A ontologia sem metafisica ou onde está a epistemologia?

por Juliana Rocha Franco

É já lugar comum que o que une os membros do movimento Realismo Especulativo é uma oposição ao que Meillassoux denominou Correlacionismo. O “movimento” filosófico se constitui em uma tentativa de superar tanto o “Correlacionismo”, bem como o que eles denominam “filosofias de acesso” inspiradas na tradição de Immanuel Kant.

Ora, mas se o Correlacionismo afirma que o pensamento não pode ter acesso a coisas elas mesmas, apenas para as coisas como elas aparecem para nós, o que eles nos propõem no lugar? Certamente não seria um realismo naïve. Bryant  (2012) afirma que um mal-entendido fundamental e muito comum sobre o que é reivindicado e discutido pela OOO é a confusão entre realismo epistemológico e realismo ontológico. Para o autor, Realismo epistemológico é a tese de que nós podemos representar outras pessoas no mundo como elas são. Realismo ontológico é a tese de que as entidades são irredutíveis às nossas representações deles. Continuar lendo

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Apontamentos para criação em um contexto “maquínico”

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Por Clayton Policarpo 

Ah, poder exprimir-se como um motor se exprime!
 Ser completo como uma máquina!
 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
 A todos os perfumes de óleos e calores de carvões
 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Álvaro de Campos – Ode Triunfal

O conceito de objeto, instaurado em nossa cultura, remete de imediato a equipamentos que se prestam a expandir capacidades e auxiliar aos sujeitos, nós humanos, a executar tarefas cotidianas. Todavia, em um contexto que objetos e ambientes tendem a adquirir certa autonomia em decorrência das constantes evoluções tecnológicas, agentes de natureza diversa evidenciam sua participação na concepção em um modelo de ecologia midiática, de modo que faz-se necessário romper com moldes rígidos e ampliar a compreensão acerca dos paradigmas de criação em um sistema ecológico e propor uma reavaliação nos modos de acesso, concepção e desenvolvimento de tais ferramentas. Continuar lendo

Como uma coisa pode coisar? Apontamentos para uma reflexão sobre a técnica

CERAMICA

Por Isabel Jungk

A reflexão filosófica se vale da linguagem verbal para expressar suas indagações e conclusões, ainda que parciais, sempre passíveis de questionamento posterior por mais peremptórios que sejam seus autores ao afirmá-las. Em seu amor pelo saber, a filosofia cria, molda e modifica conceitos designados sempre por palavras, algumas novas outras renovadas num movimento constante e crescente. Continuar lendo

OOO: revigorante das formas de se adquirir conhecimento

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por Alessandro Mancio de Camargo

Assim como a linguagem científica praticada, por exemplo, pelos físicos, a tradição oral — com suas idiossincrasias — avança nos modos de conexão à realidade. Faz isso de forma amplificada por “máquinas desejantes” — parafraseando Guattari (1996, p. 205)— altamente persuasivas. Pós-humano, web 3.0, as interfaces entre a natureza e o corpo. Espaços distintos da sociedade em rede ocupados por objetos sencientes intercomunicantes. As consequências dessa narrativa podem ser interpretadas no premiado Comunicação Ubíqua, de Santaella (2013). Num recorte pessoal do livro, humanos e objetos têm hoje a capacidade de se aproximar de diversas realidades, obter e trocar mais dados sobre elas por meio do diálogo com outros objetos e pessoas, numa velocidade, volume e variedade de informações nunca antes atingidos. O interesse deste post é discutir como, nesse ambiente, revigoram-se diferentes formas de adquirir conhecimento (MATTAR, 2014). Continuar lendo

Aprender a filosofar na Era Técnica

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Óleo sobre tela de
Stefan Zsaitsists

Por Maria Ribeiro

“Claro que se começava a entrar num novo mundo. Uma ação mais poderosa deitara abaixo os deuses; o brilho das coisas era já o brilho exclusivo das coisas, uma fogueira tinha luz devido à sua matéria concreta, o divino já não era um elemento que ilumina ainda mais, era simplesmente uma outra coisa, fora, já da oposição claro/escuro. A eletricidade, dizia Lenz, tornara ridículas certas intuições sobre o divino. Não se pode confundir o que mete medo e respeito com uma eletricidade potente”. Gonçalo Tavares (2008:31)

 No romance Aprender a rezar na era da técnica, o escritor angolano Gonçalo M. Tavares (1970- ) inventaria a existência da família Buchmann, com especial atenção para os episódios vividos pelo doutor Lenz Buchmann, “a mão que segura o bisturi”. Continuar lendo

Uma introdução a Ontologia Orientada aos Objetos

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por Adelino Gala

Santaella (2013) nos informa que o realismo especulativo aparece como uma nova tendência filosófica em meio à emergência de um mundo permeado de objetos sencientes. Tais objetos têm identidade própria e estão em diálogo entre si e com o mundo. Isso é mostrado também no relatório da União de telecomunicação Internacional com o título de “Internet das coisas” que indica que os computadores intensificarão sua presença e atuação moldando um mundo informacional instalado no real. O realismo especulativo não está preocupado apenas com a existência para além do pensamento, mas avança ao postular que as coisas especulam e busca estudar ainda como essas coisas o fazem. Continuar lendo