O que você chama de filosofia?

por Daniele Fernandes

[Abstract]:

“This post aims to demonstrate, by everyday examples, the urgent need to understand the specificity and importance of philosophy, how it can influence different social groups and different aspects of life in society. In order to achieve this aim, we try to make a philosophical analysis of the main elements present in what we call “everyday facts”, using Deleuze and Peirce as theoretical foundations. As a result, here is produced an outline of what we would characterize as an assemblage contrary to philosophy.”

abacaxi_arteFoto: Ruairi Gray/Twitter

Neste post, gostaria de partir não dos conceitos, como geralmente faço, mas da descrição de alguns “fatos cotidianos”, alguns deles largamente divulgados nas redes sociais e na grande mídia. Também não vou falar do realismo especulativo, tema deste blog. Mas vou falar de algo ainda mais básico: da própria filosofia. Essa postura surgiu de uma vivência que me fez sentir a necessidade urgente de que se compreenda minimamente a especificidade e a importância da filosofia para todos os estratos da sociedade. Com “estratos”, quero dizer, classes sociais, níveis de escolaridade, faixas etárias, instituições, profissões etc. Vamos, então, aos tais “fatos cotidianos”.

FATO 1: Não faz muito tempo, em 2014, uma questão de uma prova de filosofia do ensino médio, aplicada em uma escola pública de Brasília, causou grande polêmica, tanto nas redes sociais, quanto na grande mídia brasileira. A questão, formulada por um professor de filosofia, mencionava a funkeira Valesca Popozuda como uma “grande pensadora contemporânea”, título que a própria funkeira recusou prontamente, quando ficou sabendo da polêmica, mesmo dizendo sentir-se honrada com ele. Procurado pela mídia, o professor de filosofia disse, dentre outras coisas, que queria mesmo gerar polêmica, que a imprensa só aparecia quando algo ruim acontecia, que a sociedade era preconceituosa, dado que se fosse o Mc Catra (outro funkeiro) ou alguém da MPB, talvez não tivesse havido tanta polêmica, que, por ser funkeira e mulher, as pessoas colocavam a cantora como alguém que não poderia pensar etc. Segundo a Folha de São Paulo, “para Antonio Kubitschek, Valesca Popozuda pode ser considerada uma grande pensadora contemporânea. ‘De acordo com os filósofos contemporâneos franceses, todo aquele que consegue construir conceitos é um filósofo, um pensador. Se a Valesca constrói conceitos com a sua música, não tem porque ela não ser uma pensadora’, disse”. Em entrevista ao G1, o professor repete mais ou menos a mesma coisa. Questionado sobre a polêmica, um professor de filosofia do UNB declarou que o objetivo foi alcançado ao fazer os estudantes pensarem por meio de uma estratégia usada, inclusive, por Sócrates: a ironia.

FATO 2: Recentemente, também causou bastante polêmica nas redes sociais e na grande mídia a proposta inicial de medida provisória apresentada pelo governo brasileiro para a reforma do ensino médio. Nela, era excluída a obrigatoriedade das seguintes disciplinas: artes, educação física, filosofia e sociologia. A MP explicitava a obrigatoriedade apenas de português e matemática, além de inglês, como língua estrangeira. Isto é, retirava a garantia explícita de que artes, educação física, filosofia e sociologia deveriam estar no currículo básico do ensino médio. Diante da pressão das redes sociais e de entidades ligadas à educação, o Congresso Nacional, modificou o texto da MP e tornou explícita a obrigatoriedade das quatro disciplinas.

FATO 3: Este fato é mais pessoal, não contou com um registro nem com a divulgação, nem mesmo nas mídias sociais. Já há alguns anos, grande foi meu desespero ao ouvir a letra de uma música “infantil” repetidamente ensaiada por dezenas de crianças de três anos de idade em uma escola católica da cidade de São Paulo. A letra dizia mais ou menos assim: “(…) o passarinho pode voar, voar, voar / mas eu sou um pobre peixinho / e só posso nadar, nadar, nadar / mas a vida é assim mesmo / cada um no seu lugar.” Por mais que eu tenha corrido para reverter o conteúdo dessa “lavagem cerebral” com figuras, vídeos e músicas, até hoje ainda não sei se foi suficiente. E, infelizmente, só pude fazer isso por uma única criança.

