Os enlaces da mente-matéria

por Lucia Santaella

[Abstract]

“Quantum physics has brought to the fore the question of the effects that consciousness can provoke in the physical world. At that time treated somehow naively, the question has returned very forcefully recently, in ontological debates under the name of the post-human turn, in which are engaged philosophers, media theorists, artists and scientists. One of the key elements of these debates lies in the search for overcoming the old Western dichotomies, among which the most fundamental is that of mind / matter. Unfortunately Peirce’s potent philosophy has been the great forgotten of these debates, although in it can be found invaluable sources for solving many dilemmas.”

poster4

Em 15 de janeiro de 2016, a revista Pazes, de caráter espiritual, lançou uma matéria com um título aparentemente sensacionalista: “Físicos chocam o mundo ao afirmarem que nossos pensamentos afetam o mundo fisico”. O conteúdo do texto, de fato, apresenta noções surpreendentes e até mesmo chocantes.

Para introduzir o leitor ao tema, as afirmações iniciais são relativamente consensuais: “Década após década, vários cientistas têm considerado os fatores associados à consciência (percepção, sentimentos, emoções, atenção mental, intenção etc.) como parte fundamental da ciência – que não se pode compreender plenamente ciência, física, especialmente quantum, sem incluir o estudo da consciência.”

Entretanto o texto avança para noções mais ousadas, como, por exemplo, a afirmação de Max Plank: “Eu considero a matéria como um produto derivado de consciência”. Ou então, a declaração de Eugene Wigner de que “não foi possível formular as leis da mecânica quântica de uma forma plenamente coerente sem referência à consciência.” Sem dúvida, há algum tempo, os físicos estão sendo forçados a admitir que o universo é uma construção mental, a ponto de Sir James Jeans ter sido levado a declarar que “o fluxo de conhecimento está caminhando em direção a uma realidade não-mecânica; o universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma grande máquina. A mente já não parece ser um intruso acidental no reino da matéria, devemos saudá-la, em vez como o criador e governador do reino da matéria”. Com tudo isso, somos levados a concluir, com RC Henry, que “o universo é imaterial-mental e espiritual.”

Tanto quanto posso ver, tais afirmações vão muito além da já absorvida constatação de que o ato de observação muda a natureza de um sistema físico e pode significar que a consciência tem efeitos no mundo físico. Em suma, a constatação de que o observador interfere e cria a realidade. Para ir além dessas constatações até certo ponto consensuais desde a física quântica e avaliar o choque provocado por afirmações relativas à mente como regente da matéria, é preciso superar heranças filosóficas dicotômicas que ainda continuam fortemente arraigadas no pensamento ocidental.

Para não irmos muito mais longe do que o início da filosofia moderna, pode-se dizer que a fonte dos dualismos, especialmente no que diz respeito à mente-matéria, de que todos os outros dualismos decorrem, encontra-se nos dois reinos precisamente separados do sistema cartesiano: o reino imaterial do pensamento (res cogitans) e o reino da matéria (res extensa). Desde então, não obstante o grande número de autores que, há um século, têm buscado desconstruir essa separação, ela ainda continua firme e rija. Essa firmeza foi fortalecida, em vez de fragilizada, pela divisão, também em dois reinos, a partir do século XIX, estendendo-se por todo o século XX, das ciências da natureza, de um lado, e das ciências do psiquismo e humanas, de outro. Difícil negar que se trata aí de dois reinos incomunicáveis, uma incomunicabilidade que sofreu poucos abalos até mesmo com a revolução informacional da biologia a partir dos anos 1950. Em síntese, matéria é vista como uma realidade, enquanto mente, pensamento e consciência é outra. Não é casual, portanto, que apenas uma publicação de cunho espiritualista se veja no direito de publicar um breve artigo acerca da primazia da consciência-mente sobre a matéria, sabendo, de antemão, que isso deveria chocar o leitor.

