Resumo do livro: Tool Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects, de Graham Harman

tool being

Harman, Graham. Tool Being, Chicago: Open Court, 2002
Resumo do livro elaborado pelo Grupo Trans0bjet0

Introdução (p. 1-12)
Resumo elaborado por Lucia Santaella

A introdução funciona como uma espécie de resumo da proposta do livro. Este é composto de uma Introdução seguida de três capítulos.

O autor desenvolve sua introdução numa postura que ele chama de não-ortodoxa em relação à leitura da obra fundamental de Heidegger, Ser e Tempo. Mais do que não-ortodoxa, sua interpretação e referências a Heidegger são decididamente irreverentes.

A leitura e respectiva interpretação baseiam-se em uma pequena parte apenas da obra Ser e Tempo, aquela parte que se refere à discussão heideggeriana de equipamento, ou seja, do conceito de Zuhandenheit (disponível à mão), que Harman concebe sob o nova proposta de tool-being (ser ferramental). Segundo Harman, os especialistas em Heidegger minimizam a importância desse conceito. Sua tese, ao contrário, defende que esse conceito heideggeriano dá origem a uma ontologia dos objetos neles mesmos que, para ele, parte do princípio de que existe um profundo hiato entre as coisas e qualquer interação que podemos ter com elas, não importando se essa interação é intelectual ou meramente manipulativa.

Entretanto, o argumento de Harman vai além. “Quando as coisas recuam da presença para uma realidade subterrânea escura, elas se distanciam não só dos seres humanos, mas também umas das outras” (p. 2). Disso resulta que Heidegger dá origem, quando seu conceito de ferramenta é bem lido, a uma nova era da metafísica.

A leitura ousada que Harman faz de Heidegger o leva a declarar, contra todo o consenso existente, que a celebrada análise do tempo efetuada pelo filósofo, não tem nada a ver com o tempo e não se distingue da análise do espaço. A partir disso, Harman realiza uma espécie de tour em torno de sua tese, como se segue:

Os seres neles mesmos são capturados numa troca contínua entre presença à mão (Forhandenheit) e disponível à mão (Zuhandenheit). Essa estrutura dual pertence a toda entidade e não diz respeito aos altos e baixos da atividade humana. A natureza do tool-being (ser feerramental) recua de toda visão. Não se sabe o que uma ferramenta é a não ser quando ela morre na praia. Mais do que isso, a estrutura de recuo do ser da ferramenta também opera no mundo inanimado (p. 5). A teoria do tool-being revive a metafísica como uma reflexão sobre a natureza fundamental da realidade, sem cair na metafísica como ontoteologia. Pouco importa se Heidegger pensou ou não sobre a relevância do tool-being que é defendida no livro de Harman. Ademais, a interpretação que foi feita do conceito de ôntico em Heidegger é enganosa, pois ele não significa “pertencente a um objeto”, mas sim “pertencente à presença à mão”.

Harman prossegue com a afirmação de que Heidegger é um pensador monótono. Toda a sua obra pode ser resumida em poucos conceitos que se repetem. Nesse contexto, o conceito de tool-being foi distorcido pelos intérpretes. A estrutura “as”, tal qual, é limitada por Heidegger a casos privilegiados da realidade. Para Harman, essa estrutura é universal. Em suma: há um punhado de razões para se focar a atenção no conceito de tool-being, justamente o que o livro levará a efeito.

Capítulo 1 (p. 15-44) – The Tool and its reversal
Resumo elaborado por Clayton Policarpo

1- The invisible realm

Ao iniciar o primeiro capitulo de Tool-Being, Graham Harman defende que a análise de equipamento proposta por Heidegger, abrange todas suas principais ideias. A filosofia de Heidegger nos obriga a desenvolver uma investigação rígida na estrutura dos objetos-em-si.

De acordo com Harman, o equívoco no pensamento de heideggeriano reside em um pressuposto, típico da era pós-kantiana, que uma reflexão sobre o ser humano é a chave para se atingir uma perspectiva filosófica. O uso humano dos objetos é o que lhes daria profundidade ontológica.

Para Heidegger nossa interação primária dos objetos se dá através do uso dos mesmos, existiria uma dependência do objeto em relação ao sujeito, o que permite que existam duas maneiras do Dasein (o humano) se projetar no mundo ao seu redor, o presente-at-hand, representa o objeto nele mesmo, o caminho teórico, a descrição do martelo, por exemplo; e o ready-to-hand que se refere aos aspectos práticos, por exemplo, o ato de se martelar.  As ações humanas ocorrem entre inúmeros equipamentos, nosso contato não seria com entidades formadas por massa física, mas sim com um conjunto de funções que dependem de nós humanos. O objeto para se significar seria dependente do contexto.

