O conceito de imaginação de Vilém Flusser

por Thiago Mittermayer

[Abstract]:
The purpose of this article is simple. The goal is to disccuss the concept of imagination elaborated by Vilém Flusser. Within the theoretical legacy left by Flusser, this publication seeks to clarify his concept of imagination. Our reference is the article Eine neue Einbildungskraft (1990).”

Em outubro de 2016, o propósito da minha primeira publicação para este blog era delimitar o conceito de ficção elaborado por Vilém Flusser. Na ocasião, vimos a forma pela qual o filósofo usa e abusa de reflexões provocativas, tal como ‘ficção é realidade’, para explicar as relações complexas entre realidade e ficção. Com o intuito de continuar a investigar o diagrama conceitual deixado por Flusser, o presente post busca esclarecer a visão do filósofo a respeito do conceito de imaginação. Como referência utilizaremos o capítulo Uma nova imaginação do livro O mundo codificado (2007).

Uma nova imaginação

Esse capítulo é uma tradução do texto original Eine neue Einbildungskraft (1990) disponibilizado pelo Vilém Flusser Archive. Aqui, a preocupação do filósofo está voltada para a capacidade do humano em criar imagens para si mesmo e para outros. O tema é de longa data tanto na filosofia quanto na teologia. Segundo Flusser (2007), nestas duas tradições, a imaginação ou faculdade imaginativa é retratada como uma certeza, algo dado como certo. Com base em Edmund Husserl, Flusser (ibid., p. 161) diz ser imprescindível eliminar o pressuposto de certeza absoluta e que temos, de fato, encarar a imaginação como um fenômeno. Para ele (ibid.), a faculdade imaginativa “manifesta-se como um gesto complexo, deliberado (“intencional”), com o qual o homem se posiciona em seu ambiente”.

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Figura 1. Vilém Flusser na palestra Television image and political 
space in the light of the Romanian revolution. 
Fonte: DVD “We shall survive in the memory of others”Flusser Archive.

O exemplo de Flusser para refletir a imaginação é o gesto de figurar que o homem pré-histórico realizou na construção das imagens de cavalos na caverna Pech Merle na França. Primeiro, o humano se afastou do cavalo, olhou para o animal, depois fixou essa visão efêmera na parede para que outros pudessem identifica-la. O pensador (ibid., p. 162) observa que “para fazer a imagem de um cavalo é preciso, de algum modo, que se volte ao mesmo tempo para si mesmo”. Em outras palavras:

“Imaginação” (Einbildungskraft) é a singular capacidade de distanciamento do mundo dos objetos e de recuo para a subjetividade própria, é a capacidade de se tornar sujeito de um mundo objetivo. Ou ainda, é a singular capacidade de ex-sistir (ek-sistieren) em vez de in-sistir (in-sistieren). Esse gesto começa, digamos, com um movimento de abstração, de afastamento-de-si, de recuo (Flusser, 2007, p. 163).

Com relação ao gesto de recuo e o movimento de abstração que gera a distância entre o homem e os objetos, Flusser (ibid., p. 163) considera que “os objetos deixaram de ser alcançáveis e, por isso, no sentido estrito da palavra, não são mais “objetivos” (gegenständlich), mas apenas “fenomênicos”; eles agora somente aparecem, passam a ser visíveis apenas”. Portanto, o filósofo (ibid.) coloca a imaginação como um gesto complexo de recuo e abstração, isto é, um movimento de “deduzir as circunstâncias, fixá-las e utilizá-las como modelo para ações futuras”. Contudo, o mero gesto de recuo não é suficiente para caracterizar a imaginação e a criação de imagens. Nessa linha de raciocínio, os objetos do mundo não são mais objetivos e sim objetos fenomenais. Objetos que aparecem são fenômenos. O que aparece é fixado (codificado) em alguma superfície e está acessível para que outros compreendam (decodifiquem).

Com relação a resistência das tradições filosóficas e teológicas diante da faculdade imaginativa e do uso de imagens, Flusser (ibid., p. 166) elabora três seguintes argumentos: (1) Epistemologicamente e ontologicamente é duvidoso imaginar de onde se criam as imagens pois isto põe em xeque a objetividade daquilo que é visto. (2) Os códigos imagéticos – sistemas de signos imagéticos que operam conforme regras – estão abertos a interpretações contraditórias e “por isso não se pode confiar neles como modelos de comportamento”. (3) As imagens apresentam uma dialética interna, “elas imaginam os objetos que apresentam”, pois são mediações entre sujeito e mundo objetivo. O terceiro argumento é importante para a teologia ao passo que o primeiro é para a filosofia. O pensador opta por analisar o terceiro argumento pois a tradição teológica precede historicamente a tradição ontológica.

Segundo Flusser (ibid.), a teologia entende que “as imagens devem ser proibidas porque necessariamente alienam o homem, o levam à loucura da idolatria e do comportamento mágico”. No entanto, ao invés de proibir a criação de imagens, o filósofo (ibid., p. 167) propõe submeter as imagens à crítica. De forma a esclarecer a ontologia e a epistemologia da imaginação (argumento 1), decodificar os códigos imagéticos em códigos denotativos (argumento 2) e tornar as imagens transparentes (argumento 3).