O pior de tudo isso é que, conforme o conhecimento sobre o cérebro e a mente avança nas ciências cognitivas, que tanto sucesso têm alcançado desde meados do século XX, em vez de serem vencidas, as dicotomias se acentuam. Enquanto o conhecimento da mente progride nas pesquisas de inteligência artificial, o nó da consciência ainda continua apertadamente atado: as concepções de consciência patinam em controvérsias.

De qualquer modo, a história humana não apresenta problemas que não esteja preparada para responder em momentos históricos definidos. Na nossa historicidade em que o código da vida vem sendo manipulado, em que o universo nano está sendo sobejamente explorado, em que matérias e vidas artificiais estão em pleno curso de configuração, não cabe mais a divisão entre mente e matéria. O real fala mais alto do que nossas herdadas fantasias filosóficas. Tanto é assim que, aqui e acolá, quando estamos atentos ao problema, deparamo-nos com lúcidas afirmações, como por exemplo, a de Christopher Cox, pensador e teórico das mídias inglês, conforme foi expressa no forum Empyre, no dia 22/06/2014:

Uma das razões pelas quais o som tem importância filosófica, eu penso, é que ele desestabiliza nossa ontologia comum, que erroneamente toma a “matéria” como consistindo de objetos discretos, sólidos, visíveis e tangíveis. O mundo é uma unidade de matéria e energia, uma coleção de fluxos contínuos e mutáveis. O som desempenha um papel proeminente na investigação e transformação criativa desse fluxo. Penso que é isso que o materialismo afirma.

O campo do pensamento atual — em que as mentes atentas estão engajadas, e que mais tem sido afetado pela equivocada concepção de matéria na sua consequente separação do universo da mente — é aquele que vem sendo chamado de “virada do não-humano” (non-human turn). Decorrência e necessária evolução das discussões sobre pós-humano deslanchadas desde os anos 1980, no estado da arte atual, o não-humano engloba estudos interdisciplinares das mais diversas ordens, todos eles endereçados para o descentramento do humano no seio da biosfera. Entendendo o não-humano em termos do mundo animal, da afetividade, dos corpos, dos sistemas orgânicos e geofísicos, das materialidades e das tecnologias, esses estudos buscam caminhos de enfrentamento, nas artes, nas humanidades e nas ciências sociais, aos desafios que o século XXI está apresentado. Ou seja, enfrentar os modos como este século implica, mais do que isso, exige o nosso engajamento com o que não é humano, tais como mudanças climáticas, secas, fome, biotecnologia, genocídio, terrorismo, guerra e até mesmo o Antropoceno, o novo período geológico do planeta, fruto do peso e feridas que as ações humanas, muitas vezes insanas, imprimiram sobre a biosfera (ver GRUSIN, 2015, p. vii). Segundo o autor (ibid., p. viii), as filosofias e teorias que têm demonstrado seu engajamento no amplo espectro das questões do não-humano são:

  1. A teoria ator-rede de Bruno Latour e outros que versa sobre os objetos sociotécnicos a partir de uma ontologia plana entre humanos e não-humanos, dos agenciamentos não-humanos e do parlamento das coisas.
  2. A teoria dos afetos, tal como foi mobilizada pelas discussões sobre diversidade sexual.
  3. Os estudos sobre os animais e seus direitos.
  4. A teoria da assemblage, de Deleuze e DeLanda.
  5. As teorias do cérebro, neurociências, ciências cognitivas, inteligência, consciência e vida artificiais.
  6. O novo materialismo, especialmente nas teorias feministas.
  7. As teorias midiáticas, com atenção para as redes, interfaces e análise computacional.
  8. Todas as variedades do realismo especulativo ou filosofia orientada a objetos, neovitalismo e pampsiquismo.