FATO 4: Em 2010, Stephen Hawking, entre os mais brilhantes físicos que a humanidade já possuiu, disse em seu livro The Grand Design (O Projeto Monumental), escrito com Leonard Mlodinow, que a filosofia está morta. Segundo Hawking:

Como podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde veio tudo isso? O universo precisou de um criador? (…) Tradicionalmente, essas são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta. A filosofia não tem acompanhado a evolução da ciência moderna, particularmente da física. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta, em nossa busca pelo conhecimento. (Hawking e Mlodinow, 2010, p. 10)

Nenhuma novidade em falar da morte da filosofia, dado que muitos já o fizeram. Mas dessa vez, quem disse foi um cientista de peso e renome. Diante dos outros fatos citados anteriormente, será que Hawking tem razão?

Sei que, até aqui, isso parece uma piada: o que há em comum entre a Valesca Popozuda, a reforma do ensino médio, uma musiquinha infantil e Stephen Hawking? Não é piada. E já vou começar a mostrar por quê.

Sobre o fato 1

Não questiono se o professor de filosofia tem razão ou não em relação aos preconceitos da sociedade, se uma prova de múltipla escolha leva ou não a pensar, se a polêmica é válida ou mesmo sobre o papel da mídia na sociedade. Entretanto, não se pode deixar passar uma coisa: o fato de o professor citar os “filósofos contemporâneos franceses”, no que se refere à especificidade da filosofia. Sim. Se alguém constrói conceitos, esse alguém é um filósofo, é um pensador. Só não sei se o professor entendeu o que é um conceito, especialmente para Gilles Deleuze, filósofo francês, cuja obra tomo aqui para buscar entender o papel da filosofia.

Durante muito tempo, entendeu-se por conceito aquilo que diz a essência de alguma coisa. Segundo a concepção deleuzeana, o conceito diz um acontecimento, não uma essência. O que importa são as circunstâncias de uma coisa (Deleuze, 1992, p. 37). Um conceito é um agenciamento concreto (Deleuze e Guattari, 1992, p. 52). Quando se estabelece um agenciamento, determinam-se traços diferenciais sob os quais um elemento pertence formalmente mais a um agenciamento do que a outro (Deleuze e Guattari, 1997, p. 82). Em outras palavras, um conceito implica a criação de uma forma criativa de “recortar” a realidade, de conectar elementos por traços diferenciais. Ele precisa se distinguir de uma mera opinião, de um conselho, de uma generalidade de época, dos pensamentos ordinários cotidianos etc. Para isso, ele deve ser importante (necessário) e deve romper com o senso comum e com o bom senso.

Criar novos conceitos que tenham uma necessidade, sempre foi essa a tarefa da filosofia. É que, por outro lado, os conceitos não são generalidades à moda da época. Ao contrário, são singularidades que reagem sobre os fluxos de pensamento ordinários: pode-se muito bem pensar sem conceitos, mas desde que haja conceito há verdadeiramente filosofia. (Deleuze, 1992, p. 45-46)

A única condição é que eles [os conceitos] tenham uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas. O conceito é o que impede que o pensamento seja uma simples opinião, um conselho, uma discussão, uma tagarelice. Todo conceito é forçosamente um paradoxo. (Deleuze, 1992, p. 170)

Poderia sim haver conceitos filosóficos em um funk. Mas, lendo a letra do funk mencionado na citada prova de filosofia, não pude encontrar nela nada que se pareça com um conceito. Que fique bem claro, para Deleuze, fazer filosofia não tem nada a ver com preconceito ou elitismo acadêmico. Nada a ver com diplomas.

Primeiro, a filosofia nunca esteve reservada aos professores de filosofia. É filósofo quem se torna filósofo, isto é, quem se interessa por essas criações muito especiais na ordem dos conceitos. Guattari é um filósofo extraordinário, antes de mais nada e principalmente quando fala de política ou música (Deleuze, 1992, p. 39)

Quanto ao professor que defende o uso da ironia, citando Sócrates, tenho que perguntar: seria o pensamento socrático adequado para o contemporâneo? Deleuze não se refere a Sócrates e sim a Platão; mas a citação serve como argumento. Para Deleuze (1992, p. 186), “não há qualquer razão para fazer filosofia com Platão (…) só temos uma alternativa: fazer história da filosofia ou aplicar enxertos de Platão em problemas que já não são platônicos.” Além do mais, “há, na ironia, uma pretensão insuportável: a de pertencer a uma raça superior e ser a propriedade dos mestres” (Deleuze e Parnet, 1998, p. 83).

