Da hiperbalada de Björk ao hiperobjeto de Timothy Morton

por Márcia Fusaro

[Abstract]:

“Philosopher Timothy Morton is currently a professor at Rice University in Houston, United States. He is part of the Speculative Realism (SR) group and the Object Oriented Ontology (OOO) philosophical movement, which has been addressed in several of the posts published here by the researchers of the Transobjeto group. Inspired by the song Hyperballad recorded by Icelandic singer Björk, Morton created the concept of hyperobject, which I will focus on more closely in this post. The intellectual-artistic relationship between Morton and Björk began before the commemorative exhibition on her work at the Museum of Modern Art of New York (MoMA) in 2015, with an email sent by her. Björk’s unique philosophical perspective has been inspired by Morton’s work, especially in regards to the OOO. The singer’s interest in this philosopher, as well as ours, is most probably due to the fact that his work not only addresses the philosophical and ecological view that revises anthropocentrism, but also presents concepts that are closely related to art and literature within the scope of the SR and OOO.”

bjork-capa
Björk fotografada por Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin 
para edição da Dazed (2015)

 

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Manoel de Barros

Tudo começou com uma troca de e-mails em 2014. O bom e velho gênero epistolar, tão caro à correspondência entre apaixonados e pensadores desde a antiguidade (FUSARO, 2016), revitalizava-se agora pelo viés e-pistolar, mais que contemporâneo. Björk, originalíssima cantora islandesa, definida por alguns críticos como “techno-orgânica”, iniciou o contato, convidando o filósofo Timothy Morton a participar da organização, para o ano seguinte, de uma exposição em homenagem à sua obra, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), e que incluiria um livro. Para surpresa de Morton, Björk se revelava assídua leitora de sua obra, e particularmente interessada em sua vertente ligada aos conceitos de Antropoceno, Realismo Especulativo (RE) e Ontologia Orientada aos Objetos (OOO). Pedia-lhe auxílio para finalmente analisar em qual “ismo” ela própria poderia enquadrar sua obra artística, agora que se sentia mais madura para aceitar esse tipo de classificação, e antes que os críticos de arte se adiantassem em fazê-lo, provavelmente fadados a equívocos de interpretação. Continuar lendo

All Is Full Of Love – o corpo cibernético da mulher não-toda

por Sueli Andrade

[Abstract]

All is full of love is a Bjork music video directed by Chris Cunningham in 1999. Cunningham was one of the most influential music video directors in the 90’s. He is very well known for his authorship concept in the music video field. Steven Shaviro in his blog Pinocchio Theory compares Cunningham to Godard, due to the high experimental level in his works such as music videos, installation-videos, performances and advertising. In general, two topics can be noticed in his gallery: bodies and technology. Related to both issues is a concern with cyborg representation and the Posthuman that can be illustrated in All is full of love. Around the cyborg discussion this post can be placed in terms of debates proposed by Donna Haraway, who developed the cyborg concept as a kind of neutral gender. Opposed to that, there is the Lacanian theory that provides a formal way to analyze and discuss the relationship between the logic of the cyborg and the logic of phallocentrism. Thus, how can we rethink Cunningham’s cyborgs? What kind of thoughts can be reached about the love between two cyborgs in the Posthuman discussion? This post explores the relationship between the perspectives of the Posthuman body and the Lacanian female body.

All Is Full Of Love é um videoclipe dirigido pelo britânico Chris Cunningham no ano de 1999 para a música de mesmo nome da cantora islandesa Björk. Trata-se de um dos trabalhos mais impactantes na carreira do diretor-autor e paradigmático para a história do videoclipe segundo especialistas no assunto. Colocada a relevância deste vídeo em particular, caminhemos para uma breve análise sobre o mesmo, em conformidade com a provocação que está em pauta: o corpo cibernético como uma imagem da mulher não-toda. O primeiro passo, então, é compreender de que matéria é feito um corpo cibernético. De acordo com a teórica feminista Donna Haraway, o corpo ciborgue e/ou cibernético é um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. (SILVA, 2000:40). Ele é também um ser oriundo de um mundo pós-gênero, não possuindo qualquer compromisso com a simbiose pré-edípica (2000: 42). O ciborgue não está na oposição natureza e cultura, pois aparece justamente na transgressão da fronteira entre o humano e o animal, um território obscuro. Ele não se estrutura pela oposição público-privado e se define através de uma polis tecnológica: é um ser híbrido dividido entre o orgânico e o maquínico. Continuar lendo