Como regra as ferramentas seriam ready-to-hand, e não presente-at-hand. Elas trabalham sobre a realidade, mas sem entrar em contato com a nossa consciência. Heidegger tem a tendência de ver o humano (Dasein) como um ente privilegiado no acesso do tool-being, portanto os objetos não humanos seriam apenas ônticos. Enquanto Harman argumenta: “Instead, they are more like undiscovered planets, stony or gaseous worlds which ontology is now obliged to colonize with a full array of seismic instruments – most of them not yet invented.” (Harman, p.19)

2- Reference

A hipótese de Harman evidencia que a eficácia de um objeto não está relacionada ao fato de que ele é utilizado pelas pessoas, mas sim em sua capacidade de causar algum tipo de efeito na realidade.

Para exemplificar algumas características do ser-ferramental, o autor alça mão do exemplo da ponte, objeto cujo ser consiste em sua eficácia, não nos elementos que a constituem, o que faz com que assuma características de totalidade, um agente na realidade que, dentro de sua função, se torna invisível. As entidades se referem a dois sentidos: totalidade que desaparece e a retirada pela qual este desaparecimento é afetado.

3- Equipment is Global

O ponto de análise fundamental, segundo Harman, é que todas as coisas podem ser confrontadas em um caráter duplo do ser ferramental, de modo que, mesmo entidades imateriais como os números, podem ser analisadas dentro da dualidade do presente-at-hand e readiness-to-hand, afinal podemos discutir o conceito de “número” e fazer novas descobertas sobre entidades matemáticas, por exemplo, o que denota propriedades não visíveis em uma primeira análise. A descrição de ferramenta proposta por Heidegger é, portanto, aplicável a todas entidades. “Equipment is global; being are tool-beings.”

Neste item, Harman propõe um achatamento ontológico das entidades, superando o dualismo entre humano e não-humano, ao levantar a crítica entre as distinções propostas por Heidegger entre “categorias” (aplicáveis apenas a objetos present-at-hand ) e “existência” ( reservado ao Dasein). Na medida em que todos os seres são seres-ferramentais, eles possuem uma existência intrínseca, não são meras entidades neutras localizadas espacialmente e, de certa forma, presente-at-hand.

Capítulo 1 (p.44-88), The tool and its reversal
Resumo elaborado por Isabel Jungk

4- Reversal: Broken Tools

Ferramenta (ou equipamento) é um conceito que se aplica a todos os seres. Cada ser está inserido em um sistema de referências, uma totalidade à qual chamamos mundo e que os absorve. Um equipamento quebrado emerge e torna-se visível como ele é. É um processo de ruptura, de liberação do contexto e a entidades assim liberadas é que o autor (GH) chama de objetos, que são a base de sua ontologia.

5- Space

A dualidade tool/broken-tool perpassa toda a filosofia de Martin Heidegger (MH), inclusive a ideia de espacialidade. MH critica a visão tradicional do espaço como mero conjunto de locações em presença, e desenvolve os conceitos de direcionalidade e de-distanciamento. Todo objeto (espacial/não-espacial) nos encontra a uma determinada distância e a partir de uma direção específica dentro do sistema de significado no qual se insere. O ser é confinado a uma eficácia particular da qual deriva seu lugar.

6- Theory

Teoria e espaço possuem a estrutura da broken-tool na filosofia de MH. Ser é estar inserido no contexto do equipamento e a teoria revela as entidades e ilumina seu ser pela abstenção de manipulá-lo, embora sempre permaneça algo profundo no tool-being (ser ferramental) que elude a visão teorizante. MH não se refere à noção comum de tempo, somente à inescapável ambivalência do presente estático, dividido extaticamente entre tool/broken tool. Tal duplicidade se estende ainda a: tool/space, being/truth, being/time. Somente a metontologia fornece a possibilidade de ir além dessa estrutura dual.

