Sobre Tempo e Consciência

por Ronaldo Marin

[Abstract]

“In the last few years the quantum gravity theory has been presented as one of the theories that could be able to promote the unification of the fields of relativistic and quantum physics. At its core, however, lies the condition that time doesn’t exist at the most fundamental level of reality. This text defends the validity of such an argument while presenting the natural perception of a continuous time and space as the composition of the conscious mind so that it can sustain a meaningful narrative bond – based on the past-present-future sequence – which is critical to the behavior of consciousness. However the subjective temporal structure past-present-future is only realized through memory, making the phenomenon of consciousness inseparable from biological materiality, which allows us to propose a connection between the inexistence of time at the fundamental level of reality and the impossibility of the disembodied mind.”

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A persistência da memória (1931) – Salvador Dali 

 

O tempo é a informação que não temos.
O tempo é a nossa ignorância.
Carlo Rovelli

Tempo e espaço sempre foram fundamentais para qualquer descrição da realidade na história do pensamento. Lugar e tempo são duas das dez categorias aristotélicas, existindo também como faculdades a priori no sujeito nas categorias do intelecto kantiano. Há pouco mais de um século Albert Einstein demonstrou, através da teoria da Relatividade Restrita, que não podemos separar essas duas grandezas físicas. Temos que pensá-las como uma só: o continuum espaço-tempo. Se, por um lado a questão foi resolvida com relativa facilidade através da colocação de um simples hífen, de outro trouxe uma enorme dificuldade para o entendimento da realidade para a maioria das pessoas, por se tratar de uma percepção contra-intuitiva da natureza. Até mesmo as leis da física clássica lidavam com essas grandezas de maneira absoluta e dissociada, mas agora o quadro da realidade objetiva começava a ser pintado sobre a tela do universo constituída pelo tecido contínuo do espaço-tempo. Alguns anos mais tarde, Einstein trouxe à luz a teoria da Relatividade Geral explicando a gravidade como o efeito da maleabilidade do tecido do espaço-tempo mediante a presença de matéria. Quase ao mesmo tempo, o interesse pelas relações entre matéria e energia e pela estrutura fundamental desta matéria – que em grande quantidade é capaz de curvar o espaço-tempo – iria estabelecer as bases de outra visão revolucionária, a Teoria Quântica. Entretanto, a tentativa de fazer com que as duas teorias trabalhassem juntas unificando os novos conceitos de gravidade, relatividade e quantização é uma questão que continua a desafiar a física do século XXI. Entre as teorias que tentam lidar com o problema e construir uma teoria de campo unificado há a denominada gravidade quântica que nos leva direto ao cerne de uma importante questão: a não existência do tempo na fundamentação da realidade.

Não é demais observar que, embora não tenhamos ainda desenvolvido uma teoria de campo unificado definitiva, consiste um truísmo afirmar-se que algo assim seja inevitável. Sabemos que não há nada mais certo do que as teorias da Relatividade e da Mecânica Quântica – elas funcionam perfeitamente e formam as bases da tecnologia do mundo moderno – portanto, é perfeitamente natural esperarmos que, em um nível fundamental, elas estejam unificadas. A questão é saber se teremos acesso a esse nível de alguma forma. Nessa busca, a gravidade quântica vem se apresentando como a mais promissora teoria candidata. O problema é que para que funcione, precisamos aprender a lidar com a inexistência do espaço e do tempo unificados por Einstein. Para isso, precisamos aprender a pensar o mundo de uma forma diferente, não com mudanças ocorrendo ao longo do tempo, mas como um fluxo de relações independentes que produzem o aumento da entropia. Como escreve o físico Carlo Rovelli, “As coisas mudam apenas uma em relação a outra. No nível fundamental, o tempo não existe.”(2017, Rovelli). Mas, como abolir essa persistente presença do espaço e do tempo na nossa percepção da realidade? Há já algum tempo caminhamos nesse sentido. Uma das características que nos chama a atenção na drástica redução no número de categorias proposta por Charles S. Peirce em sua teoria da Semiótica é que, de uma só tacada, ela elide espaço e tempo como estruturas gerais para o enquadramento do mundo, ação de ineditismo notável.