As teorias aí elencadas esbarram inevitavelmente e buscam superar a velha ontologia dicotômica da mente-matéria. Em uma outra participação no fórum Empyre, Cox (19/06/2014) afirma:

O mundo não-humano não é o “outro” do qual estamos apartados. Seres humanos são DO mundo, nem ACIMA, nem AO LADO dele. E os processos humanos de perceber e conhecer são simples variantes de processos de seleção, incorporação, assimilação etc. pelo quais o mundo todo (inorgânico, orgânico, animal, humano…) opera. Seria exótico pensar diferente: pensar que o não-humano é algo misterioso e inefável e que, apesar de nossos esforços, para sempre nos escapa. É antropocêntrico e narcisista endossar uma espécie de solipsismo que nos encerra em nossa própria bolha epistemológica. Podemos conhecer o mundo porque não somos um outro em relação a ele, porque estamos em continuidade com ele.

Embora urgente diante das contingências históricas que estamos atravessando, conceber tal continuidade não é tarefa fácil, pois implica ir além das meras reivindicações. Mais difícil essa concepção se torna, quando se sabe o quão arraigado está aquilo que Cox chama de falsa dicotomia entre a materialidade muda, de um lado, e as ideologias, economias, sociedades, sujeitos, história, poder, de outro. Para Cox, essa dicotomia está mapeada sobre outras falsas dicotomias: físico vs cultural, extra-discursivo vs discursive etc. Para ele, ao contrário, “o mundo está cheio de diferenças de grau e não de dicotomias ou diferenças de espécie. Ele forma um único plano. E o que quer que o humano, o social, o ideológico, o discursivo etc. sejam, eles são contínuos com o físico, o material etc.

Sem minimizar a importância das teorias atuais voltadas para a construção de uma ontologia plana, é mais do que surpreendente, é mesmo impressionante a coincidência das afirmações e reivindicações de Cox com aquilo que a filosofia peirciana pode nos oferecer, uma filosofia que encontra no sinequismo ou teoria da continuidade sua chave mestra. Infelizmente, a filosofia de Peirce resiste em sua originalidade radical o que tem impedido sua absorção em larga escala. É uma grande pena, pois ela nos oferta uma teia de conceitos capazes de enfrentar os dilemas com que as condições do presente nos desafiam.

A teoria do sinequismo, com toda a fundamentação exigida por uma filosofia com letra maiúscula, propõe a continuidade entre mente e matéria. Isso só pode se tornar compreensível se acompanharmos Peirce na sua proposta de que a lei da mente (esta concebida como um princípio lógico não exclusivamente antropocêntrico) rege o universo. Em consequência disso, mente e consciência não são sinônimos, pois enquanto a primeira pertence à categoria da lei, a segunda pertence à categoria da possibilidade, o que nos ajuda a superar a mera inversão da matéria pela consciência como é professada ingenuamente pelos físicos. Embora eles estejam, sem dúvida, baseados em uma intuição válida, ela é mal fundamentada, daí sua ingenuidade e mera inversão ainda estritamente dualista que substitui a matéria pela consciência.

A noção peirciana da matéria, como lei da mente em estado embrutecido por hábitos enrijecidos, está sustentada na noção de semiose como continuidade genuína, ou seja, a lei em seu estado de operacionalidade, e a semiose não-genuína, quer dizer, em estado rudimentar ou em estado de degeneração. Semiose é ação dos signos, ou seja, formas diferenciadas de mediação entre nós e o mundo e entre as coisas do mundo entre si. Assim sendo, nossos pensamentos quando externalizados e tornados públicos agem, de fato, no mundo e o transformam, não de maneira direta, mas sim pela mediação dos signos, das linguagens que o ser humano produz e que repercutem na mente e consequentemente nas ações e condutas, pois pensamentos são guias para as ações. Vem daí a gigantesca importância da educação e do trabalho contínuo com os pensamentos que acalentamos. Mas para melhor entender isso, é preciso abandonar a noção egóica e enevoada de consciência e alçá-la à noção coletiva de pensamento ou mente como signos que se externalizam.

Tudo isso pode soar como discurso cifrado se não adentrarmos cuidadosamente pelos meandros das teias conceituais peircianas, o que prometo enfrentar em uma outra ocasião, pedindo, portanto, ao leitor, a paciência de me aguardar.

Referências

GRUSIN, Richard. Introduction. In The nonhuman turn. Minneapolis: The University of Minnesota Press, 2015, p. vii-xxix.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s