7- The As-Structure

Ferramenta, espaço, teoria e tempo são apenas outros nomes para a estrutura “como” ou “tal qual”. Objetos não exercem suas forças despercebidamente. Entidades individuais representam o aparecimento de tool-beings tal qual tool-beings (presença), não apenas secretamente na sua atividade silenciosa (prontidão). Uma coisa aparece como ela é; por outro lado, nenhuma entidade (ferramenta) pode ser equacionada totalmente com nenhuma manifestação de sua forma apresentável (presença). Essa transcendência é o tema central de Ser e Tempo. Todo fenômeno é necessariamente uma aparência tomada “como” algo, mas a coisa “como” coisa não é o mesmo que a coisa em si mesma, que nunca pode ser abertamente encontrada. Tal dualidade e impossibilidade refletem-se na linguagem, nas funções semântica (significação) e apofântica (denotação) das palavras. Essa estrutura, portanto, não pode dar conta do comportamento teórico, que deve ser procurado alhures, pois objetos reais (e conceitos) constituem, dão forma a suas forças no tecido do cosmos além de simplesmente desvelar essas forças. Assim é que as criações da tecnologia devem ser entendidas.

8- A Second Axis

Além da limitante dualidade entre as versões perceptual e teórica do “como”, MH refere-se a essa estrutura em dois sentidos diferentes. A vida é puro evento, mas o conhecimento a transforma em ocorrência. Experiências vividas são eventos de apropriação que se opõe à atitude teórica. Separar as entidades da esfera da vida-mundo é o princípio da fenomenologia e tal teorização têm duas formas: algo específico e algo além do nada (em geral). Portanto, assim como o tool-being, aparências também são duplas, a segunda dimensão no eixo ontológico fundamental, e não apenas uma separação ad hoc. Isso possibilita a compreensão da dimensão quádrupla da realidade: tool e broken-tool são perpassadas por outra duplicidade e não há outras zonas no mundo para MH: seu pensamento se resume aos quadrantes da realidade (metontologia).

Capítulo 1 (final) e (parte do) capítulo 2 (p. 88-127), Between Being and Time
Resumo elaborado por Tarcisio Cardoso

Nesta parte do texto, Graham Harman tece uma leitura bastante original da filosofia heideggeriana, orientada claramente para o Tool-Being (“ser-ferramental”) e não para o Dasein humano, tão enfatizado pelos comentadores de Heidegger. Harman enfatiza que a analítica das ferramentas não se reduz a uma fenomenologia do instrumento, nem a uma filosofia da linguagem, pois não se trata de tomar a ferramenta do ponto de vista dos propósitos humanos, mas sim de uma abordagem que a põe como uma realidade de fato, o que resulta em uma filosofia capaz de fomentar o real, podendo ser considerada, portanto, uma ontologia dos objetos. No final, do tópico 11, Harman fala inclusive que Heidegger pode ser considerado um realista robusto.

9- The duel in appearence

Aqui, Harman comenta o ensaio “Sobre a essência do fundamento”, que apresenta a “matéria” no nível da “estrutura-do-como”. Ali, Heidegger critica Husserl por confiar demais na capacidade intencional do sujeito, como se o fato da correlação (dado como certo na intencionalidade husserliana) fosse um conceito capaz de englobar a totalidade dos problemas filosóficos, estando este princípio, ele mesmo, imune a questionamento posterior. Mas para Heidegger, a intencionalidade é tida como uma forma de presença-à-mão, que, na leitura de Harman, é um conceito a ser menosprezado. Para Heidegger, o sujeito não existia antecipadamente como “sujeito” (de modo a transcender posteriormente a presença-à-mão para falar de objetos). Consciência existe apenas no modo de sempre ultrapassar o mundo que é dado (ideia de transcendência). Em Sobre a essência do fundamento, Heidegger propõe para “a tensão entre uma realidade velada e uma não velada, uma situação dual descrita como transcendência” (HARMAN, 2002 p. 93). O texto lembra que há um ocultamento em todo “ultrapassar”.

Admissivelmente, é bem possível empreender uma investigação completa sobre a falha do fio, uma investigação que nos deixaria mais bem informados do que estávamos antes, mas tal trabalho detetivesco nunca pode ser caracterizado como um acréscimo quantitativo na transcendência, como se estivéssemos de algum modo chegando perto da coisa em seu ser (HARMAN, 2002 pp. 96-97)

Capítulo 2 – Between being and time

10- Concerning poiesis, práxis

Harman inicia o décimo tópico discordando de que o Dasein seja o conceito central da filosofia de Heidegger. Para Harman, a revolução copernicana de Kant representa um dogma invisível, pois “muitas pessoas tem se convencido de que a grande revolução da filosofia já está assentada. Ela substitui a noção de consciência cartesiana indiferente por uma forma de ser humano que está enredado em signos linguísticos e contextos práticos” (ibid., 105). A filosofia continua a renunciar todo o chamado do mundo (a não ser como concepções linguísticas, semióticas, lócus do poder humano sobre o mundo).

