Por que a Ciência anda tão parecida com a Religião?

 

por Ricardo Maciel Gazoni

[Abstract]:
“Scientific publishing seems to have a function other than spread scientific knowledge among the scientific community: it also seems to work as an authority that announces to the non-specialists what is “scientific proven” defining what might be regarded as true. The text analyses this phenomenon and some consequences based on Peirce’s theories on the methods for the fixation of belief.”

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Certos acontecimentos parecem ter uma razão oculta quando de maneira quase milagrosa cristalizam uma ideia que vinha sendo gestada aos poucos, sem que a tenhamos percebido. Aconteceu comigo esses dias: lendo o texto delicioso da Juliana Rocha Franco neste mesmo espaço internético (“Notas para se pensar as bolhas online a partir de Peirce”) tive a impressão de que o texto estava lá para resolver um problema que começou a martelar um bocado antes. Digo “resolver”, mas não há solução nenhuma aqui. É que de repente parece possível formular a pergunta certa, o que já é um alento. Comecemos do começo.

Em 15 de Maio de 2017 o Jornal da USP publicou um artigo intitulado “A homeopatia é uma farsa”, assinado por Beny Spira, doutor em genética molecular pela Universidade de Tel-Aviv. O texto, que pode ser lido aqui, é uma resposta a um texto anterior publicado no mesmo jornal (este aqui) que critica a deficiência no ensino de homeopatia veterinária na USP. O artigo de Beny Spira é conciso e apresenta alguns estudos científicos publicados em revistas de renome que suportam a argumentação do autor, que é uma crítica ao próprio jornal de USP pela publicação de conhecimento “errado, arcaico e perigoso”. Leitura que, por citar boas fontes, permite também acompanhar a discussão a respeito da homeopatia nas publicações científicas. O texto encontrou respostas no próprio Jornal da USP (por exemplo, esta) e repercutiu nas redes sociais, onde foi citado pelos que defendem e pelos que atacam a homeopatia, além de ser compartilhado por páginas que se preocupam em louvar o saber científico em detrimento de outros saberes. Continuar lendo

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O que você chama de filosofia?

por Daniele Fernandes

[Abstract]:

“This post aims to demonstrate, by everyday examples, the urgent need to understand the specificity and importance of philosophy, how it can influence different social groups and different aspects of life in society. In order to achieve this aim, we try to make a philosophical analysis of the main elements present in what we call “everyday facts”, using Deleuze and Peirce as theoretical foundations. As a result, here is produced an outline of what we would characterize as an assemblage contrary to philosophy.”

abacaxi_arteFoto: Ruairi Gray/Twitter

Neste post, gostaria de partir não dos conceitos, como geralmente faço, mas da descrição de alguns “fatos cotidianos”, alguns deles largamente divulgados nas redes sociais e na grande mídia. Também não vou falar do realismo especulativo, tema deste blog. Mas vou falar de algo ainda mais básico: da própria filosofia. Essa postura surgiu de uma vivência que me fez sentir a necessidade urgente de que se compreenda minimamente a especificidade e a importância da filosofia para todos os estratos da sociedade. Com “estratos”, quero dizer, classes sociais, níveis de escolaridade, faixas etárias, instituições, profissões etc. Vamos, então, aos tais “fatos cotidianos”.

FATO 1: Não faz muito tempo, em 2014, uma questão de uma prova de filosofia do ensino médio, aplicada em uma escola pública de Brasília, causou grande polêmica, tanto nas redes sociais, quanto na grande mídia brasileira. A questão, formulada por um professor de filosofia, mencionava a funkeira Valesca Popozuda como uma “grande pensadora contemporânea”, título que a própria funkeira recusou prontamente, quando ficou sabendo da polêmica, mesmo dizendo sentir-se honrada com ele. Procurado pela mídia, o professor de filosofia disse, dentre outras coisas, que queria mesmo gerar polêmica, que a imprensa só aparecia quando algo ruim acontecia, que a sociedade era preconceituosa, dado que se fosse o Mc Catra (outro funkeiro) ou alguém da MPB, talvez não tivesse havido tanta polêmica, que, por ser funkeira e mulher, as pessoas colocavam a cantora como alguém que não poderia pensar etc. Continuar lendo

Máquinas de sensação: Whitehead e o rompimento sensacional da dualidade sujeito-objeto

por Daniele Fernandes

Feeling machines: Whitehead and the sensational disruption of subject-object duality

[Abstract]

“We intend to present, in general lines, both subject and object as machines that interact in an agency and constitute themselves mutually, without any hierarchy between them. We intend to do it based on the Whitehead’s concept of actual entity. He is one of the key influencers of speculative realism, often cited especially by Shaviro. We still intend to sketch a relation between Whitehead’s concept of feeling and Peirce’s perception theory.”

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Fita de Möbius (foto: Daniele Fernandes)

A dualidade sujeito-objeto e a superioridade do primeiro em relação ao segundo formam uma das ideias filosóficas mais criticadas pelo realismo especulativo. Uma das saídas para isso está na noção de máquina de Levi Bryant. Para ele, máquinas são entidades que funcionam, operam, agem (cf. BRYANT, 2014, p. 15). Shaviro, por sua vez, usa a noção de actante de Latour para se referir tanto a ferramentas, quanto a seres humanos e a coisas em geral (cf. SHAVIRO, 2011, p. 3), indicando uma ausência de hierarquia ontológica entre os seres.

Neste post, pretendemos apresentar tanto o sujeito quanto o objeto como máquinas que interagem em um agenciamento e se formam mutuamente, sem que haja hierarquia entre eles. Pretendemos fazê-lo baseando-nos no conceito de entidade atual de Whitehead, um dos principais influenciadores do realismo especulativo, muito citado especialmente citado por Shaviro. Ainda pretendemos esboçar uma relação entre o conceito de sensação em Whitehead e o de percepção em Peirce. Continuar lendo