A ausência do espaço e do tempo na estrutura fundamental da natureza surge naturalmente na gravidade quântica pois ao tomarmos a mecânica quântica e a relatividade geral em conjunto, a coexistência dessas duas teorias só é possível diante de uma quantificação do próprio espaço, ou seja, a existência de um quantum de espaço se impõe determinando a menor dimensão possível para a existência daquilo que definimos como “coisa real”; abaixo disso, espaço e tempo deixam de possuir qualquer significado. Este quantum dimensional que estabelece um limite para que algo significativo possa existir é o chamado comprimento de Planck. Abaixo desta escala, não há nada acessível – nada mais existe. Nem tempo, nem espaço nem qualquer outra coisa. O importante, porém, é que este quantum de espaço estabelece que não há, em essência, nada contínuo e que, portanto, devemos abrir mão do conceito de espaço e, consequentemente, tempo contínuos que nos é familiar, por ser impossível percebermos a escala diminuta dos quanta individuais de espaço. Assim, o espaço não é mais um continente onde as transformações acontecem, mas é ele mesmo constituído por um fluxo constante de transformações emergentes daquilo que a teoria denomina campo quântico covariante. Isso nos leva a uma redução radical na substância da qual o mundo é feito. Aqui, espaço e tempo, partículas e energia podem ser compreendidas como a manifestação destes campos quânticos covariantes, sendo essa a essência daquilo que chamamos realidade. Não faz nenhum sentido dizer que algo ou alguma existência preceda a esse fato; a inexistência de espaço implica na inexistência de tempo ou qualquer outra coisa[1].

O Comprimento de Planck

No livro intitulado A Realidade Não É o Que Parece[2], o físico Carlo Rovelli chama a atenção para a simplicidade elegante da expressão matemática Captura de Tela 2017-09-14 às 11.18.43em que Lp é o comprimento de Planck definido em função das três constantes universais, a saber: a constante de Planck (ħ)[3], a constante gravitacional (G) e a constante (c) que define a velocidade da luz no vácuo. Em suas palavras “a presença destas três constantes confirma que estamos olhando para algo que tem a ver com a gravidade (G), a relatividade (c) e a mecânica quântica (ħ)”.

Essa limitação nos permite contornar o problema da singularidade que surge em um universo infinitamente pequeno onde as leis de Einstein perderiam todo o sentido. Aqui, não mais é possível a existência de um universo infinitamente pequeno. Estabelece-se agora um limite dado pelos quanta de gravidade que, por sua vez eliminam a possibilidade da existência do espaço-tempo contínuo fazendo com que as peças do quebra cabeça comecem a se encaixar.

Entretanto, para que tudo isso funcione precisamos aprender a pensar a possibilidade de existência “fora” do tempo sensível o que, a princípio, pode produzir um estranhamento, pois somos seres humanos possuidores de uma consciência que se vê imersa no imenso oceano do espaço-tempo. Por isso, a seguir proponho uma análise sobre a (in)existência do tempo à luz da nossa experiência.

O Tempo Inexistente

tempo inexisNo ano de 1999 fui convidado a participar de uma exposição de arte[4] cujo tema era a luz abordada em seus mais diferentes aspectos.Para minha participação elaborei um trabalho que me parecia permitir a união das diferentes linguagens da ciência e da arte. O trabalho recebeu o título de Natureza Morta Com Espelhos[5] e procurava utilizar conceitos da física relativística como a velocidade da luz e a nossa percepção do tempo e do espaço e, por conseguinte, da realidade imediata. Para isso foi construída uma instalação que consistia de uma urna funerária colocada em pé com a parte interna forrada por espelhos, de forma que uma pessoa que se postasse diante da instalação podia ver-se completamente refletida no espelho. Havia uma marcação no chão onde a pessoa deveria se colocar a uma distância exata de 1,5 m do espelho. Assim, a luz ambiente difundida pela pessoa deveria percorrer 1,5 m até atingir o espelho e ser refletida, percorrendo novamente 1,5 m até atingir os seus olhos. Dessa forma, a luz que permitia a essa pessoa enxergar o próprio corpo percorreria um total exato de 3m. A luz “saindo” do corpo percorre 1,5 m até o espelho e depois mais 1,5 m saindo do espelho e chegando aos olhos. Observe a imagem ao lado feita pelo físico Dulcidio Braz Jr. para ilustrar o trabalho [6].