Sobre o fato 2

Quando um governo tira algo de um currículo básico, está querendo dizer que aquilo é supérfluo. Então, para o governo brasileiro, seria a filosofia supérflua? Ela não é supérflua; pelo contrário, ela é perigosa por ser libertadora. E não se trata de um problema partidário. A filosofia é perigosa para qualquer governo que se comporta como aparelho de Estado (agenciamento preso a uma forma identitária e, portanto, avesso a mudanças). Em 2015, o governo japonês pediu que fossem cancelados cursos da área de humanas (onde se insere a filosofia) nas universidades japonesas, para incentivar o que o presidente chamava de “vocações educacionais mais práticas que satisfaçam as necessidades da sociedade”.

Não quero dizer que o ensino de filosofia está ótimo, que os professores são maravilhosos e que nada precisaria mudar. É o modelo de escola, em geral, que está em crise. E não é só por pertencer às sociedades disciplinares, mas porque, com os dispositivos móveis, a aprendizagem se tornou, como nos afirma Santaella (2013, p. 289), “aprendizagem ubíqua”, a qual se caracteriza por “processos abertos, espontâneos, assimétricos e mesmo caóticos, atualizados ao sabor das circunstâncias” propiciados pelos dispositivos móveis, que “tornaram o acesso à informação livre e contínuo, a qualquer hora do dia e da noite”. A aprendizagem ubíqua ainda se caracteriza por processos colaborativos e personalizados. Como o modelo tradicional controlador, focado nos livros impressos, em processos mais fechados, com data e hora para acontecer, pode gerenciar a contingência da aprendizagem ubíqua?

Mas não dá para ser marionete do aparelho de Estado e repetir o discurso “do jeito que está, é melhor nem ter mesmo”. Por que é que toda vez que é proposta alguma reforma na educação, muda-se para pior? O sucateamento da educação é um projeto antigo. Segundo Deleuze (1992, p. 216), não há reforma da escola, como querem nos fazer acreditar. O que há é sua liquidação pelas sociedades de controle, para que ela venha a se fundir com o meio profissional e o que se tenha seja uma formação permanente, um controle contínuo sobre o operário-aluno.

Tudo o que interessa é uma formação tecnicista, isto é, baseada em adestramento mental permanente, numa prática que não é pragmática. Assim, “tecnicista” não quer dizer cientificista; mas sim contrária ao pragmatismo, no sentido peirciano, que e método científico. Para Peirce, “o pragmatismo é uma doutrina correta apenas na medida em que se reconhece que a ação material é o mero aspecto exterior das ideias.” (CP, 8.272) e por “prático” ele quer “dizer apto a afetar a conduta; e por ‘conduta’, ação voluntária que é autocontolada, ou seja, controlada por deliberação adequada” (CP 8.322). A escola não busca desenvolver o pensamento – nem mesmo o científico – para que se delibere adequadamente, só busca gerar uma ilusão de liberdade, como a casca oca de uma ação material desvinculada de uma ideia inovadora. O que se impõe nesse modelo é a repetição crua de uma moral fabricada há décadas e que oprime para conseguir manter um controle contínuo e, arrisco dizer, tornar as pessoas, cada vez mais, substituíveis por robôs.

Sobre o fato 3

Por falar em moral, vamos falar da instância moralista por excelência: a religião. É difícil atingir o teor do moralismo religioso, da ironia e da crueldade presentes naqueles versos “ingênuos”, cantados pelas vozes doces da infância em uma escola católica. Versos aprovados por pais intelectualmente despreparados (embora devidamente diplomados e endinheirados) para perceber a covardia com que preconceitos morais são implantados no inconsciente daqueles que ainda não desenvolveram filtro crítico e, portanto, nenhuma chance de defesa consciente ou de deliberação adequada.

Filosofia e educação estão intimamente relacionadas, como procurei mostrar em três dos quatro fatos que apontei. Filosofia se faz com conceitos, não com pré-conceitos morais oriundos da “educação” religiosa. Tais pré-conceitos morais, injetados na mente tão cedo, poderão bloquear a produção de linhas de fuga do pensamento durante toda a vida, caso não sejam trazidos à tona e combatidos. Por produção de linhas de fuga entende-se aqui a capacidade criativa do pensamento, a capacidade de criar novas formas de pensar e de viver, de escapar à opressão dos aparelhos de Estado e, em última instância, de criar conceitos.

