Resumo do livro: Onto-Cartography: An Ontology of Machines and Media, de Levi R. Bryant

onto cartography

Bryant, Levi. Onto-Cartography: An Ontology of Machines and Media.

por Adelino Gala

Introdução

Bryant (2014) expande as fronteiras do entendimento das máquinas em direção a uma ontologia orientada às mesmas. Todas as entidades existentes possivelmente são máquinas, pois operam dinamicamente inputs produzindo outputs. Essa teoria se configura também como uma cartografia das relações entre as máquinas e como sua reunião organiza movimentos, o desenvolvimento e o nascimento de novas máquinas no mundo. A sua ontologia o autor denomina Onto-cartografia, ou “mapeamento da coisa”.

Bryant procura uma defesa do materialismo através de uma renovação do mesmo. Posiciona-se contra argumentos de que o materialismo é redutor e mecânico e que há algo imaterial no humano, na cultura, no social e no pensamento. Conforme Bryant (2014, p.I), um dos grandes problemas do materialismo se encontra em sua redução à ideia que denota história e prática. Uma história que se transformou em discurso histórico preocupado com o que se fala sobre o mundo, as normas e leis nas quais as sociedades se organizam e uma prática que se transfigurou em discurso prático através do estudo da agência dos significados, performance, narração e ideologias que formam as subjetividades. Entendimentos que segundo o autor (ibid.) “são teorias sociais, obviamente, convenientes para os estudiosos das humanidades que acreditam que seus textos formam a base fabril fundamental dos mundos e que acreditam que suas investigações e atos são os mais importantes entre todas as coisas.” Com o empregar do materialismo nos moldes de uma teoria pura, a matéria em si de algum modo se dissolveu em meio à linguagem, cultura e o discurso.

Para Bryant a materialidade não precisa necessariamente ser testemunhada por um observador, deve carregar também uma discussão sobre sua fisicalidade e seus agenciamentos materiais. Materialidade também não se reduz a algo contingente. Os contornos atuais pouco têm a dizer sobre processos que ocorrem no coração das estrelas, sobre a transferência de informação por um meio particular, sobre as pessoas terem filhos ou não, sobre sofrer uma doença como o câncer, ou ainda a transformação de combustíveis fósseis em efeito estufa, sobre computação, sobre o tratamento do lixo, sobre como as casas são aquecidas e assim segue. A consequência deste cenário se dá em uma renderização invisível das agências físicas, que se tornam meros espelhos dos humanos e das determinações por parte dos mesmos do que as coisas são. Por exemplo, o autor concorda com Marx de que quando uma pessoa compra algo, a mesma está atuando em uma cadeia de relações que envolvem produção, distribuição e consumo. Porém discorda da evolução da teoria crítica, possivelmente contrária inclusive ao pensamento de Marx, de que coisas não são reais, mas apenas cristalizações da sociedade e da cultura. Trata-se de uma inversão no entendimento do que é o poder das coisas, tratando as mesmas como meras instancias da economia, da linguística e da cultura. Discutir o poder das coisas em si e de sua produção de efeitos sobre outras coisas passou a ser tratado como algo ingênuo.

Não pretendendo ignorar o poder do materialismo incorpóreo da história, do discurso e da semiótica, a ontologia de Bryant procura corrigir excessos e resgatar aspectos de certo modo esquecidos pelo idealismo da teoria crítica. A materialidade corpórea também tem seu poder e uma função que geram manifestações na estruturação da realidade. Por exemplo, a presença de uma usina elétrica determinada o crescimento ou não de uma cidade. Se esta usina for térmica, determinará também aspectos importantes atrelados a poluição. Um sistema de água bem construído permitirá saúde, higiene, atraindo moradores e reduzindo doenças; Isso também ocorre com a presença de um estádio, que determinará a alegria daqueles que o frequentam, mas que pode causar nervosismo em outros em função do transito gerado em seu entorno. Significados, sentido e crenças não são agentes únicos no papel da estruturação do social. As propriedades corpóreas das estradas, linhas de transmissão, poluição, sistemas de água tem uma função na manifestação do social.

Em seu livro (2014) Bryant não pretende determinar o que é a matéria em si, papel melhor delegado para a física e química. Mas acredita que a materialidade não é única, mas sim diversa. Também não busca discutir questões ligadas a qualidades e quantidades, apontando tais abstrações como um fator que nos distancia do entendimento da matéria ao transformá-la em conceito. Como matéria o autor entende uma variedade de coisas que tem diferentes formas. Ideias e conceitos tem sua materialidade. Apesar de a materialidade ser uma questão em aberto, Bryant especula que esta pode ser composta por várias formas de energia, cordas, partículas fundamentais. Dentro de uma postura particular declaradamente ingênua, o autor aponta que o mundo é formado por coisas físicas como árvores, pedras, planetas, estrelas, carros, que pensamentos e conceitos só existem no cérebro, papel, em bancos de dados de computadores, e que ideias só podem se transmitidas por meios físicos como cabos de fibra ótica, fumaça, atmosferas ricas em oxigênios, entre outros. Trata-se de uma ontologia de entidades discretas e emergentes. O mundo é composto de unidades e existentes individuais em uma variedade de escalas diferentes e que são em si compostos por outras entidades. A essas entidades o autor denomina máquinas que operam dinamicamente inputs e produzem outputs e a discussão sobre as mesmas é direcionada a questões ligadas ao social, a política e a ética.