A distância foi estipulada para permitir um cálculo bem fácil e rápido que era explicado num cartaz colocado na tampa do caixão que ficava ao lado. Com conhecimentos de física elementar é possível calcular o tempo que a luz leva para fazer esse percurso de três metros permitindo que a pessoa veja o seu próprio reflexo. Todo estudante do ensino médio conhece a expressão Vm = ΔS/Δt em que Vm é a velocidade média, ΔS é o espaço percorrido e Δé o tempo necessário para percorrer este espaço. Com uma simples manipulação (Δt = ΔS/Vm ) conseguimos determinar o intervalo de tempo ao dividirmos a variação do espaço pela velocidade média. No nosso caso, a velocidade a ser considerada era a velocidade da luz que no ar é aproximadamente a mesma velocidade da luz no vácuo e pode ser arredondada, para facilitar os cálculos, para 300.000 km/s ou seja 300.000.000 m/s = 3. 108 m/s, sendo a distância, como vimos, de 3 m. Assim, calculamos Δsubstituindo esses valores na expressão Δt = ΔS/Vm=>Δt = 3m/3.108 m/s =>Δt = 1.10-8 s, ou seja, um bilionésimo de segundo que é equivalente a dez nanossegundos (10. 10-9s).

Dez nanossegundos. Esse é o tempo necessário para que uma pessoa possa ver sua imagem em um espelho localizado a 1,5 m de distância. E, embora seja um intervalo de tempo muito pequeno, praticamente imperceptível para nós, ele não é nulo; na verdade, ele é bem significativo no mundo das partículas subatômicas. Assim, o texto no cartaz na tampa do caixão explicava que mesmo sendo um intervalo de tempo muito pequeno, era suficiente para que, na sua agitação frenética, todos os átomos e moléculas que compõe o corpo da pessoa já houvessem alterado seus estados originais. Dessa forma, o que a pessoa estava vendo era a imagem do seu corpo há dez nanossegundos atrás, algo que já estava no passado – um passado muito recente é verdade – mas, algo que não mais existia e que, portanto, era “natureza morta”.

Na verdade, o tempo para a percepção é maior do que os dez nanossegundos, pois é preciso levar em conta também o tempo necessário para que o sinal elétrico que viaja pelo nervo óptico e pelos neurônios do cérebro atinja as regiões responsáveis pela interpretação da imagem. Em média a velocidade de propagação de um estímulo nervoso no cérebro fica em torno dos 150 m/s, que é uma velocidade muitíssimo menor do que a velocidade de propagação da luz no ar. No cérebro, a região responsável pela recepção dos sinais visuais captados pelo conjunto do olho, localiza-se no lobo occipital que fica na parte posterior do cérebro. Imaginemos que a distância que o estímulo nervoso tenha que percorrer entre esses dois pontos seja de 15 cm. Nesse caso, o tempo necessário seria de 1 milésimo de segundo[7]. Ou seja, em termos de percepção visual, não estamos falando em apenas alguns nanossegundos, mas num período de tempo muito maior do que esse. E isso, para um fenômeno que envolve a luz que é aquilo que possui a maior velocidade possível no universo. Assim, toda nossa percepção daquilo que denominamos realidade não é imediata; sempre, aquilo que é percebido já está num momento passado. Jamais conseguimos apreender o instante imediato. “Nossa ideia intuitiva de ‘presente’, o conjunto de todas as coisas que estão acontecendo ‘agora’ no Universo, é o efeito da nossa cegueira: da nossa incapacidade de reconhecer pequenos intervalos de tempo.” (Rovelli 2017). O presente não existe, pois quando o percebemos, já é passado. A sensação de que vivemos o momento presente não é nada mais que uma ilusão; uma ilusão bastante persistente, mas ainda assim uma ilusão. E essa é a inexorável condição da existência humana.

Desnecessário dizer que a Natureza Morta Com Espelhos não não foi a obra de maior sucesso da exposição. As pessoas evitavam até mesmo olhar para o caixão, o que dizer então de se verem refletidas dentro dele. Entretanto, houve um momento de muita satisfação que foi quando o membro da comissão julgadora dos trabalhos, após ouvir as explicações sobre como a obra revelava sua condição de “natureza morta”, elevou a voz num protesto: –“Não concordo! Pois, não é isso que eu sinto”. Depois, dando as costas ao trabalho, o ignorou solenemente. Sua negação daquela realidade foi a coroação de todo o trabalho. Justamente! Era exatamente sobre isso que ele falava, sobre a ilusão que domina nossa percepção e da dificuldade que temos para perceber essa realidade. Não importava nem um pouco o que ele sentia ou gostaria que fosse. Independente disso, a ciência estava ali para comprovar Heráclito de Éfeso[8] e demonstrar que tudo aquilo que percebemos no “presente”, em um certo sentido não mais existe, pois já está superado num instante passado inatingível.