Filósofos estão tão preocupados com a invasão possível da física e das ciências cognitivas no seu domínio que eles se trancaram em um gueto linguístico-pragmático, com medo de lutar pela eterna pátria da filosofia: a realidade em si (HARMAN, 2002 p. 105).

– Crítica aos comentadores: Bernasconi

Para Bernasconi, o método da fundamentação (metafísica) é empregado por Heidegger de modo constante (presença-à-mão continua importante). Entretanto, para Harman, Heidegger nunca foi complacente com o conceito de Vorhandenheit. Bernasconi tenta identificar equipamento e poiesis (ex: martelo serve para o “fazer”, a “poiesis”). Mas Harman diz que o estar-à-mão não tem nada a ver com o manuseio de ferramentas (no sentido estreito de “uso”). Logo, não há privilégio lógico do “fazer”. É certo que um martelo em ação é um tool-being. Na medida em que uma ferramenta é uma ferramenta, ela não tem um campo teleológico visível (qualquer télos seu já reside no equipamento quebrado) (HARMAN, 2002 p. 110). Fica claro que, para Bernasconi, o tool-being é relegado à camada específica dos comportamentos humanos.

11- Não-Pragmatismo

– Crítica aos comentadores: Okrent

Na leitura de Okrent, entender um objeto (ex: carro) é entender como usá-lo. Assim, Okrent parece gerar um paradoxo por confundir o “saber” (understanding) e o “saber fazer” (know-how), confunde o entendimento com a competência prática. Na leitura de Harman, Okrent até entenderia bem a dimensão ontológica do Dasein (vê que o entendimento sempre ocorre no Dasein), mas ele toma entendimento como competência e já que somos incompetentes, conclui que a única fonte de entendimento é nosso auto-conhecimento (ibid.). A conclusão de Okrent é que, em Heidegger, a diferença entre subjetividade e ser desaparece, como se tudo pudesse ser entendido em termos da atividade propositiva do Dasein (onde não há a oposição realismo X idealismo). Mas é importante destacar que “ser é ser, não uso” (se nos relacionamos com o objeto, isso não iguala essa relação àquele objeto) (ibid., p. 117).

– Crítica aos comentadores: Dreyfus

Outro comentador, Dreyfus diz que há, na ciência, meios para criar relações entre tipos naturais independentes da mente humana, mas que a filosofia deve ser antirrealista e rejeitar esta tese. Surge assim o realismo deflacionário, significando que qualquer referência ao mundo-em-si-mesmo, independente do acesso humano, é incoerente (ibid., p. 122). Para se contrapor a este argumento, o realismo robusto diria que, ao contrário, é possível pensar uma alternativa aos postulados da tese da referência direta. O ser humano não está à parte do mundo, ele está imerso no mundo (isto é, na rede de relações, coisas, costumes, ideias…) e, ao menos no Dasein, o ser do homem está sempre inextrincavelmente envolvido. Para Harman, Heidegger realmente parece criticar a “presença-à-mão” justamente porque não pode ser distinguida do contexto humano. Mas isso não faz dele um anti-realista (é justamente o contrário). O “fora do contexto humano” não tem o modo de ser da presença-à-mão e “não podemos encontrar outra entidade, seja consciente ou inconsciente, sem cortar-lhes os joelhos, sem ‘desvivê-la’, relacioná-la” (HARMAN, 2002 p. 126). Assim, o “campo da presença-à-mão pode nos alertar sobre uma região independente de nós mesmos, mas nunca habitá-la” (ibid.).

Capítulo 2 (p. 127-164), Between Being and Time
Resumo elaborado por Eduardo Camargo

12-  The Being in Phenomena

A crítica de Heidegger a Husserl aponta para a questão da fixação da fenomenologia na representação, o que suprime o ser do Dasein e, isto, seria uma crítica da presença-a-mão que privilegia a substância e não a função. No entanto, Harman afirma que não apenas o Dasein não deve ser relacionado a uma ocorrência natural no mundo, mas nenhum objeto deveria. Assim, a alternativa primária à presença-a-mão não seria o Dasein, mas o ser-ferramental. Para Harman, Husserl está interessado nas coisas em si como alvos potenciais da consciência, Heidegger, por sua vez, está interessado nas coisas em si por si mesmas, e conclui que o passo além da fenomenologia de Husserl se apresenta não como uma teoria de horizontes ocultos, mas a teoria do equipamento real, ser ferramental em ação, ou seja, disponibilidade-à-mão.

