, deixo a pergunta) para se evitar qualquer possível manifestação de subjetividade.

Ainda que delimitado mais por pontilhismos conceituais, do que, propriamente, alinhavamentos, ao menos há que se atribuir crédito à virada ontológica proposta pelo Realismo Especulativo (RE) e pela Ontologia Orientada ao Objeto (OOO), movimentos interligados, também quando relacionados à arte contemporânea: ambos estão nos forçando a pensar, e bem ao gosto deleuzeano, quando o filósofo se referia aos efeitos requeridos para a arte. Segundo Deleuze (1987, p. 97), os signos da arte nos forçam a pensar, desencadeando no pensamento aquilo que menos depende de sua boa vontade: o próprio ato de pensar. Os signos da arte põem o pensamento em movimento, forçando-o a pensar as essências. E ninguém melhor do que os artistas para nos indicar não somente o que nos chega probabilisticamente do futuro, na forma de ondas de choque reverberando em direção ao passado (nosso presente), mas também quais os possíveis, rizomáticos, caminhos contemporâneos sobre o sentir e o pensar artístico.

Nesse trajeto, identificam-se alguns pontos de convergência e divergência quanto ao que pensa Deleuze sobre a arte e sobre como a definem Graham Harman e Timothy Morton, dois dos principais pensadores do RE e da OOO cujos olhares se voltam à arte. Para Morton (2015), a OOO pensa a arte não como objeto decorativo direcionado ao ser humano, mas como “carisma”, termo recuperado de sua leitura crítica da sociologia advinda de Max Weber. Em suas argumentações também identificam-se influências de sua leitura crítica sobre o conceito de “aura” postulado por Walter Benjamin. Segundo Morton, a sociologia, por preconceito cientificista, passou a ignorar e se afastar de conceitos como carisma, força, campo de energia circundante ou inerente a um objeto, conceitos estes que fascinavam o próprio Weber. Por esse viés preconceituoso, a sociologia passou mesmo a negar um conceito basilar em sua constituição, o carisma, ou a energia atrativa emanada por certos indivíduos incentivadores de formas sociais organizadas menos hierarquicamente. Morton (ibid.) defende que produzir uma obra de arte é interferir diretamente no reino das causas e efeitos. A OOO defende algo muito próximo ao que afirmam os aborígenes: o mundo é sonho posto em existência e a causalidade é um tipo de sonho, ou seja, uma espécie de arte.

Para ele, as normas de tratamento sobre a arte ignoram o carisma do conjunto do objeto arte, e dos objetos que o compõem individualmente, bem como seu status de coisa que se mantém separada e igual a todas as outras coisas. O carisma, por sua leitura, anula a hierarquia das relações entre os objetos, quaisquer que sejam os objetos, quaisquer que sejam as relações. E se, de fato, existir um campo de energia na arte?, questiona ele. O que isso implicaria? Implicaria termos de admitir algo que tem atemorizado a filosofia “civilizada” desde Platão: o fato de que a arte tem um efeito sobre o qual o ser humano não tem controle. A arte é demoníaca: emana de algo não visto, ou mesmo invisível, vindo de além, no sentido de que não estamos no controle disso, nem, de fato, percebemos diretamente aquilo que está diante de nós, mas constantemente presente. Uma “perigosa cintilação causativa”, em outras palavras, “magia”. Palavra proibida no meio científico, mas não na arte. Em termos mais ousados, propostos pela OOO e considerando as descobertas de Einstein e da física quântica sobre interações não-locais, magia, força, energia, carisma, atuantes nos objetos de arte, não são conceitos proibidos nem inexistentes, muito pelo contrário. Morton defende a OOO e a quebra de hierarquia entre objetos. Ao argumentar sobre a noção de “carisma” como relação de causa e efeito entre os objetos da arte, detectam-se, a nosso ver, ainda que sob nova roupagem e não referenciados, índices remanescentes dos conceitos de agenciamento e do plano de imanência deleuzeanos.