Pode parecer incoerente, mas para atingir uma crítica das imagens é essencial se afastar delas. Uma ação similar à que o homem pré-histórico fez com os cavalos. O filósofo avalia que a escrita linear foi umas das primeiras tentativas para esclarecer a imaginação. Flusser (ibid., p. 167) declara “para isso foi criada a escrita linear, código que permite denotar os códigos imagéticos e assim clarear o ponto de vista da imaginação, tornando as imagens transparentes de novo para o mundo dos objetos”. As plaquetas mesopotâmicas são exemplares dessa tentativa de decodificar imagens bidimensionais em linhas unidimensionais. Segue, uma síntese desse raciocínio:

A intenção esclarecedora por trás da escrita linear (como pode ser observada, por exemplo, nas epopeias gregas, nos profetas judeus e também na filosofia e na teologia) prova que aí foi alcançado um nível de pensamento mais abstrato do que aquele a partir do qual as imagens são produzidas: um nível unidimensional (discursivo). A partir daí o mundo dos objetos não é mais visto como um contexto de circunstâncias, mas entendido como um feixe de processos. As regras escritas são bem claras, e os símbolos da escrita são bastante denotativos, de modo que o mundo dos objetos pode ser entendido como um feixe de processos e tratado de modo bastante metódico, ou seja, científica ou tecnicamente. Em resumo, trata-se de explicar de maneira casual e lógica as imagens para poder tratar o mundo de forma metódica, por meio das imagens que se tornaram assim transparentes (Flusser, 2007, p. 168).

Aqui, a escrita linear é analisada como o resultado de pensamentos de extrema abstração. As imagens (o que se vê) são transformadas em regras denotativas e símbolos escritos. A imaginação é mediada por letras e palavras. O que também quer dizer que a imaginação é codificada. O processo acontece de forma metódica e gera um discurso ficcional e unidimensional. Ou melhor, “o gesto linear da escrita retira os pixels isolados da tela e, no entanto, trama os bites que são selecionados a partir da imagem em linhas. Essa fase de trama do gesto de escrever nega sua intenção crítica, pois aceita a estrutura linear de forma acrítica”. Na passagem anterior, Flusser (ibid., p. 169) aproveita para confrontar os gestos de escrita verbal e de cálculo numérico.

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Figura 2. Vilém Flusser na palestra 
On religion, memory and synthetic image. Fonte: DVD 
“We shall survive in the memory of others”Flusser Archive.

O gesto de escrever é deslizante ao passo que a notação numérica é constituída de escolhas. Apesar de serem gestos bem diferentes, tanto escrever quanto calcular são ações intrinsicamente contraditórias. Calcular números é um pensamento de elevada abstração e um processo de elementos adimensionais (o código numérico é vazio). O pensador (ibid., p. 170) escreve “o código numérico evadiu-se do código alfabético, e com isso pôde livrar-se da obrigação de linearidade e passar dos números para as informações digitais”. Ele resume os dois gestos no seguinte trecho:

Na verdade, esses dois gestos levam à criação de imagens (e por isso podem ser chamados de “imaginação”), mas se trata, em ambos os casos, de outro tipo de imagem. As imagens da imaginação até hoje são bidimensionais porque foram abstraídas do mundo, digamos, quadridimensional; e as imagens da nova imaginação são bidimensionais porque foram projetadas por cálculos adimensionais (nulldimensional). O primeiro tipo de imagens faz a mediação entre o homem e o seu mundo; o segundo tipo entre cálculos e sua possível aplicação no entorno. O primeiro significa o mundo; o segundo, cálculos. O primeiro é cópia de fatos, de circunstâncias; o segundo, de cálculos. Os vetores significativos das duas imaginações indicam direções opostas, e as imagens do primeiro tipo devem significar coisas diversas do segundo (Flusser, 2007, p. 172-173).

Esta imaginação oriunda dos cálculos configura o que o filósofo titula de Uma nova imaginação e que está vinculada à era das tecnologias digitais. Os aparatos tecnológicos – computadores, smartphones, tablets e consoles de jogos digitais – concretizam, computam e projetam uma nova imaginação. Na época do texto original, Flusser citou as imagens das equações fractais – criadas pelo humano em conjunto com o computador – como um exemplo expressivo dessa nova faculdade imaginativa. Segundo ele (ibid., p. 174) essas imagens são “cópias de cálculos que analisam sistemas extraordinariamente complexos e “autônomos” (digamos caóticos)”. O pensador também aproxima a nova imaginação daquilo que era tradicionalmente chamado de “estética pura” (l’art pour l’art). Isto porque a imaginação provinda dos cálculos se encontra num ponto de abstração insuperável. O desafio que a nova imaginação nos impõe é o saltar do linear ao admensional, ao quântico e ao computável.

Referências:

FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007. Tradução de Raquel Abi-Sâmara.

“We shall survive in the memory of others” – Vilém Flusser. Budapeste e Berlim: Center For Culture & Communication Foundation em cooperação com Vilém Flusser Archive e Universidade de Artes de Berlim, 2010. DVD, son., color. Legendado. Disponível em: <http://www.flusserdvd.c3.hu/index_en.html>. Acesso em: 7 ago. 2017.

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