A questão da técnica (Die Frage nach der Technik). Martin Heidegger, 1953.

A questão da técnica (Die Frage nach der Technik). Martin Heidegger, 1953. Marco Aurélio Werle, tradutor. Scientiae Studia, São Paulo, v.5, n.3, p.375-398, 2007.

Resumo elaborado por Isabel Jungk

Ao questionar-se a técnica, constrói-se um caminho de pensamento que passa pela linguagem. O questionamento visa a uma relação livre com ela de modo a abrir nossa existência (Dasein) à essência da técnica.

A técnica é diferente de sua essência, que não é algo técnico nem tampouco algo neutro. A essência de algo vale pelo que algo é. A técnica é tanto um meio para fins como um fazer do homem; duas determinações que estão correlacionadas. O aprontamento e o emprego de instrumentos, as necessidades e os fins a que servem fazem da técnica uma instalação, um instrumentum. Essas são a determinação instrumental e antropológica da técnica, que se aplicam tanto à técnica moderna como a técnica manual mais antiga. Todo esforço para conduzir o homem a uma correta relação com a técnica é determinado por essa concepção instrumental e se reduz a lidar com ela enquanto meio, e assim a dominá-la.

A técnica, no entanto, não é mero meio e considerá-la assim, embora seja correto, ainda não é verdadeiro, não desoculta sua essência. Daí o questionamento sobre o que é o instrumental, o que é um meio. Um meio é um algo pelo qual algo é efetuado, alcançado, que tem um efeito e, portanto, uma causa. Também o fim, que determina os meios, vale como causa, e onde impera o instrumental, aí impera a causalidade (Ursächlichkeit) e a causalidade (Kausalität).

“Há séculos a filosofia ensina que há quatro causas: 1. a causa materialis, o material, a matéria a partir da qual, por exemplo, uma taça de prata é feita; 2. a causa formalis, a forma, a figura, na qual se instala o material; 3. a causa finalis, o fim, por exemplo, o sacrifício para o qual a taça requerida é determinada segundo matéria e forma; 4. a causa efficiens, o forjador da prata que efetua o efeito, a taça real acabada. Se remetermos o instrumental à causalidade quádrupla, desocultar-se-á o que a técnica é representada como meio. Mas como, se a causalidade, por sua vez, permanece indeterminada em seu ser?” (Heidegger 1953: 377)

Parece então ser hora de questionar por que existem quatro causas e o que significa propriamente “causa”, para assim encontrar o fundamento da técnica. Considerada causa como aquilo que opera efeito, a causa eficiente determina de modo exemplar toda causalidade, não mais se considerando a causa final como causalidade. Entretanto, causalidade no âmbito do pensar grego nada tem a ver com reagir e efetuar e é o fim que inicia o que será a coisa após sua fabricação. A causa material, a matéria de que é feita a coisa, aparece em seu aspecto, sua causa formal. O forjador da prata (causa eficiente) junta os outros três modos de comprometimento. Esses quatro diferentes modos estão, portanto, correlacionados. Mas o que os unifica? De onde provem sua unidade?

Ver o que é propriamente instrumental no que é causal. Os quatro modos fazem com que algo apareça. Eles deixam algo surgir, eles deixam vir à presença o que ainda não se apresenta, atuando no seio do produzir. O produzir leva do ocultamento ao descobrimento, ao desabrigar, à verdade. A essência da técnica tem tudo a ver com o desabrigar pois nele se fundamenta todo produzir, que reúne os quatro modos de ocasionar e os domina. A técnica então não é meramente um meio, é um desabrigar da verdade. Técnica está ligada à tékhne e à episteme, ambas palavras para o conhecer em sentido amplo, pois ela desabriga o que não se produz sozinho.

Diz-se que a técnica moderna é incomparável com as anteriores pois repousa sobre a ciência exata da natureza. Mas também a física moderna depende de aparelhos e de seu progresso. Contudo, a pergunta é: de que essência é a técnica moderna para que incorra no emprego da ciência exata da natureza? A técnica moderna também é um desabrigar e ao olhar para esse traço fundamental mostra-se sua novidade: seu desabrigar é um desafiar, que exige da natureza o fornecimento de energia suscetível de ser extraída e armazenada. É um extrair na medida em que explora e destaca a energia oculta na natureza.

Nesse sentido, explorar, transformar, armazenar e distribuir são modos de desabrigar, mas que não desembocam em algo indeterminado, mas sim em caminhos aos quais se dirigem. A direção e a segurança tornam-se então os traços fundamentais do desabrigar desafiante, que é colocar, encomendar e a subsistência do que foi disponibilizado. E o próprio homem é requerido e desafiado a desafiar as energias naturais, entretanto ele nunca será uma mera subsistência pois o homem cultiva a técnica, ele toma parte no requerer enquanto modo de desabrigar. Embora o descobrimento mesmo nunca é algo feito pelo homem, que só desabriga o que se apresenta. Assim, a técnica moderna, enquanto desabrigar que requer, não é um mero fazer humano.