13- The Threefold

Em Heidegger, o tempo se apresenta como uma triplicidade, “having-been”, “future projection” e “ambivalent present”. Assim, em “Being and Time” Heidegger apresenta uma temporalidade estática, na qual toda situação é definida por um sistema de equipamento pré-dado (pregiven), mas projetado por um Dasein. Temporalidade é concebida, assim como o tema do equipamento, para quebrar qualquer noção de realidade como presença-a-mão, o que pode ser constatado pelo dualismo: (1) a inescapável realidade onde sempre estamos estacionados, e (2) a maneira específica que esta realidade se apresenta a nós.

14- Truth and Its Double

Sallis aponta em Heidegger um regresso da verdade à sua condição ontológica de possibilidade. Com a verdade como ser-em-desvelamento (being-uncovering), Heidegger se move em direção à condição de tal desvelamento. Ele entra no reino do ser-no-mundo, do desvelamento do Dasein que sozinho faz qualquer intuição possível. Este movimento é uma duplicação da verdade, duplicação como ser-em-desvelamento, duplicado com o fenômeno original da verdade. Esta duplicação seria o que separa Heidegger da tradição anterior, quebrando o vínculo entre verdade e conhecimento como intuição. Para Sallis, o tempo, o espaço e assim por diante também teriam um duplo, com o que Harman concorda, afirmando que essas duplicidades de entidades seria o mesmo para Heidegger.

15- The Event

Mesmo que o ser seja redefinido como uma rede de relacionamentos do tipo evento e mutante, tal fato não tem valor político. Assim, filosofia política atua num outro nível diferente da ontologia. Harman aponta dois erros em Schürmann: (1) que a dualidade mundo/coisa teria uma maior intimidade com a as-structure do que a dualidade ser/seres, e (2) que as-structure abole transcendência. Da mesma forma que matéria e antimatéria não se encontram sem que se destruam, a as-structure não captura o ser-ferramental sem destrui-lo como ser-ferramental.

Capítulo 2 (p.164-205), Between Being and Time
Resumo elaborado por Maria Ribeiro

16- Language and the Thing

A teoria da língua heideggeriana está subordinada a uma teoria dos objetos. A tool-analysis empreendida pelo filósofo (MH) impede a redução das coisas (things) às práticas linguísticas, permitindo que se fale sobre as coisas elas mesmas. Desde Die Sprache, leitura feita em 1950, MH esclarece que o importante não é a língua (language), como fenômeno específico, mas a ação recíproca entre o mundo e a coisa. A filosofia da língua heideggeriana é uma filosofia do mundo e da coisa: da tool e da broken tool. Seu conceito de língua está atado àquele de realidade. Assim, língua é sinônimo de “mundo”, de “ser”, de tool e de broken tool.

17- Technology

A tool-analysis de MH não está ocupada com a descrição de tecnologias ou a análise de ferramentas (tools), simplesmente. Uma ferramenta não é compreendida com tal, uma ferramenta é; do mesmo modo, só pode é dada à compreensão porque é. A tecnologia é um fenômeno específico para Heidegger, presente ― maior ou menor grau ― em toda situação. Insiste GH que a noção de “equipamento” não deriva da capacidade de interpretação humana. A tool-analysis, segundo GH, destrona qualquer ideia de substância em favor de um sistema de referência. Há, em MH, uma certa relação entre tool/broken tool e a tecnologia. GH, entretanto, considera-a pouco convincente.

18- The Fourfold

A tool-analysis insiste sobre a autonomia das coisas em relação à meditação humana, a ação do pensar sobre algo. Aponta GH, enquanto o termo “ôntico” é entendido como aquilo que pertence aos objetos e não às condições nas quais se encontram tais objetos; sua real acepção é aquela que sublinha a presence-at-hand ao invés de readiness-to-hand. O que propõe o pensamento de MH é um movimento que parte da mera presença em direção aos objetos eles mesmos. A quadratura (Terra, Céu, Mortais, Divino), termo que dá título à seção, não se refere aqueles quatro tipos de entidades ou a um “catálogo ôntico”, assim, “Terra= mineral, mananciais, parreiras, milharais etc.” Segundo GH, a quadratura é um conceito inteligível, apesar de vago e frustrante e é formado pela intersecção de dois dualismos heideggerianos: a oposição entre tool/broken tool e a diferença entre o que é específico e o que é geral (something specific and something at all).