A Ilusão do Tempo Contínuo

Estamos acostumados a pensar no tempo como uma estrutura que obedece a sequência dada pelo passado – presente – futuro. A percepção dessa estrutura também não corresponde à realidade do universo objetivo, sendo consequência dos processos subjetivos da mente e da sua necessidade de produzir significação; em outras palavras, é ela também uma estrutura construída para termos a sensação de continuidade e de permanência.

Como vimos acima, o que chamamos presente não é exatamente o instante imediato. Este nos foge inexoravelmente e estamos condenados a jamais percebê-lo, assim, o que chamamos presente não é algo fisicamente real. Mas o que dizer então, sobre o passado? O que é o passado senão a memória de fatos já ocorridos no fluxo das transformações e, portanto, algo que também já não existe mais. Assim, o arcabouço do passado é a memória. Sem memória o passado não existe. O passado não existe fisicamente; não existe um espaço-tempo, um ‘local’ que possamos chamar de passado, sendo ele um aspecto subjetivo produzido pelo resgate de registros da memória.Sem esses registros aquilo que chamamos de passado perde qualquer significado. Porém, é preciso atentar para o fato de que a memória é um atributo da matéria. Tente conceber algum tipo de memória sem a existência de matéria – é impossível! Até mesmo um fio de cobre possui memória; se você deformá-lo ele guardará a informação das forças que agiram sobre ele de maneira que, mais tarde, ao observá-lo você poderá resgatar os acontecimentos passados que o condicionaram. Já, sem a presença de matéria não existe memória e sem memória não existe a possibilidade de construção ou melhor, reconstrução do passado.Mesmo aquilo que sabemos sobre o passado do universo não nos seria acessível se não tivéssemos aprendido a ler a memória da matéria[9] que compõe o próprio universo. Esse passado não existe mais; ele é apenas uma memória, uma informação contida na matéria que participou dos acontecimentos que ocorreram há bilhões de anos e que hoje nos chega através dos fótons da radiação de fundo cósmico. Se quisermos visitar esse passado, ou seja, viajar até ele, não há para onde ir pois ele já não existe de forma objetiva.Ele existe apenas como uma construção subjetiva presente na memória da matéria que o testemunhou. Assim, o passado, é um tempo que também já não existe fisicamente. Por isso, histórias de viagens no tempo para o passado (ou para o futuro como veremos adiante), jamais deixarão de ser aquilo que sempre foram: apenas ficção.

Mas, apesar disso, vamos colocar nossa imaginação em ação supondo que um dia conseguíssemos inverter o fluxo termodinâmico e a seta do tempo determinada pela entropia intrínseca ao universo e pudéssemos empreender uma viagem ao passado. Chegando “lá”, o que iríamos encontrar? Nada. Pois mesmo no “passado” estaríamos sempre carregando nossa sensação de presente e aquele “passado” seria, na verdade, um “presente”no qual este passado não deixaria sua condição de ser o que sempre foi: passado; o que significa a impossibilidade se sua existência efetiva no “agora”. Indefectivelmente, estamos sempre experimentando a sensação de presente, situação em que o passado só pode existir de forma subjetiva, na memória. Sem mencionar que, pensando em termos físicos, a energia necessária para constituir um tal paradoxo teria que ser suficiente para violar as leis que estruturam este universo, o que provavelmente significaria sua destruição.