Graham Harman, por sua vez, defende a arte sem relações, onde nenhuma das coisas que podemos nomear podem ser pensadas como intrinsecamente menos reais, vitais ou importantes do que outras (HARMAN, 2014; KERR, 2016), ideia esta vinculada à forte rejeição do correlacionismo levada a cabo pela OOO e pelo RE. Por diferentes abordagens, ambos os pensadores se dizem contrários ao correlacionismo, um dos conceitos basilares da filosofia de Deleuze, além de seu vitalismo peculiar, posto que não necessariamente orgânico (PELBART, 2010; ZOURABICHVILI, 2004, pp. 59-62). O fato é que para a OOO, tudo é objeto, seja ele vivo ou não, artificial, conceitual. Por esse viés, as células de nosso corpo são objetos tanto quanto nós mesmos, insetos, gotas de chuva, pedras, obras de arte, nebulosas, galáxias.

Ora, por esse ângulo, talvez o RE e a OOO não estejam assim tão apartados da poesia… Ao menos conceitualmente. Aplicado à arte, esse debate, ainda repleto de pontas soltas, entre a base conceitual da OOO, o correlacionismo deleuzeano e seu vitalismo peculiar, lembram-me passagens da literatura em devir filosófico do romance A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector. G.H. deixa de se considerar humana para se tornar tão somente as iniciais de um nome gravadas em uma mala, enquanto percorre, em devir, vertiginoso mergulho de autodescoberta para identificar-se visceralmente ao “neutro”, “it” de uma barata esmagada no canto do guarda-roupa.

Eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede. (…) A grande realidade neutra do que eu estava vivendo me ultrapassava na sua extrema objetividade. (…) O neutro era o inferno (…) O neutro. Estou falando do elemento vital que liga as coisas. (…) Se a pessoa tiver coragem de largar os sentimentos, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio – o demoníaco é antes do humano. (…) Quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo, a pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço de ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso, e o grito (LISPECTOR, 1998, pp. 65-143).

Deleuze entende a arte como um bloco de sensações que existe em si. A arte é a única coisa no mundo que conserva e se conserva, ainda que não dure mais que seu suporte e seus materiais. Não é dependente do espectador, que se limita a experimentá-la, em um segundo momento, tampouco depende de seu criador. A arte é independente do criador, pela autossustentação do criado, que se conserva em si. “O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um composto de afectos e perceptos” (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 213).

Afectos e perceptos são aquilo que, em agenciamento, atribuem à obra de arte seu status de independência, justamente por não se confundirem, respectivamente, com sentimentos e percepções. “O artista cria blocos de perceptos e afectos, mas a única lei da criação é que o composto deve ficar de pé sozinho” (ibid., pp. 213-4). Perceptos não são mais percepções, por serem independentes do estado daqueles que os experimentam. Afectos não são mais sentimentos ou afecções, porque passam a existir para além daqueles atravessados por eles. Perceptos e afectos, portanto, valem por si mesmos e excedem qualquer vivido.

O vitalismo não-orgânico, oriundo do peculiar vitalismo filosófico deleuzeano (ZOURABICHVILI, 2004, pp. 59-62), a nosso ver, dialoga com o “carisma” atribuído por Morton à obra de arte no âmbito proposto pela OOO. Também o conceito de autonomia parece constituir um forte vínculo entre o objeto entendido pela OOO e a arte entendida por Deleuze. Exemplos do carisma anunciado por Morton, que, em termos deleuzeanos, poderia ser entendido como agenciamentos entre afectos e perceptos proporcionadores de um vitalismo não-orgânico, podem ser identificados, por exemplo, em obras como Our Product, de Pamela Rosenkranz, exposta na Bienal de Veneza de 2015 (figura 1).