19- The Specter of Realism

De acordo com GH, a crítica ao realismo, elaborada por Slavoj Žižek (SŽ), é a mais original dos últimos tempos ― ainda que GH discorde de algumas leituras que SŽ faz de MH (“thus, from the standpoint of the presente book, Žižek is both a great hero and a great opponent”). A primeira contribuição de SŽ é a observação da impossibilidade de intersecção entre o “ôntico” e o “ontológico”. Para tanto, e do ponto de vista político, nenhum regime pode arrogar-se um princípio ôntico, a democracia inclusa. GH atribui a pretensão à assunção da “metafísica” como o reino de entidades específicas e privilegiadas, livres das implicações da presença. E conclui com seguinte nota: a filosofia contemporânea deveria associar-se a uma espécie de “guerrilla realism – a fresh insurgency on behalf of objects themselves”.

Capítulo 2 (final) e (parte do) capítulo 3 (p. 205-235), Elements of an Object-Oriented Philosophy
Resumo elaborado por Adelino Gala

19- The Specter of Realism

Neste tópico, Harman destaca conceitos especialmente relevantes de Zizek para a concepção de Tool Being. Estes são extraídos de dois livros: The Ticklish Subject (1999) e The Sublime Object of Ideology (1989). O autor afirma que Zizek está correto ao apontar uma impossibilidade de se correlacionar escolhas do ôntico (presente à mão) com a diferença ontológica existente entre presença e ausência. Porém discorda quando Zizek coloca neste espaço sua concepção de realidade, onde a mesma não se refere a um mundo real, mas se encontra dentro da esfera de fantasia do sujeito humano e suas ideias de aparecer e desaparecer. Zizek fundamenta a mesma em seu conceito de causação retroativa e assume uma posição que, segundo Harman em discordância, é idealista. Harman argumenta em direção a sua concepção de realismo onde nenhum objeto pode acessar as coisas-em-si, nem mesmo o humano, mas todos podem projetar-se para o mundo em seus modos-de-ser e encontrar uns aos outros. Acrescenta que Zizek diminui a importância da concepção de númeno de Kant por estudar a mesma e sua diferença para o fenômeno a partir de um pensamento transcendentalista, antropocêntrico, anulando a existência de trilhões de existentes na suspensão da epokhe. Zizek segue uma leitura e análise cartesiana que opõe fatos e valores, ao invés de percorrer o caminho mais frutífero da oposição entre atualidade e relação. Harman discorda ainda da posição de Zizek que afirma uma falta de sentido em se estudar a coisa-em-si, posto que esta não pode aparecer nunca. E finaliza discutindo a leitura e aplicação do conceito de transferência de Zizek para além de uma realidade apenas psico-analítica. E se a transferência fosse a condição para a causação física em si, onde objetos não são meros espectros?

20- Prehension

Harman inicia a discussão afirmando que o objetivo do capítulo é tentar esclarecer o estatuto ontológico do conceito de tool-being. Para isso aprofunda a conceituação de ferramenta e ferramenta fraturada, postulando-as como duas camadas diferentes, e explora suas formas básicas de relação. Este é o ponto onde o autor avança para além dos estudos de Heidegger. Para Harman, tool-being não é conversível para nenhuma forma de estrutura de superfície (as-structure ou esfera da percepção explícita humana).

O objeto existe e persiste de modo independente de sua manifestação. A partir desta visão o autor redefine a oposição relacional entre ferramenta e ferramenta fraturada de uma equivalência entre a oposição de causação invisível e percepção transcendente. Para o autor o lado da atualidade bruta que performa seu trabalho invisível e o aparente outro lado do espaço de transcendência são, na verdade, o mesmo lado. Consciência humana equivale a colisões físicas e são, de fato, infrafenômenos e não epifenômenos.