Armação significa a reunião daquele pôr que o homem põe, coloca, e desafia para desocultar a realidade no modo de requerer enquanto subsistência, sendo armação o nome para a essência da técnica moderna que não é propriamente nada técnico. O trabalho técnico sempre corresponde ao desafio da armação, mas nunca a perfaz ou mesmo a efetua. A técnica moderna somente entrou em curso quando ela pôde apoiar-se sobre a ciência exata da natureza.

Mas a moderna teoria física da natureza é a preparação, não da técnica, mas da essência da técnica moderna. A física moderna é a desconhecida precursora da armação. Tudo o que é essencial, não somente o essencial da técnica moderna, em todos os lugares se mantém oculto por mais tempo. A física não pode renunciar a que a natureza se anuncie em algum modo asseverado, calculado, e permaneça possível de ser requerida como um sistema de informações, que se determina a partir de uma causalidade mais uma vez transformada, que não mostra nem o caráter de um ocasionar produtor nem o tipo da causa eficiente ou da causa formal.

A armação não é nada técnico, nada maquinal. É o modo pelo qual a realidade se desabriga como subsistência mas que não acontece num além a todo fazer humano, mas também não acontece somente no homem e, decididamente, não por ele. A essência da técnica moderna conduz o homem para o caminho daquele desabrigar por onde o real, em todos os lugares mais ou menos captável, torna-se subsistência.

O descobrimento passa por um destino do desabrigar que sempre domina os homens, pois o homem se torna livre apenas na medida em que pertence ao âmbito do destino, tornando-se um ouvinte e não um servo. A liberdade domina o que é livre no sentido do que se descobre. O que está oculto é o que liberta. A liberdade é o âmbito do destino, que leva um desabrigamento para seu caminho. A essência da técnica moderna repousa na armação que pertence ao destino do desabrigar. E que não nos aprisiona numa mera coação apática, que apenas faria com que perpetuássemos cegamente a técnica. Se nos abrimos à essência da técnica, nos encontraremos inesperadamente numa exigência libertadora.

O descobrimento, no qual tudo que é sempre se mostra, abriga o perigo de o homem se equivocar junto ao que está descoberto e falseá-lo. O descobrimento, segundo o qual a natureza se apresenta como um contexto efetivo e calculável de forças, pode certamente permitir asseverações corretas, mas justamente por meio desse resultado pode permanecer o perigo de em todo o correto se retrair o verdadeiro. O perigo se anuncia em duas direções. Tão logo o que estiver descoberto não mais interessar ao homem como objeto, mas apenas como subsistência, o homem caminhará para ser ele mesmo tomado apenas como subsistência.

Mas é justamente este homem ameaçado que se arroga como a figura do dominador da terra e que não encontra mais a si mesmo. E onde impera esse modo de desabrigar, toda possibilidade de desabrigar diferente é afastada, e assim o pôr que desafia impulsiona na relação oposta para aquilo que é. Assim, a armação impede o aparecer e o imperar da verdade. A técnica não é algo em si perigoso, mas a essência da técnica, enquanto um destino do desabrigar, é que é o perigo, impedindo um desabrigar mais originário e um perceber de um apelo de uma verdade mais originária.

Entretanto, a essência da técnica abriga em si o crescimento daquilo que salva. A técnica é o que solicita pensarmos num outro sentido o que costumeiramente compreendemos por “essência”. Tudo o que é essencial dura. A essência da técnica dura no sentido da continuação de uma idéia que paira sobre tudo o que é técnico, num continuar por onde acontece a armação enquanto um destino do desabrigar. Cada destino de um desabrigar acontece a partir de um consentir e enquanto tal. Pois somente este dá ao homem a possibilidade daquela participação no desabrigar, que o acontecimento do desabrigar emprega. Enquanto alguém assim empregado, o homem está unido ao acontecimento da verdade. Aquilo que consente, que envia assim para o desabrigar é, enquanto tal, o que salva. Pois é isso que permite ao homem olhar e penetrar a mais alta dignidade de sua essência, sempre é claro que atentemos para a essência da técnica. Enquanto representarmos a técnica como instrumento, permaneceremos presos à vontade de dominá-la.

A questão da técnica é a questão acerca da constelação na qual acontecem o desabrigar e o ocultamento, onde acontece a essencialização da verdade. Mas este desabrigar precisa ser poético como as belas artes foram tékhne um dia. Não sabemos se para a arte está assegurada esta mais alta possibilidade de sua essência no perigo extremo.

Mas podemos admirar-nos diante da outra possibilidade, de que por todos os lugares a técnica se instale, até que num, dia, passando por tudo que é técnico, a essência da técnica se essencialize no acontecimento da verdade. Por que a essência da técnica não é nada de técnico, por isso a meditação essencial e a discussão sobre a técnica devem ocorrer num âmbito que está aparentado com a essência da técnica, mas que é fundamentalmente diferente dela.

Um tal âmbito é a arte, mas somente quando a meditação não se trancar à constelação da verdade, pela qual questionamos. Quanto mais de modo questionador refletirmos sobre a essência da técnica, tanto mais cheia de mistérios será a essência da arte.

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