A artista cobriu o chão do Pavilhão Suíço com uma mistura de várias substâncias (silicone, água Evian, Viagra, entre outros), de modo a criar um líquido cuja cor imitasse o padrão de cor da pele europeia predominante, a mesma utilizada pela publicidade para intensificar fisicamente a atenção (daí também toda uma crítica sociológica), segundo o registro da imprensa que cobriu o evento. Combinada aos sons de água batendo, gerados por computador, uma pintura verde, intensificada hormonalmente, e à imitação do cheiro típico de um recém-nascido, o pavilhão se mostrou um exemplo concreto da ideia da OOO: todos os objetos (eles próprios compostos de outros tantos objetos) exercem poder sobre outros objetos em torno deles, criando uma relação (agenciamento proporcionador de vitalismo não-orgânico, em termos deleuzeanos) entre o espectador e a obra de arte, ou aquilo que Morton chama de “carisma”. Esse diálogo reivindicador da autonomia dos objetos e do carisma da arte (Morton), e da obra de arte que fica de pé sozinha (Deleuze), parece se traduzir nas palavras da própria artista ao descrever sua arte: “Parece viva, mas eu e minha equipe tentamos não mantê-la ´viva demais´. Uma obra de arte desenvolve seu próprio tipo de audiência devido à independência que ela desenvolve” (KERR, 2016).

Muitas perguntas persistem nesse debate ainda repleto de pontas soltas, ao qual provavelmente voltaremos em postagens futuras. Se tudo é objeto, incluindo-se o humano e todos os componentes da obra de arte, quais seriam, afinal, os objetos definidores da arte contemporânea à luz da OOO e do RE? Seria, então, a arrebatadora beleza da Nebulosa do Véu (figura 2) tão digna de ser considerada obra de arte/objeto(s), – assinada pela Natureza? –, quanto a instalação/objeto(s) de Pamela Rosenkranz (figura 1)? Ao expor na Bienal de Veneza de 2015 – ambiente/objeto dedicado à arte –, a artista suíça assina sua obra Our Product, a exemplo de outros tantos artistas ligados à OOO (cf. KERR, 2016). Não seria este ainda um índice reminiscente do correlacionismo rejeitado pela OOO e pelo RE? Nos termos propostos por ambos os movimentos, a obra de arte ainda requer mesmo assinatura? Estaria a arte não apenas revendo a si mesma, mas também sua noção de composição e autoria?

Referências bibliográficas

BRYANT, Levi; SRNICEK, Nick e HARMAN, Graham (eds.) The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism. Australia: re press, 2011. Disponível em: http://www.re-press.org/book-files/OA_Version_Speculative_Turn_9780980668346.pdf. Acesso em 01/07/2016.

DELEUZE, Gilles. Proust e os Signos. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

HARMAN, Graham. Graham Harman: Art Without Relations. Art Review. Sept 2014. Disponível em: http://artreview.com/features/september_2014_graham_harman_relations/. Acesso em Acesso em 01/07/2016.

KERR, Dylan. What is Object-Oriented-Ontology? A Quick-and-Dirty Guide to the Philosophical Movement Sweeping the Art World. Artspace. April 8, 2016. Disponível em: http://www.artspace.com/magazine/interviews_features/the_big_idea/a-guide-to-object-oriented-ontology-art-53690. Acesso em 01/07/2016.

LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

MORTON, Timothy. Charisma and Causality. Art Review. Nov 2015. Disponível em: http://artreview.com/features/november_2015_feature_timothy_morton_charisma_causality/. Acesso em: 03/07/2016.

_____. Hyperobjets: Philosophy and Ecology After de End of the World. Minnesota: University of Minnesota Press, 2013.

_____. Ecology without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics. Massachusetts: Harvard University Press, 2007.

PELBART, Peter Pál. A Utopia Imanente. Revista Cult, ed.108, 2010. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/a-utopia-imanente/. Acesso em: 12/06/2016.

SANTAELLA, Lucia. As artes contemporâneas & o realismo especulativo. Transobjeto. 26/04/2016. Disponível em: https://transobjeto.wordpress.com/2016/04/26/as-artes-contemporaneas-o-realismo-especulativo/. Acesso em: 26/04/2016.

ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Centro Interdisciplinar de Estudos em Novas Tecnologias e Informação, 2004. Disponível em: http://escolanomade.org/wp-content/downloads/deleuze-vocabulario-francois-zourabichvili.pdf. Acesso em: 29/05/2016.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s