Nenhum objeto revela inteiramente um segundo objeto, nenhum objeto consegue traduzir um segundo inteiramente para sua língua, nenhum objeto é redutível a outro objeto. Para Harman, Heidegger tem uma atitude filosófica que ele qualifica como undermining, ao tratar a teoria tradicional da substância como um inimigo e tentar colapsar a mesma em uma massiva rede de relações prévias, onde os objetos estão colocados. Harman adiciona ainda que a coisa-em-si não está velada para a percepção, vai além, a coisa-em-si está velada a qualquer forma de relação. Segue argumentando que nesta lógica a atualidade torna-se mais rica e relevante do que o conceito de potencialidade, pois potencialidade tem preponderância para o pensamento que coloca o relacional como primeiro. Esclarece que qualquer forma de relação física é uma de segundo grau de uma realidade mais profunda, a do tool-being e sua atualidade. Com isto o autor convida o leitor a restaurar em seu pensamento o conceito necessário de substância para fugir de um possível ocasionalismo encoberto na filosofia de Heidegger.

Capítulo 3 (p. 235-280), Elements of an Object-Oriented Philosophy
Resumo elaborado por Alessandro Mancio de Camargo

Nesse trecho, Grahan Harman (GH) analisa vários autores e os relaciona à sua proposta tool/broken tool trazida de Heideggger

21- Contribuições de Levinas (p. 235)

[Emmanuel Levinas (1906-1995), filósofo francês para quem a Ética, e não a Ontologia, é a filosofia primordial. Para Levinas, é diante do outro que o sujeito se descobre responsável]. GH pede para deixarmos de lado o trabalho de Levinas sobre alteridade e nos debruçarmos sobre a interpretação dele sobre Heidegger, seu professor. Em especial, a crítica de Heidegger à distinção entre sujeito/objeto vista em Ser e Tempo. Para Levinas, a descoberta central em Heigegger é a relação entre um ser e seu ser. GH retoma aqui aspectos já discutidos no cap.1 do livro, sobre a fissura entre algo que existe e a sua existência. E aponta que, assim como Heidegger, Levinas entende que essa relação é ofuscada pelo conceito tradicional de temporalidade. Quando de fato trata-se de um simples contrato selado entre um existente e sua existência num instante singular; fato que, para Levinas, é passível de uma descrição criteriosa. GH retoma aqui também o conceito sobre “ôntico”, algo que existe mas ainda não se refere a um objeto, este sim já classificado por uma ontologia. GH diz que da mesma forma que ele se detêm nesses assuntos em Tool-being, isso também despertou Levinas, com seu enorme trabalho em torno da existência. Essas diferenças só tornam-se claras em determinados momentos da vida humana. Mas para Harman esses momentos são muito difíceis de se capturar.

22- Contribuições de Zubiri (p. 243)

[Xavier Zubiri (1898-1983), filósofo espanhol que formulou uma nova concepção da inteligência (senciente) e da realidade. A partir dos anos 30, seus esforços se voltam para os avanços na física e suas consequências para a filosofia]. Segundo GH, Zubiri é pouco conhecido até em seu país natal. Uma aproximação entre o sistema filosófico dele e tool-being seria: i) a realidade de algo é captada por sua presença; ii) a realidade é composta por algo específico (essência; consistência, prefere GH) e algo total, que reúne todas as qualidades (singularidade, segundo GH). A realidade é apartada de qualquer contato humano; iii) a realidade é sempre um sistema que unifica várias partes ou componentes irredutíveis às relações; tool-being existe apenas como uma soma de relações. Alunos de Heidegger, Levinas e Zubiri buscaram a seu modo a essência de “algo na mão”  (ferramenta) e a essência como nos aparece (broken tool). Grosso modo, a maneira como Zubiri refere-se à essência (“a estrutura física do momento em que a algo é tomado em si mesmo”) é como GH diz que interpreta tool-being, sendo que a essência deve permanecer afastada de qualquer tentativa de apreendê-la.

23- Refinando o problema (p. 252)

A essência é um impulso de toda entidade; por isso não pode estar restrita a um certo número de classes de entidades (a realidade física, nos termos de Zubiri). É preciso levar em consideração que toda entidade é em uma de suas metades fisicamente real e na outra meramente relacional. Nada pode ser relacionado de forma inequívoca a um só lado da equação. Mas de forma inesperada, também a presença à mão e a prontidão à mão de uma entidade acaba por torná-la dois seres distintos. Segundo Harman [p.268],

Zubiri defende uma distinção que é idêntica ao segundo eixo de Heidegger. A diferença em questão é entre uma coisa como uma coisa, e uma coisa como possuidora de tons específicos. Essa é uma diferença que ocorre tanto na essência em si mesma e na essência dessa coisa como algo para nós. Embora esteja claro para Zubiri que esses tons não podem existir por conta própria, para além da unidade da própria coisa, há ainda alguma coisa distinta aí. Levando em conta que esse dualismo se repete tanto em si como no que é percebido do lado de fora, Zubiri está lidando com um objeto quádruplo [grifo meu], que é o mesmo encontrado em Heidegger. Mas as relações entre esses quatro termos em qualquer objeto permanecem em grande parte obscuras.

