O que você chama de filosofia?

por Daniele Fernandes

[Abstract]:

“This post aims to demonstrate, by everyday examples, the urgent need to understand the specificity and importance of philosophy, how it can influence different social groups and different aspects of life in society. In order to achieve this aim, we try to make a philosophical analysis of the main elements present in what we call “everyday facts”, using Deleuze and Peirce as theoretical foundations. As a result, here is produced an outline of what we would characterize as an assemblage contrary to philosophy.”

abacaxi_arteFoto: Ruairi Gray/Twitter

Neste post, gostaria de partir não dos conceitos, como geralmente faço, mas da descrição de alguns “fatos cotidianos”, alguns deles largamente divulgados nas redes sociais e na grande mídia. Também não vou falar do realismo especulativo, tema deste blog. Mas vou falar de algo ainda mais básico: da própria filosofia. Essa postura surgiu de uma vivência que me fez sentir a necessidade urgente de que se compreenda minimamente a especificidade e a importância da filosofia para todos os estratos da sociedade. Com “estratos”, quero dizer, classes sociais, níveis de escolaridade, faixas etárias, instituições, profissões etc. Vamos, então, aos tais “fatos cotidianos”.

FATO 1: Não faz muito tempo, em 2014, uma questão de uma prova de filosofia do ensino médio, aplicada em uma escola pública de Brasília, causou grande polêmica, tanto nas redes sociais, quanto na grande mídia brasileira. A questão, formulada por um professor de filosofia, mencionava a funkeira Valesca Popozuda como uma “grande pensadora contemporânea”, título que a própria funkeira recusou prontamente, quando ficou sabendo da polêmica, mesmo dizendo sentir-se honrada com ele. Procurado pela mídia, o professor de filosofia disse, dentre outras coisas, que queria mesmo gerar polêmica, que a imprensa só aparecia quando algo ruim acontecia, que a sociedade era preconceituosa, dado que se fosse o Mc Catra (outro funkeiro) ou alguém da MPB, talvez não tivesse havido tanta polêmica, que, por ser funkeira e mulher, as pessoas colocavam a cantora como alguém que não poderia pensar etc. Continuar lendo

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A ontologia sem metafisica ou onde está a epistemologia?

por Juliana Rocha Franco

É já lugar comum que o que une os membros do movimento Realismo Especulativo é uma oposição ao que Meillassoux denominou Correlacionismo. O “movimento” filosófico se constitui em uma tentativa de superar tanto o “Correlacionismo”, bem como o que eles denominam “filosofias de acesso” inspiradas na tradição de Immanuel Kant.

Ora, mas se o Correlacionismo afirma que o pensamento não pode ter acesso a coisas elas mesmas, apenas para as coisas como elas aparecem para nós, o que eles nos propõem no lugar? Certamente não seria um realismo naïve. Bryant  (2012) afirma que um mal-entendido fundamental e muito comum sobre o que é reivindicado e discutido pela OOO é a confusão entre realismo epistemológico e realismo ontológico. Para o autor, Realismo epistemológico é a tese de que nós podemos representar outras pessoas no mundo como elas são. Realismo ontológico é a tese de que as entidades são irredutíveis às nossas representações deles. Continuar lendo

Estão chegando os alquimistas semânticos

por Gustavo Rick Amaral

Neste texto, pego carona mais uma vez em temas tratados por Tarcísio em seu post (“Latour é relativista e construtivista?”).  Na verdade, mais do que uma carona. Utilizei as análises elaboradas por Tarcísio para tentar entender o que nos textos de Latour não está muito claro (ao menos para mim). Neste meu texto, pretendo focalizar nalguns aspectos terminológicos, linguísticos das reflexões epistemológicas apresentadas por Latour,sobretudo, em “Ciência em ação” e “Jamais fomos modernos”. Comecemos por esta última obra. Ao ler este livro, tive a nítida impressão de que Latour quer nos provocar com sua escolha de palavras (para nomear suas conceituações). Universalismo particular? Relativismo universal?  (cf. diagramas – Latour, 1994, p. 103). Pode isso, Arnaldo? Como veremos, a regra não é clara. Aliás, talvez nem haja regra alguma. Continuar lendo

Apontamentos para criação em um contexto “maquínico”

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Por Clayton Policarpo 

Ah, poder exprimir-se como um motor se exprime!
 Ser completo como uma máquina!
 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
 A todos os perfumes de óleos e calores de carvões
 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Álvaro de Campos – Ode Triunfal