Naqueles versos covardes, ocultam-se: a aceitação do dualismo como verdade inabalável, a superioridade de um dos termos e o conformismo em estar associado ao termo inferior. Moral para produzir escravos!

É isso o que acontece quando se confunde religião com filosofia. Deus não é assunto da filosofia. Para Deleuze e Guattari, ao contrário, a filosofia surge de um rompimento com a religião, pois a transcendência é aquilo de que o pensamento precisa se livrar para que possa pensar filosoficamente. Filosofia constrói plano de imanência.

Numa palavra, os primeiros filósofos são aqueles que instauram um plano de imanência como um crivo estendido sobre o caos. Eles se opõem, neste sentido, aos Sábios, que são personagens da religião, sacerdotes, porque concebem a instauração de uma ordem sempre transcendente, imposta de fora por um grande déspota ou por um deus superior aos outros (…). Há religião cada vez que há transcendência, Ser vertical, Estado imperial no céu ou sobre a terra, e há Filosofia cada vez que houver imanência (Deleuze e Guattari, 1992, p. 62)

“O sacerdote trata a comunidade como um ‘rebanho’ e a dirige inoculando nela o ressentimento e má consciência” (Deleuze, 1992, p 145). Como sintetizou Marx, “A religião é o ópio do povo.” Para se dominar uma pessoa, é preciso torná-la fraca, diminuir sua potência, entorpecê-la. Os sacerdotes o fazem pelas restrições morais baseadas no medo e na culpa. As religiões exercem sua dominação sobre os membros de suas comunidades ao declararem seus sacerdotes como legítimos representantes de um Ser superior, que exige obediência às suas inquestionáveis leis morais (dogmas), sob pena de esses membros sofrerem, especialmente depois da morte, devido à desobediência. Aos bons (escravos), prometem-se recompensas. Em outras palavras, as religiões dominam pelo medo em relação ao que supostamente se passa em uma dimensão suplementar, em um plano transcendente imaginário, ao qual, obviamente, jamais se tem acesso. A noção de Deus talvez tenha sido a mais torpe das invenções humanas.

Houve muitos filósofos que infelizmente deixaram a noção de Deus entorpecer seus pensamentos. Mas, um deles, um dos que mais importância colocou na noção de Deus, talvez seja o mais amoral e ateu de todos. Spinoza, com a sua tese da imanência e o seu Deus sive Natura, aboliu a hierarquia entre o Céu e a Terra e enfureceu os crédulos, não importando a que religião eles pertencessem. Segundo Deleuze (2002, p. 31), Spinoza denunciou a trindade moralista, isto é, o escravo, o tirano e o padre: “o segredo do regime monárquico consiste em enganar os homens, dissimulando, sob o nome de religião, o temor ao qual quer acorrentá-los, de maneira que eles lutam pela servidão como se fosse pela salvação.” Tristeza, para Spinoza, significa diminuição da potência de existir. Quanto mais triste o escravo, mais fácil é dominá-lo. Spinoza defende a alegria, o aumento da potência de existir.

Gostaríamos de destacar também um crédulo (em sua vida pessoal) que abriu as portas para romper o moralismo, dando um sentido amoral para a palavra lei e rompendo os dualismos na filosofia: Charles Sanders Peirce. Ele admite a possibilidade da existência de Deus, mas essa noção não tem nenhuma força teórica digna de nota dentro de seu sistema filosófico. Muitos confundem o que Peirce chama de lei, com uma lei moral, tão criticada por Nietzsche. Mas lei, para Peirce, é apenas uma generalidade, um hábito que surge quando algo se repete com o passar do tempo. Mas, para ele, mesmo as leis são evolutivas. Entretanto, o que mais nos interessa aqui é o fato de que o pensamento triádico de Peirce rompe com o dualismo típico dos esquemas moralistas, daqueles que permitem a separação entre céu e terra, senhores e escravos, bem e mal e, especialmente, alma e corpo (mente e matéria). Peirce cria o conceito de sinequismo, que, em sua metafísica, significa continuidade entre mente e matéria. E a lei da mente é o hábito de adquirir novos hábitos (Santaella, 1994, p. 147).

a originalidade do acaso viola a conformidade de um evento ao governo estrito da lei. Por isso mesmo, leis são aproximações que retêm uma propensão ou disposição para adquirir novos hábitos ou continuidade (…) Peirce rejeitava veementemente qualquer separação dualista entre a consciência e a matéria (Santaella, 2002, p. 101).