Tempo e Consciência

Aqui, é oportuno observar a importância deste constructo temporal passado – presente-futuro como característica fundamental para a emergência do fenômeno da consciência e sua relação de dependência da materialidade da memória. É muito provável que a noção de tempo que possuímos esteja ligado intrinsecamente ao fenômeno da consciência. Pois, a existência da consciência depende da existência da memória quando essa é manifesta no ser no contexto histórico-narrativo em que se sustenta: um tempo passado, um denominado presente e um pressuposto futuro. Em outras palavras, consciência é tudo aquilo que nos vem à mente quando acordamos, “é quando a mente desperta e encontra o self”, como define o neurocientista Antônio Damásio[10]. O self (eu) possui uma história que é resgatada todas as manhãs quando despertamos, o que seria impossível sem a memória. Sem uma história pregressa não há possibilidade da consciência em que se pressupõe continuidade. A consciência depende da narrativa com sua estrutura temporal para construir significado. A mente desperta mapeia continuamente o ambiente interno e externo colhendo as informações que originam o estado consciente. Sem a memória não seria possível mantermos uma visão contínua da realidade. Nesse encontro entre o self e a mente que processa as informações, está sempre presente um fluxo constante de relações que determinam a realidade de de maneira contínua, entrelaçando passado, presente e futuro. Dessa forma, o passado configura-se como uma criação da consciência fazendo uso da memória para produzir a continuidade necessária para a significação.Assim, consciência pressupõe memória, algo que sabemos, não pode prescindir da matéria. Por conseguinte, isto nos leva à conclusão nada trivial de que não é possível existir consciência sem um correspondente subsídio material, atrelando a consciência ao substrato biológico que lhe fornece a memória no cérebro. Isso nos leva também à impossibilidade de existência da consciência desvinculada da matéria corroborada pelo filósofo e psiquiatra Mauro Maldonato no livro Passagens de Tempo[11] ao elencar pelo menos três dificuldades para a existência de uma mente [consciência] desencarnada.

…a concepção cartesiana da mente desencarnada é acometida de relevantes dificuldades teóricas e empíricas. A primeira dificuldade deriva do fato de que o pensamento é inseparável do mundo. Se assim não fosse, a mente não poderia conhecer o que está fora dela e o próprio conhecimento se daria inteiramente dentro de um sistema fechado. […] A segunda dificuldade é que essa concepção negligencia a influência do corpo no conhecimento. Sem o corpo e suas capacidades sensórias e motoras, muitos aspectos do pensamento e do conhecimento humano seriam totalmente inexplicáveis. […] A terceira dificuldade é que a concepção da mente desencarnada não considera como deveria o papel desempenhado pelas emoções no pensamento humano. As emoções são fenômenos biológicos com fortes implicações culturais… (MALDONATO. 2012)

Ou seja, a questão da dualidade mente/corpo, com a possibilidade de existência independente de uma consciência imaterial transcendente ou espiritual tão propagada por crenças religiosas, por místicos e pensadores transcendentalistas também se afigura como mais uma estrutura ficcional a serviço do desejo de infinitude.Uma visão mais clara se desenha nesse sentido com o aprofundamento do conhecimento científico, mas existe uma resistência natural em relação à aceitação da finitude da existência consciente implicada nesse fato. As pessoas se agarram fervorosamente a qualquer narrativa mística ou religiosa que lhes permitam evitar o confronto com a finitude do ser. Embora inevitável para o entendimento da condição humana[12], aceitar uma tal realidade é tão ou mais difícil do que aceitar a não existência do tempo, e um grande desafio para a sociedade como um todo, posto que ambos os conceitos demandam uma educação científica que, embora esteja atualmente ao alcance de todos através das mais variadas tecnologias, ainda sofre pela contingência de um mundo assombrado pelos demônios[13].

E quanto ao tempo futuro?

Em nossa abordagem sobre a questão da existência do tempo faltou falarmos sobre o futuro. Como vimos, aquilo que definimos como presente, não possui existência objetiva, pois sempre que buscamos apreendê-lo, por mais imediata que seja nossa ação, ele já é passado. E, também vimos que o passado, de forma análoga, não possui nenhuma existência nesse sentido, posto que se resume a um registro em algum tipo de memória. E sobre o tempo futuro, o que podemos dizer? Talvez, na tríade temporal passado-presente-futuro, este último seja o mais fácil de aceitarmos sua não existência… ainda. Assim, é um processo natural entendermos que o tempo futuro não goza de existência física efetiva, sendo tão somente um conjunto de possibilidades projetadas na subjetividade da mente, bem como um vir a ser no universo físico pautado pela entropia. Portanto, o que podemos dizer no “agora” é que o futuro é apenas uma possibilidade e não algo que tenha uma existência real. Sendo que quando vier a existir passará pela sensação de ser um “presente” que imediatamente será “passado”. Na verdade, apenas este fluxo de transformações é permanente.

Portanto, ao perscrutar a realidade é mister abandonar a noção arraigada que temos do tempo, pois o tempo, como o concebemos, como um seguimento contínuo ligando passado-presente-futuro não possui, como vimos, nenhuma existência física.

Mas, o que existe então?

