Encontros com os professores Fernando Andacht e Mariela Michel

por Clayton Policarpo e Soraya Ferreira

[Abstract]:

“The study group Transobjeto promoted on May 8 and 9, meetings with professors Fernando Andacht and Mariela Michel, researchers in the C.S. Peirce’s semiotics. Andacht spoke about Peircean semiotics and its potential for communication studies and the peculiar taste of mediation in some failed attempts to represent equality, making explicit the semiotic concepts from presented examples. In her presentation, children in the semiotic captivity of prejudice, Michel used the self concept in order to reach out to the self-interpretation and identity of children living on the suburb of Montevideo, Uruguay. The presented text brings the main points and examples exposed by the invited professors.”

fernando_marielaFernando Andacht e Mariela Michel. Foto Soraya Ferreira.

 

Como parte do projeto temático PIPEq (plano de incentivo à pesquisa da PUC-SP), coordenado por Lucia Santaella, o grupo TransObjetO promoveu, nos dias 08 e 09 de maio, encontros com os professores Fernando Andacht (professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade de la Republica, Montevideo) e Mariela Michel (docente de cursos na Asociación de Psicopatología y Psiquiatría de la Infancia y Adolescencia, Hospital Pereira Rossell, Montevideo). Ambos encontros foram realizados na PUC-SP – Campus Perdizes. O texto aqui apresentado tem o intuito de reunir as principais colocações de Andacht e Michel, e os exemplos apresentados nos encontros.

Frente à necessidade de se repensar uma nova ontologia e epistemologia que emergem das relações em rede, a semiótica peirceana desponta como um caminho de pesquisa a ser explorado. Modelos diádicos de análise tendem a considerar a relação entre um sujeito que percebe e o objeto percebido, de modo que gera partes opositivas e não relacionais. Ao estruturarmos o pensamento e pesquisa em um modelo triádico, tal qual proposto por Charles Sanders Peirce (1839-1914), a relação é colocada no centro da experiência, o que supre supostas hierarquias entre os elementos que constituem a percepção.

1. A semiótica peirceana e seu potencial para estudos de comunicação

A extensa obra de Peirce somada a complexidade de suas teorias geram, por vezes, dificuldades de compreensão e resistência quanto ao seu uso. O percurso expositivo, adotado por Fernando Andacht em sua apresentação, associou com maestria elementos conceituais e análises de obras audiovisuais contemporâneas, o que contribui para uma elucidação dos conceitos, ao tempo que desvela uma indiscernibilidade entre pesquisa e prática em comunicação.

Dentro da tríade peirceana, o objeto e o interpretante são os correlatos do signo. Os conceitos de objeto dinâmico e objeto imediato, e as relações estabelecidas entre ambos, corroboram na compreensão do processo de semiose. Enquanto o objeto dinâmico não considera aspectos particulares, o objeto imediato é representado no contexto da semiose, dispõe de uma referência específica para criar um interpretante do signo. Da relação entre o representamen e seu objeto resultam os signos icônicos, signos indiciais e signos simbólicos. A experiência tende a mesclar as categorias, de modo que as aproximações propostas nos exemplos são recortes que evidenciam propriedades específicas dos signos.

O primeiro exemplo apresentado refere-se ao signo icônico. Em 2008, o grupo musical (e multicultural) Black Eyed Peas lançou o videoclipe Yes We Can. Composto por uma colagem que, ao musicar o discurso do então candidato à presidência dos Estados Unidos, intercala trechos da fala de Barack Obama e vídeos em que diversos apoiadores reproduzem o discurso do candidato. Palavras são signos simbólicos, definidos como leis, e embora o vídeo faça referência a um texto, os aspectos emocionais tendem a sobrepor as normas. Em sua definição de ícone, Peirce nos diz que:

Ele é da natureza de uma aparência, e como tal, estritamente falando só existe na consciência, embora por conveniência na fala comum e quando a extrema precisão não é necessária, possamos estender o termo ícone para os objetos externos que excitam na consciência a imagem ela mesma (CP. 4.447).

O discurso, aliado ao vídeo e a música, resgatam uma iconicidade da fala. O sentimento se sobrepõe ao raciocínio, e mais do que a palavra enquanto signo simbólico, temos uma celebração de natureza icônica.

Com relação aos aspectos dos signos indiciais, Andacht nos trouxe dois vídeos onde a relação entre o signo e um objeto individual são evidenciadas. Santaella resgata os seis caracteres distintivos do índice propostos por Goudge, e que contribuem na compreensão da natureza dessa classe de signos:

(1) O índice tem uma conexão física, direta com seu objeto, ou é realmente afetado por esse objeto, a mente interpretadora não tendo nada a ver com essa conexão a não ser notá-la. (2) O índice exerce uma influência compulsiva no interprete, forçando-o a atentar para o objeto indicado. (3) O índice envolve a existência de seu objeto de modo a formar com ele um par inseparável. (4) O objeto é sempre uma entidade individual. (5) O índice não faz nenhuma asserção, apenas mostra o seu objeto. (6) A relação entre índice e objeto é não racional, uma questão de fato bruto, secundidade (Goudge, 1965 apud Santaella, 1995 p.162).