24- Classical Milestones (p. 268)

Baseado em análises que nos liberam das teorias naturalistas de substância como as feitas por Heidegger (presença à mão), Whitehead  [“vacuous actuality”, ou seja, algo desprovido de imediatismo subjetivo] e em outros filósofos [como Zubiri, Kant, Leibniz, Aristóteles etc.], GH [p.280] explica que tentou mostrar como Tool/broken tool […] é menos uma distinção de número e fenômenos do que de conteúdo e relação, uma vez que, inevitavelmente, reduz-se a pássaros, rochas, vírus e átomos. Whitehead mais do que um outsider filosófico e, portanto, mais do que um tomador de risco feito Heidegger, vê isso mais claramente do que esse contemporâneo [GH].

Final do capítulo 3 (p. 280-296), Elements of an Object-Oriented Philosophy
Resumo elaborado por Lucia Santaella

25- Two paradoxes

O objeto é uma espécie de campo minado ou bomba temporal, escondendo sua realidade explosiva até que, de algum modo, ele entra em jogo. GH propõe o quadrado heideggeriano de um X cruzado de ferramenta e ferramenta quebrada com uma segunda oposição entre as qualidades de uma coisa e sua mera unidade sistemática. O que Heidegger precisava era de algo como uma nova lista de categorias ou, pelo menos, de um conjunto de leis governando a interação entre sistemas de objetos e seus fragmentos resistentes e recuados. Nunca tendo feito isso, ele nos deixou altos e secos entre o monótono toque de tambor da ferramenta e ferramenta quebrada ou, no melhor, na ligeiramente mais intricada canção da terra e do céu, deuses e mortais (p. 281). O não-usual conceito de ser ferramental atinge dois propósitos. A crítica de Heidegger à presença à mão: um objeto não é uma óbvia massa física, nem uma mera presença a outros objetos, mas sempre algo mais. Em segundo lugar, o conceito de ser ferramental rompe com qualquer distinção entre simples essências últimas e as relações ulteriores em que elas se envolvem. (p. 283). A demanda deste livro é que toda relação é também ipso facto uma nova entidade. (p. 284). O ser ferramental de qualquer entidade recua de qualquer complexo relacional em que se encontre. (p. 287)

26- Tools in a vacuum

Que modelo de mundo emerge quando empurramos a análise da ferramenta até sua forma mais extrema? Diz Harman que ofereceu o modelo de realidade como um reverso entre ferramenta e ferramenta quebrada, com o ser ferramental recuando não apenas atrás da apreensão humana, mas atrás de qualquer relação de qualquer tipo (p. 288). Não há saída da densidade do ser, nenhum modo de estar fora do jogo bruto de forças e de entidades empacotadas no vácuo que povoam o mundo. (…) Em adição às ferramentas imersas no mundo heideggeriano, há também ferramentas no vácuo, região em que o ser ferramental se localiza. (…) Afinal, o mundo está completamente vazio de percepções e plenamente empacotado de entidades. (p. 289-290). A diferença central deste livro se situa entre ferramentas em um sistema e ferramentas no vácuo. O ser ferramental recua até mesmo atrás do contato causal com outras entidades. Não há sistema que não seja também uma entidade, de modo que até minha percepção deve contar como uma entidade ou objeto. (…) O mundo não contém relações, apenas entidades. Mas as entidades são sempre seres ferramentais recuados, de modo que estão selados em um vácuo vazio de quaisquer relações. Portanto, o mundo está empacotado com zonas de vácuos não comunicantes, bolhas ontológicas, nenhuma delas capaz de transmitir energia ou influenciar outras. Nem há janelas ou portas a serem encontradas (p. 295). De acordo com os resultados deste livro, não há nada no mundo a não ser objetos, o que requer uma teoria ontológica mais ampla. Heidegger nos colocou nas bordas de uma tal teoria. (p. 296)

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