A onto-cartografia de Bryant pretende analisar e organizar como as relações entre máquinas, corpóreas e incorpóreas, criam e determinam as relações sociais e ecológicas. É um mapa de relações de como a reunião de máquinas cria os movimentos da realidade. Procura entender como o poder funciona a seu modo, como as formas de organização social persistem e resistem à mudança, como as sociedades não se desintegram como resultado da entropia e como criar estratégias para desconstrução de sistemas sociais opressivos. A tese principal é de que “relações ou ecologias assumem a forma que tem em função de sua gravidade – meu termo para poder – máquinas físicas e discursivas operam sobre elementos que habitam reuniões, mundos e ecologias.” (2014, p. 7) Trata a geografia como a principal ciência entre as sociais, pois esta desmaterializa o mundo e as relações sociais sem transformar as ecologias sociais em um mero discurso. A geografia reconhece o fato das relações sociais estarem sempre atadas a um espaço ou local, reconhece ainda que a comunicação leva tempo para viajar pelo espaço e demanda algum tipo de mediação para fazê-lo. Difere da geografia por mapear relações e interações entre máquinas e entidades e como estas estruturam um movimento de transformação, ao invés de mapear apenas espaços geográficos. Como propósito final, a meta da onto-cartografia “é expandir as possibilidades de intervenção no mundo para produzir mudança, assim como melhor entender como o poder funciona e cria estratégias para superar varias formas de opressão”.

No primeiro capítulo o autor argumenta que os mundos são inteiramente compostos por máquinas, delineando os diferentes tipos de máquinas existentes, das mais rígidas até as mais plásticas (discursivas, físicas, orgânicas, tecnológicas, inorgânicas). Propõe uma ecologia midiática pós-humana onde uma mídia é compreendida como uma entidade que contribui com o vir a ser de outra entidade, dispondo e restringindo as possibilidades de movimento e interação com outras entidades no mundo.

O segundo argumento que sustenta sua tese está disposto na sequencia. O desenvolvimento da ontologia geral das máquinas. Tal argumento é composto pelas ideias de que máquinas devem ser compreendidas por suas operações, transformando inputs que fluem dentro de si em uma variedade de diferentes tipos de outputs. Durante as operações as máquinas devem ser compreendidas como transcorpóreas ou interativas em relação a outras máquinas através de fluxos de informação, matéria, e materiais que elas recebem de outras entidades.

No capítulo três o argumento se posiciona na definição dos modos como as máquinas interagem com outras entidades e consigo mesmas. Para tal segue os trabalhos de Ian Bogost em seu livro de 2012, Alien Phenomenology.

O capítulo quatro apresenta as formas como máquinas são reuniões ou aglomerados de outras máquinas e afirma que toda máquina enfrenta, necessariamente, o problema da entropia. Para que as máquinas durem ao longo do tempo, estas devem se engajar em uma operação perpétua que permita a manutenção de sua organização.

O quinto argumento versa sobre as estruturas dos mundos. Diversos tipos de mundos existem e os mundos são constituídos por ecologias de máquinas. A partir de Deleuze e Guattari, o autor faz uma investigação sobre a relação entre expressões, ou o reino do discurso e das máquinas semióticas, e o mundo das máquinas físicas e o modo como as duas se influenciam.

O sexto argumento explora as estruturas do espaço e tempo a partir do quadro da onto-cartografia. Rejeita a abordagem Newtoniana de que o espaço é um vazio que contem entidades onde o movimento é possível em qualquer direção e defende a ideia de que o espaço tem uma topologia composta de caminhos entre máquinas e compostos de máquinas que determinam o que está relacionado ao outro e vetoriza o movimento de uma entidade na direção de um destino particular. Esses caminhos têm um papel chave na organização do poder e sua montagem. Para o tempo o autor sustenta que o mesmo é plural, sendo determinado pelo ritmo que uma máquina pode receber e processar inputs de outras máquinas.

O capítulo sete destina-se a discussão da agencia e estrutura das organizações sociais, explorando como tais organizações emergem e persistem como consequência das construções dos caminhos espaço-temporais das máquinas, sobre os quais outras entidades se movem, se desenvolvem e vêm a ser. Neste argumento o autor faz a substituição do conceito de poder pelo de gravidade com o intuito de superar a conotação antropocêntrica que o termo poder adquiriu nas teorias sociais e políticas vigentes. Procura chamar com isso a atenção de como animais, plantas, tecnologias, bactérias e outros contribuem para a organização do social. Discorre ainda sobre sua noção de agência e sujeito.

O argumento oito discute sobre o quadro geofilosófico para o pensamento social e político. A geofilosofia acredita que apenas o mundo material e natural existe, sociedades e culturas são organizações dessa realidade, que o mundo natural exerce um papel preponderante nos aglomerados sociais e sua organização, que não há organizações sociais que não dependam do fluxo da materialidade para obter energia e resistir a entropia e que a causalidade que determina os agrupamentos sociais é determinada por uma variedade de máquinas diferentes. Apoiado na teoria do desenvolvimento sistêmico (DST), o autor cria um modelo de desenvolvimento que investiga a forma como as entidades são determinadas por uma causalidade bidirecional que envolve genes e ambiente e na participação ativa dessas entidades na construção de si mesmas.

O livro tem seu fechamento com a conclusão de que existem três dimensões para a geofilosofia: cartografia, desconstrução e terraformação. A primeira se refere ao mapeamento das interações e relações entre máquinas que compõem aglomerados ou ecologias. Tal mapa se divide em quatro: cartográficos, genéticos, vetoriais e modais; Desconstrução se refere a revisão e desconstrução das teorias críticas tradicionais. Deve ser feita a desconstrução do entendimento de máquinas como relações entre expressões e conteúdo para que o mundo possa mudar; Terraformar é o ato de construir e edificar alternativas que permitam as pessoas a escapar das circunstancias opressivas nas quais elas vivem. Nesse sentido o autor mostra que muito da opressão que persiste na vida das pessoas é fruto da opressão material nas quais as mesmas vivem e que não possibilitam alternativas.

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