Para Peirce, “a única teoria inteligível do universo é a do idealismo objetivo, em que a matéria é mente esgotada, hábitos inveterados tornando-se leis físicas” (Peirce, 1992, p. 293) Portanto, a matéria possui um caráter mental. O que existe não é dualismo ou separação, apenas diferença de grau entre a matéria, com leis mais rígidas e o pensamento, com leis mais instáveis.

Sobre o fato 4

Para Peirce, o único método coerente para a fixação das crenças é o método científico (método pragmático). Referindo-se ao método de Lavoisier, Peirce nos diz: “… fazendo emergir uma nova concepção de raciocínio em termos de algo que deve desenvolver-se estando os olhos abertos, com manipulação de coisas reais em vez de manipulação de palavras e fantasias” (Peirce, 1975, p. 73). Uma crença pode ser desbancada pela experiência. E o método científico envolve o teste da experiência. Quando se trata da convergência de opiniões, Peirce se baseia não na tenacidade, na autoridade (onde, podemos dizer, encontra-se a religião) ou na existência da intuição, do gosto, mas na existência de algo real, que possa afetar todas as pessoas, de maneira que, mesmo afetando as pessoas de formas muito distintas, dependendo das condições individuais, todas elas possam atingir as mesmas conclusões. (ibid., p. 84-86). Peirce parte do pressuposto de que existe algo real, independente de nós e, portanto, nosso esforço deve ser o de estar aberto a ele, tanto para percebê-lo e poder pensar sobre ele como, inversamente, para testar na prática a hipótese que desenvolvemos sobre o que foi percebido.

Será que a Filosofia lida apenas com a “manipulação de palavras e fantasias”, sem se ater aos fatos? Ou ciência e filosofia são a mesma coisa? Exigem o mesmo método? Se não. O que as diferencia?

Defendo que são disciplinas diferentes, embora não estejam separadas, pois o pensamento não tem fronteira e, independente da estriagem imposta pelos aparelhos de Estado, a transdisciplinaridade pode ser benéfica. Para essa defesa, sigo mais uma vez Deleuze. Para ele e Guattari, há três grandes planos do pensamento, como maneiras distintas de pensar: a filosofia produz acontecimentos com seus conceitos, a arte produz monumentos com suas sensações e a ciência produz estados de coisas com suas funções (Deleuze e Guattari, 1992, p. 255). O que quero dizer é que a realidade é a mesma tanto para a ciência quanto para a filosofia (e também para a arte), mas os aspectos da realidade que cada uma dessas disciplinas aborda são distintos. Em virtude disso, o embate metodológico com ela não pode ser o mesmo.

Não devemos esquecer que, assim como Peirce, Deleuze é um realista. Para ele, a filosofia visa à produção de conceitos, como aquilo que diz o acontecimento. O acontecimento, como sentido, se exprime nas proposições, mas se efetua nos estados de coisas. Os conceitos, portanto, não surgem da “manipulação de palavras e fantasias”, eles têm uma face voltada para os estados de coisas. Nesta concepção filosófica, portanto, os estados de coisas, criações da ciência, não são deixados de lado.

As perguntas que Hawking diz terem pertencido anteriormente ao âmbito da filosofia podem pertencer à ciência, sem nenhum problema. A diferença é que a resposta da ciência será dada na forma de funções e a da filosofia na forma de conceitos. Quanto à morte da filosofia,

A filosofia consiste sempre em inventar conceitos. Nunca me preocupei com uma superação da metafísica ou com a morte da filosofia. A filosofia tem uma função que permanece atual, criar conceitos. Ninguém pode fazer isso no lugar dela. Certamente a filosofia sempre teve seus rivais, desde os rivais de Platão até o bufão de Zaratustra. Hoje é a informática, a comunicação, a promoção comercial que se apropriam dos termos “conceito” e “criativo” (…) A filosofia sente-se pequena diante de tais potências, mas, se chegar a morrer, pelo menos será de rir. (Deleuze, 1992, p. 170)

Parafraseando Deleuze, são os filósofos que morrem, não a filosofia.