O Significado da Não-Existência do Tempo

Tudo o que foi colocado acima faz muito sentido no contexto da mecânica quântica relacional. E, para nos ajudar a esclarecer um pouco melhor essa questão, mais uma vez lançamos mão das palavras de Rovelli:

“Antes de tudo, a ausência da variável tempo nas equações fundamentais não significa que tudo é imóvel e não existe mudança. Ao contrário, significa que a mudança é ubíqua, Mas os processos elementares não podem ser ordenados em uma sucessão comum de instantes. Na escala muito pequena dos quanta de espaço, a dança da natureza não se desenvolve ao ritmo da batuta de um único maestro que rege um tempo universal: cada processo dança independentemente com os vizinhos, seguindo um ritmo próprio. O fluir do tempo é intrínseco ao mundo, nasce no próprio mundo, das relações entre eventos quânticos que são o mundo, e eles mesmos geram o próprio tempo.” (ROVELLI 2017 – p.174)

Já no início do século passado, Albert Einstein havia nos ensinado que o tempo universal independente assumido pela mecânica newtoniana era uma ilusão provocada por nossa percepção limitada da realidade; que tempo e espaço estavam intrinsicamente relacionados e sujeitos à variação do campo gravitacional. Quanto maior a gravidade, mais lenta a variação temporal.Se tomarmos dois relógios idênticos marcando a mesma hora e deixarmos um ao rés do chão e colocarmos outro sobre um armário, depois de algum tempo é possível constatar que aquele que ficou mais próximo do centro da Terra – sujeito a um maior efeito gravitacional – sofrerá algum atraso, imperceptível para nós, mas significativo para as condições de laboratório[14].

Nesse panorama temos que abandonar o conceito de espaço e tempo como estruturas gerais na descrição da realidade, tomando-os como aproximações que se manifestam em grande escala refletindo as interações independentes do nível quântico, que é o nível em que as coisas surgem. No âmbito da Mecânica Quântica, não existe realidade que não seja uma relação entre sistemas físicos. É um sistema dinâmico em que não são as coisas que entram em relação umas com as outras, mas sim as relações é que vão produzir a noção que temos de “coisa”. Um exemplo que nos aproxima desta definição é o de Signo cuja estrutura emerge na relação triádica das categorias peirceanas (que apresentamos como características autônomas do sistema biológico em um trabalho anterior)[15]. Aqui nos encontramos num mundo não de objetos, mas no mundo dos eventos elementares estabelecidos por suas relações. Uma onda na água é uma boa representação aproximada desta condição, pois não se trata de um objeto, mas das relações circunstanciais de suas partículas que se encontram em constante variação. Ela mantém sua estrutura por algum tempo e depois se desfaz; uma onda não carrega nada além da própria história das suas variações. Não é atoa que a equação fundamental da Mecânica Quântica descreve um processo ondulatório. Entretanto, a onda de Schrödinger não deve ser compreendida como a realidade em si, mas sim como a descrição do processo no qual esta se origina. Trata-se de um instrumental matemático que não existe no espaço físico, mas encontra-se em um espaço abstrato formado por todas as configurações possíveis de um sistema. Dessa forma, quando pensamos na coisa em si ou no objeto, nos referimos à persistência de certas relações que podem durar por algum tempo.

“A mecânica quântica nos ensina a não pensar o mundo em termos de “coisas” que estão neste ou naquele estado, e sim em termos de “processos”. Um processo é a passagem de uma interação a outra. As propriedades das coisas se manifestam de modo granular apenas no momento da interação, ou seja, nas margens do processo, e são tais apenas em relação a outras coisas, e não podem ser previstas de modo unívoco, mas apenas de modo probabilístico. Este é o mergulho na profundidade da natureza das coisas realizado principalmente por Bohr, Heisenberg e Dirac. (ROVELLI 2017 – p.134).”

Assim, de acordo com a teoria da gravidade quântica, o mundo ou aquilo que definimos como realidade emerge de campos quânticos covariantes em que o espaço quantizado pelo comprimento de Planck dá origem a um tempo que lhe é implícito e que, portanto, também será quantizado, fazendo com que dessa forma deixe de existir o espaço-tempo contínuo e infinito produzido pela nossa experiência imediata e que até agora dificultava a unificação entre as físicas relativística e quântica.