O conceito de objeto, instaurado em nossa cultura, remete de imediato a equipamentos que se prestam a expandir capacidades e auxiliar aos sujeitos, nós humanos, a executar tarefas cotidianas. Todavia, em um contexto que objetos e ambientes tendem a adquirir certa autonomia em decorrência das constantes evoluções tecnológicas, agentes de natureza diversa evidenciam sua participação na concepção em um modelo de ecologia midiática, de modo que faz-se necessário romper com moldes rígidos e ampliar a compreensão acerca dos paradigmas de criação em um sistema ecológico e propor uma reavaliação nos modos de acesso, concepção e desenvolvimento de tais ferramentas. Continuar lendo

Como uma coisa pode coisar? Apontamentos para uma reflexão sobre a técnica

CERAMICA

Por Isabel Jungk

A reflexão filosófica se vale da linguagem verbal para expressar suas indagações e conclusões, ainda que parciais, sempre passíveis de questionamento posterior por mais peremptórios que sejam seus autores ao afirmá-las. Em seu amor pelo saber, a filosofia cria, molda e modifica conceitos designados sempre por palavras, algumas novas outras renovadas num movimento constante e crescente. Continuar lendo

Quem sou eu, este que pensa? Objetos sensíveis, qualidades sensíveis e tensão temporal

imagem post adelino

Por Adelino Gala

Continuando o post sobre Harman, vamos explorar um pouco mais a construção de seus objetos sensíveis e qualidades sensíveis a partir de Husserl.

Em uma rápida leitura do que é mais relevante de Husserl para o autor, temos que Husserl é apontado como o fundador da fenomenologia no início do século XX. A base filosófica husserliana evolui a partir de dois dos principais campos científicos com maior destaque na época, a psicologia e a matemática (principalmente a lógica) e se configura como uma disciplina que “se apresenta como o estudo descritivo de todos os fenômenos que se oferecem à minha experiência de sujeito” (Depraz, 2007, p. 7). Continuar lendo

Ética achatada e inteligência artificial (IA)

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por Eduardo Pires de Camargo

Em tempos de computação pervasiva, comunicação ubíqua, internet das coisas e veículos autônomos, dentre tantas possibilidades apontadas pela tecnologia atual, parece-me bastante relevante o tema proposto por Levi Bryant para sua palestra de 18 de outubro de 2012 na Universidade do Texas: Questions for Flat Ethics. Começo o post com uma revisão neutra de suas considerações e encerro com algumas reflexões acerca da IA inserida no contexto de uma ética achatada. Continuar lendo

Uma conferência apócrifa

typewriter

 

por Maria Ribeiro

O título arremeda um outro, escrito por Antonin Artaud, sua Conferência apócrifa”. Em 1931, Artaud foi convidado pelo grupo L’Effort para uma exposição sobre o “destino do teatro”. Tendo feito uso de termos filosóficos, ainda que ciente de certa inabilidade para as coisas da filosofia, assistiu a platéia meter-se debaixo de um profundo silêncio. Continuar lendo

Este é o nosso território?

pendente_voto

por Clayton Policarpo

A pergunta que dá titulo ao presente post é também uma das provocações iniciais no espetáculo do diretor catalão Roger Bernat, exibido de 6 a 8 de junho no Multitude, mostra composta por obras e eventos que tem a multidão como tema, e que segue em cartaz no Sesc Pompéia. Apresentada como uma peça teatral, Pendente de voto integra uma tradição contemporânea que busca tornar o público parte da criação artística. Dadas as fronteiras difusas que se criam ao elencarmos categorias na arte, a obra pode se definir como teatro, performance coletiva ou um happening. Criada em 2002 na Espanha, a peça já passou por diversos países e propõe reflexões sobre os mecanismos que operam nas ações políticas.  Continuar lendo

“É a economia, estúpido!”

Marcus

por Alessandro Mancio de Camargo

O recado de James Carville* reproduzido no título deste post, “É a economia, estúpido!”, adquiriu no decorrer do tempo status de citação universal; ou de meme, para falta de juízo. Neste sentido, é retomado aqui como alerta para quem ainda insiste na “[…] ingênua hierarquia dualista entre sujeito ativo e objeto passivo […]”, anacronismo discutido no texto “Rede, social e inteligência compartilhada” (CARDOSO, 2014) e nas demais publicações deste blog, atualizado pelos integrantes do grupo de estudos TransObjeto. Continuar lendo