Agenciando os fatos…

Um projeto de engenharia mal feito ou mal executado e uma medicação prescrita de forma errada podem matar alguém. Disso ninguém discorda. Por isso há diplomas, registros e carteiras profissionais, toda uma “burocracia da autorização”. Não estou reivindicando nada disso para a filosofia, mesmo porque pessoas continuam morrendo devido à incompetência dos diplomados. O que reivindico é que se atente para a importância e para a especificidade da filosofia. Filosofia não é sinônimo de “qualquer coisa”. E pergunto: excluir a filosofia não seria uma forma de matar intelectualmente, o que, levado às últimas consequências, poderia culminar até mesmo na morte biológica?

Os “fatos cotidianos” elencados no início deste post foram selecionados para denunciar o que talvez seja, não um rival, mas a própria rivalidade em relação à filosofia: o que estou chamando de autoridade transcendente. Esta é qualquer instância que faça uso, conscientemente ou não, de um suposto poder transcendente, com o objetivo de destruir a especificidade e a importância da filosofia, isto é, que tente diminuir a potência propriamente filosófica, desfazê-la, confundi-la com outras coisas. Essa autoridade transcendente pode estar na forma da burocracia (um diploma de filosofia), do controle (um governo), do moralismo (uma religião), da notoriedade (uma competência previamente reconhecida) etc. Ela se caracteriza por: dualismo, documentos, hierarquia, intimidação, tenacidade repetitiva, resistência a priori (ou pressa a priori) em relação a mudanças e uma insondável dimensão suplementar.

Mas não é só a filosofia que enfrenta seus “rivais”. A ciência e a arte também o fazem. Os mais desavisados acabam atacando-as como coisas inúteis, assim como fazem com a filosofia. Mas, no final das contas, são essas três disciplinas que formam as bases para produzir novas maneiras de pensar e de viver. Quanto à ciência, se for “teórica demais”, é tida como algo que não serve para nada e que desperdiça recursos. Quanto à arte, reservamos a ela um “fato cotidiano” para exemplificar. Trata-se da imagem do início deste post.

Por pura brincadeira, um estudante escocês que cursa tecnologia da informação e negócios, Ruairi Gray, de 22 anos, deixou um abacaxi sobre um display vazio de uma exposição de arte na Robert Gordon University, em Aberdeen. Os curadores acharam que era uma obra de arte e o colocaram em exposição dentro de uma caixa de vidro. Só dois dias depois descobriram que o abacaxi não era uma obra de arte. Muitos professores e estudantes já haviam elogiado “o abacaxi”. Ruairi ainda disse que seu supervisor viu a “obra” e perguntou a um professor de arte se ela era real, porque ele não conseguia acreditar. Parece que o professor de arte respondeu que era real e que qualquer um podia ver o que o artista queria fazer com a parte superior do abacaxi e o vidro. Pergunto: Duchamp outra vez ou “a roupa nova do rei”?

Com isso, finalizo este post. Acho que está evidente que não temos outra saída a não ser, recusar a autoridade transcendente em prol de uma autoridade imanente. Produzir artifícios que permitam educar para o aumento da razoabilidade concreta (razão criativa, para Peirce), seja no âmbito da filosofia, da ciência, da arte ou de qualquer outro campo transdisciplinar. No quesito “educar para pensar”, o mundo anda muito ruim.

Referências

DELEUZE, Gilles. Espinosa: Filosofia Prática. Trad. Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta, 2002.

____. Conversações:1972-1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo: Editora 34, 1997. v. 5.

____.O que é a filosofia?. Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora Escuta,1998.

HAWKING, Stephen W.; MLOINOW, Leonard. The Grand Design. New York: Bantam Books, 2010.

SANTAELLA, Lucia. Comunicação ubíqua: repercussões na cultura e na educação. São Paulo: Paulus, 2013.

____. Os Significados Pragmáticos da Mente e o Sinequismo em Peirce. Cognitio, São Paulo, n. 3, nov. 2002, p. 97-106.

____. Estética: de Platão a Peirce. São Paulo: Experimento,1994.

PEIRCE, Charles S. The essential Peirce: selected philosophical writings / edited by Nathan Houser and Christian Kloesel, 1992. v. 1.

____ Semiótica e Filosofia. Tradução de Octanny S. da Mota e Leônidas Hegenberg. São Paulo: Cultrix, 1975.

____. Collected Papers. Vols. 1-6 edited by Charles Hartshorne e Paul Weiss. Vols. 7-8 edited by Arthur W.Burks. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931-1958.

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