Iniciamos este artigo citando as abordagens realizadas pelas visões kantiana e aristotélica dos conceitos de tempo e espaço e terminamos pontuando com a observação do físico que, de certa forma, aprimora essas visões filosóficas na afirmação de que

“Kant talvez tivesse razão ao dizer que o sujeito do conhecimento e o seu objeto são inseparáveis, mas se equivocou ao pensar que o espaço e o tempo newtonianos poderiam ser formas a priori do conhecimento, partes de uma gramática imprescindível para compreender o mundo.“ (ROVELLI 2017 – p.189).

A nova gramática que a realidade vem nos impondo através da investigação científica é aquela em que o tempo e o espaço não existem da maneira contínua como são percebidos pelos sentidos, revelando que esta forma de ver a realidade é apenas o resultado de uma ação da consciência que, por sua vez é o resultado das relações entre as estruturas biológicas que evoluíram através de ações adaptativas que acabaram por significar e ressignificar um universo que muito provavelmente veio do nada, e para lá retornará permanecendo na iminência probabilística de um novo recomeço.

 

Bibliografia

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SCHMIDT, Christiane. Natureza Morta Com Espelhos ou A Natureza No Seu Próprio Reflexo. In Cadernos da Pós Graduação do Instituto de Artes da Unicamp, Ano 5-Vol. 5 – no. 2, 2001.

[1] Este é o tema abordado pelo físico Lawrence Krauss no livro O Universo que Veio do Nada – porque há criação sem criador. Ed.Paz e Terra. SP.2013.

[2] ROVELLI, Carlo. A Realidade Não É O Que Parece – a estrutura elementar das coisas. Editora Objetiva. RJ. 2017.p.149

[3] O ħ cortado, lê-se “agá barra” é a constante de Planck dividida por dois pi. (ħ = h/2π).

[4] Exposição realizada durante a II Semana Furlanetto (1999) na cidade de São João da Boa Vista com curadoria do fotógrafo Fritz Nagib. Link com dados da exposição e biografia dos principais participantes registrados na Enciclopédia Itaú Cultural: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento236882/semana-fernando-furlanetto-2-1999-sao-joao-da-boa-vista-sp

[5] A historiadora da Arte alemã, Dra. Christiane Schimdt, abordou este trabalho em um artigo publicado no Brasil nos Cadernos da Pós Graduação do Instituto de Artes da Unicamp Ano 5-Volume 5.no.2. 2001. Título: Natureza Morta com Espelhos ou a Natureza no Seu Próprio Reflexo. Pp.75-84.

[6] O gráfico ao lado foi elaborado para a publicação do nosso trabalho pelo físico Dulcidio Braz Jr, autor do primeiro livro didático nacional sobre Física Moderna voltado para o ensino médio e responsável pelo site de divulgação científica Física Na Veia que recebeu o prêmio internacional BOBs (Best Of Blogs) 2009/2010.

[7] Este cálculo, como o anterior, também é bem fácil de se realizar: temos Vm = 150 m/s; ΔS = 0,15 m.

Como Δt = ΔS/Vm =>Δt = 0,15/150 = 0,001 s => 10-3s.

[8]é conhecida a frase do filósofo que diz que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”.

[9]Quando falamos na matéria que compõe o universo não podemos nos esquecer da equivalência entre matéria e energia dada pela equação de Einstein, E = m.c2.

[10] DAMÁSIO, Antônio R., E O Cérebro Criou O Homem. Cia das Letras. SP. 2011.

[11] MALDONATO, Mauro. Passagens de Tempo. Ed. Sesc. SP. 2012.

[12] HARARI, Yuval N., Sapiens – uma breve história da humanidade. Ed. L&PM. 2015. Este livro oferece uma atual e interessante leitura sobre o tema.

[13] Referência ao livro que se tornou um clássico da divulgação científica escrito pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996) e publicado no Brasil pela Cia das Letras com o título “O Mundo Assombrado Pelos Demônios – a ciência vista como uma vela no escuro”.

[14]Relógios utilizados nos satélites destinados ao controle do geoposicionamento (GPS) precisam ser corrigidos em 38 microssegundos por dia, aproximadamente, devido ao adiantamento que sofrem por estarem sujeitos ao menor campo gravitacional da órbita terrestre.

[15]Ver MARIN, Ronaldo. As Bases Fisiológicas da Estrutura Triádica da Semiótica. Ed.IA-Unicamp.SP.2002-2005. Dissertação de Mestrado.

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