O filme Sexo, mentiras e videotape, 1989, dirigido por Steven Soderbergh, em uma espécie de road movie traz cenas que exemplificam signos indiciais. O personagem Graham (James Spader) que foi colega de colégio do marido da Anne (Anne McDowell), ficará na residência do casal. O marido de Anne, John, tem um caso com Cynthia, sua cunhada, a irmã da Anne. A dissonância entre o estilo de Graham e Anne, enquanto ele parece encarnar uma espécie de cownboy moderno ao estilo hippie, ela representa a esposa e dona de casa perfeita, já em seu encontro nos presenteia com uma sequência de signos indiciais. O incômodo é visível nos gestos e expressões faciais de Anne, como um corpo que fala e é predominantemente indicial.

Em determinada cena, durante seu ritual de limpeza da casa, Anne encontra um brinco que aos poucos, ela reconhece como pertencente a Cynthia, sua irmã, que pediu para ter um encontro sexual com John, no dormitório do casal. Fica evidente que a joia não só não pertence a esposa, como é um índice de uma traição. Um objeto dinâmico que se faz presente e não pode ser destruído; mesmo ao tentar quebrar o brinco o seu signo permanece.

O vídeo First Kiss, 2014, de Tatia Pllieva, também nos traz um bom exemplo de signo indicial. Com a proposta de registrar um primeiro beijo entre desconhecidos, poucos dias após ser vinculado no youtube, o vídeo recebeu mais de 47 milhões de visualizações. Dada a natureza imprevisível e o incômodo ocasionado por expor duas pessoas diante de uma situação que, em tese, requer um grau mínimo de intimidade, é possível observar reações de pura indicialidade. O constrangimento expresso nos gestos, os sorrisos tímidos são do campo do etológico, quase que como uma reação fisiológica do humano. Diferentes casais tem em comum o beijo como causa final, e o desconforto que precede a ação.

O signo icônico e o signo indicial são interpretáveis, mas não necessariamente são interpretados. Sua existência no mundo não depende de um interpretante específico. Enquanto que com o signo simbólico temos certa garantia de que ele será interpretado. Os símbolos são “um tipo ou uma lei geral” (CP 2.449, 1903) que opera como “regra geral” (CP 4.447, 1903).

Símbolos são criados por meio de pensamentos que envolvem conceitos, a partir de símbolos já existentes. Um exemplo de nascimento de um signo simbólico pode ser observado no filme Aurora, 2014, dirigido por Rodrigo Sepúlveda. Baseado em uma história real, conta a saga de Sofía (Amparo Noguera), uma professora de ensino básico que, após ter vários pedidos de adoção rejeitados, fica obcecada com a história de uma criança recém-nascida encontrada morta em um lixão.

A personagem passa a se empenhar na sua ideia fixa de enterrar o bebê abandonado, o qual ela chama de Aurora. Em sua jornada, Sofía confronta instituições e a própria lei, representada pela figura do juiz, que buscam por símbolos que possam legitimar a ligação da personagem com o bebê. O embate que se segue é entre um puro afeto e as regras que tentam domá-lo. Frente toda a burocracia do sistema judiciário e após diversos apelos feitos por Sofía, vemos, já ao final do filme, uma cena que exemplifica a criação de um novo signo simbólico. Impossibilitada de realizar o seu desejo em enterrar um bebê desconhecido, a personagem recebe uma sugestão do juiz: adotar a criança morta. Nesse momento surge uma nova lei, um novo signo simbólico. Como coloca Santaella, se as interpretações sempre dependessem de regras interpretativas já internalizadas, não haveria espaço para a transformação e a evolução (ibid. 2008, p.104). Os signos tendem a crescer ininterruptamente em outros signos, e é através da mudança de hábito que é introduzido esse novo elemento transformativo e evolutivo que torna isso possível.

2. Pepsi #resist: a lógica do preconceito

Em palestra denominada O peculiar sabor da mediação em algumas tentativas falhas de representar a igualdade, Fernando Andacht buscou relacionar Charles Sanders Peirce (1839-1914) com autores como Jorge Luis Borges (1899-1986) e Tzvetan Todorov (1939-2017) por meio de uma lógica que ele intitulou lógica itineris. Ao apresentar esse conceito, uma espécie de lógica prática que vai da primeiridade à terceiridade visando a superação de dualismos, Andacht desenvolveu diversos aspectos do pensamento peirceano seguindo uma sequência cronológica em direção à maturidade acadêmica do autor.

Andacht partiu das categorias fenomenológicas de Peirce para fundamentar sua análise semiótica de duas peças publicitárias que tratam do preconceito, uma americana e outra inglesa. A primeira, uma propaganda da Pepsi, estrelada pela modelo Kendall Jenner, e parodiada no programa Saturday Night Live, tem como temática o movimento americano contra o racismo Black Lives Matter. A segunda, da Heineken, conhecida como Experimento Heineken Worlds Apart, mostra pessoas com diferentes visões de mundo. As perguntas que movem Andacht são: São esses signos da discórdia? Pepsi ou racismo? Como pode uma das marcas mais famosas e célebres do mundo errar tanto quando produz sua visão da luta pela igualdade?

A ideia foi utilizar as categorias de Peirce, em especial a primeiridade e o qualissigno, por ser este tipo sígnico aquele que dá o tom as coisas e ao mesmo tempo é indefinido. Andacht citou Peirce (R339, 276r): tom “é a qualidade do sentimento que é significante, apesar de ser simples, como o tom, ou complexo, como a tonalidade”.[1]

Assim, a reação unânime contra a publicidade da Pepsi, segundo ele, foi desencadeada por sua proposta “tone-deaf”, ou seja, incapaz de apreciar ou compreender aquilo que diz respeito às dificuldades do outro. Para Andacht, as peças elencadas ultrapassam a ideia de mentalidade a qual aparece assim como um fluxo que vai da primeiridade, chega a terceiridade, e retoma a secundidade.

Nesse ponto, aproximou Todorov e Peirce. Dizia o primeiro:

Eu não afirmo que posso fazer outros falar, mas em vez disso estabelecer um dialogo entre eu mesmo e eles: eu percebo minhas próprias categorias como sendo tão relativas como as deles. Eu abandono o preconceito de imaginar que a gente necessariamente é sempre, mas é precisamente nisso que reside o interesse de minha interpretação, meus preconceitos são diferentes do dos outros (Todorov, 1995).

Já Peirce afirmava: Não podemos começar com uma dúvida absoluta. Nós devemos começar com todos os preconceitos que realmente temos quando entramos no estudo da filosofia. Estes preconceitos não são dissipados por uma máxima, pois são coisas que não ocorre a nós que possam ser questionadas (CP 5.265).[2]

3. O Self e a semiose auto-interpretativa

Na palestra Crianças no cativeiro semiótico do preconceito, a psicoterapeuta Mariela Michel, doutora em psicologia pela UFRGS e professora da Diplomada em Psicoterapia em Serviços de Saúde da Faculdade de Medicina do Uruguai, utilizou o conceito de self buscando chegar à autointerpretação e à identidade das crianças que moram na periferia de Montevidéu, com as quais ela convive e desenvolve seu trabalho.

Mariela explorou os meandros do self ao acreditar que o self é um signo entre signos, “um processo semiótico complexo porque no auto-conhecimento o self é o sujeito que interpreta e o objeto que é interpretado.” Sua base é o trabalho sobre o self realizado, a partir da obra de Peirce, por Vincent Colapietro, professor e pesquisador de Artes Liberais (Liberal Arts) nos departamentos de Filosofia e Estudos Afro-Americanos da Universidade da Pennsylvania State University. A partir daí, Mariela Michel observa o papel do preconceito no bloqueio do processo de auto-interpretação, aplicando as categorias fenomenológicas de Peirce para entender os modos possíveis de recuperar o caminho da semiose.

A partir da abordagem das crianças por meio de diferentes tipos de códigos, como desenhos, ou de expressões orais obtidas no processo psicoterapêutico, defendeu que o self “é um signo para nós também, que precisamos de signos para compreender a nós mesmos. Ou seja, o signo volta a ser um signo de si mesmo.”

Segundo ela, o preconceito gera uma dicotomia dualista entre eu e o outro que deve ser superada no processo semiótico, pelo contrário, o interpretante dinâmico, enquanto terceiridade, faz parte do processo em constante desenvolvimento de semiose, o qual é sempre dialógico e pressupõe as duas categorias da experiência. Com isso se permite ao self recuperar sua natureza semiótica e, portanto, sua condição humana na igualdade, que decorre de nós mesmos, sendo um signo o emaranhado na trama semiótica da alteridade.


[1] Tradução para “tone is a quality of feeling which is significant, whether it be simple, like tone, or complex, like a tune”

[2] Tradução para: “We cannot begin with complete doubt. We must begin with all the prejudices which we actually have when we enter upon the study of philosophy. These prejudices are not to be dispelled by a maxim, for they are things which it does not occur to us can be questioned.”

 

Referências

COLAPIETRO, Vicent M. Peirce e a abordagem do self: uma perspectiva semiótica sobre a subjetividade humana. São Paulo: Intermeios, 2014.

PEIRCE, Charles S. Collected Papers. Vols. 1-6 edited by Charles Hartshorne e Paul Weiss. Vols. 7-8 edited by Arthur W.Burks. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931-1958.

SANTAELLA, Lucia. Teoria geral dos signos: Semiose e autogeração. São Paulo: Ática, 1995.

____. Epistemologia Semiótica. Cognitio: Revista de filosofia. São Paulo, v. 9, n. 1, p. 93-110, jan./jun. 2008.

TODOROV, Tzevan. The morals of history. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995.

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