Resumo do livro: Guerrilla Metaphysics: Phenomenology and the Carpentry of Things, de Graham Harman

guerrilla

Harman, Graham. Guerrilla Metaphysics, Chicago: Open Court, 2005
Resumo do livro

Introdução (p. 1-6)

Resumo elaborado por Lucia Santaella

Guerrilla Metaphysics dá continuidade ao livro Tool Being (ver resumo neste mesmo site). Neste, Graham havia proposto que os objetos existem em total isolamento uns dos outros, empacotados em reclusos vácuos privados. Agora é preciso contar o outro lado da história, deslocando a atenção dos objetos para suas interações. Diferentemente daquilo que o autor chama de Fenomenologia carnal, na sua “carpintaria das coisas”, os objetos têm uma existência que não se limita à arena da experiência humana sensória e perceptiva.

O livro está dividido em três partes: a primeira é dedicada aos “Fenomenólogos carnais”, distribuindo-se em 5 capítulos. O capítulo 1 critica os comprometimentos da fenomenologia com o lado errado da disputa entre realismo e antirrealismo. O capítulo 2 questiona o que Husserl, de fato, concebe como percepção. O terceiro desloca-se para Levinas e suas puras qualidades, sem objetos. O quarto traz à tona a discussão do conceito de carne em Merleau-Ponty, infelizmente um conceito que necessariamente pressupõe o envolvimento humano. O capítulo 5 considera o trabalho de Lingis e sua crítica a Levinas e Merleau-Ponty.

A segunda parte pretende “Colocar a mesa”, ligando a fenomenologia carnal com as propostas levantadas em Tool Being. No capítulo 6, discute os pressupostos da sua teoria da estrutura quadrupla dos objetos. No capítulo 7, traz à discussão sua teoria da causação vicária. O capítulo 8 toma a metáfora como ponto de partida para estudar a interrelação entre os objetos perceptivamente unificados e suas inúmeras propriedades tangíveis.  No capítulo 9, o mesmo é feito com o humor no seu poder de fascinação (allure) que separa a coisa de suas qualidades.

Por fim, a terceira está voltada para a “Filosofia quádrupla”, desenvolvida em 3 capítulos que funcionam como uma síntese que une o carnal com a causação vicária da fascinação.

Part One: THE CARNAL PHENOMENOLOGIES

1.Concreteness in the Depths (p. 9-20)
Resumo elaborado por Lucia Santaella

A.The most high

Na sua defesa do carnaval das coisas, Graham aceita a crítica que Dominique Janicaud dirige à virada teológica de Levinas, na sua nostalgia do mundo em si mesmo da metafísica e na sua revelação da infinitude como subjetividade. “Para Levinas, o drama do finito e do infinito ocorre apenas na intersecção entre a intencionalidade humana e qualquer coisa que esteja além dela” (p. 13). Entretanto, Graham também critica a posição de Janicaud, pois este achata o mundo naquilo que vemos dele, o que não passa de uma epistemologia com outro nome a expensas da metafísica (p. 14). É certo que ele tenta ir além das aparências, mas esse além se encontra inteiramente dentro das condições ocultas à possibilidade do observador humano.

B. A Hidden agreement

Para Graham, Janicaud está errado quando pensa que os autores sob sua crítica não são verdadeiros fenomenólogos. Na sua cautela compartilhada em relação a quaisquer coisas extrafenomênicas independentes, eles são, na verdade bastante leais a Husserl. Mesmo quando se livram da redução da realidade ao acesso dos humanos a ela, nos apresentam um único Infinito triunfante em lugar da realidade plural das coisas individuais (p. 15).

 C. Unnatural objects

Infelizmente, o principal propósito da virada em direção ao fenômeno não passa de uma supressão de todos os aspectos extrafenomênicos das coisas. “Mas o tempo chegou de se perseguir um modelo das coisas como objetos autônomos e não como fenômenos acessíveis aos humanos” (p. 17). Os perspectivistas ingênuos, que dominam a nossa era filosófica, irão chamar isso de passo reacionário, pura regressão a um realismo raso. A teoria defendida nesse livro vê os objetos como existindo não apenas em alguma última camada mimada, mas em todo o caminho para cima e para baixo da escada do cosmos, de modo que toda a realidade ganhe a dignidade dos objetos.

2.The Borderlands of Intentionality (p. 20-32)

Resumo elaborado por Lucia Santaella

A chave da fenomenologia se encontra na noção de intencionalidade, o conhecido axioma de que a consciência é sempre consciência de algo. Entretanto, reviver a fenomenologia significa restaurar nosso sabor pelas texturas específicas e os sobretons da experiência concreta. Heidegger rejeitou a intencionalidade que Husserl herdou de Brentano, mas o papel primário da aparência sensória, para Heidegger, é simplesmente desaparecer sob o ataque do profundo e do oculto. Aqui Janicaud está certo ao apontar para as origens teológicas de Heidegger. Este livro irá apresentar um modelo de mundo que caracteriza incontáveis estratos da realidade: objetos embrulhados em objetos, selados em objetos, congelados em objetos, estendendo-se acima, abaixo e dentro do teatro da consciência humana (p. 23).

A.Objectifying acts

Apesar da reivindicação de Husserl de que o objeto “não é apenas uma realidade na consciência”, ele nunca se permite localizá-lo em algum mundo físico atual, com medo de que o naturalismo reentre na filosofia pela porta dos fundos. Não lhe sobra saída a não ser glorificar o objeto como uma unidade ideal (p. 25). Já, para Heidegger, o drama da filosofia jamais se encontra dentro de um fenômeno concreto específico, mas tão somente habita o hiato que separa esses fenômenos de nós.

B. The Blackbird

A intencionalidade não é uma questão de material bruto de cores e sons, mas de objetos unificados que a consciência sempre busca, mas nunca alcança. Para Husserl, a verdadeira vida da consciência ocupa-se de objetos e não de dados sensórios. O material dos sentidos serve como uma âncora constante para nossas aventuras incessantes na direção de objetos unificados. Husserl estabelece a distinção entre intenção significativa simples (meaning-intention) e plenitude significativa direta (direct meaning fulfillment). Também entre plenitude provisória e plenitude final. Tanto as intenções significativas e atos de plenitude significativa, atos de pensamento e atos de intuição pertencem a uma única classe de atos objetificadores (p. 27). Para ele, todos os atos objetificadores são nominais ou fundamentados em tais atos. Para a fenomenologia, nomear um objeto é apontar para alguma espécie de forma unificada que liga muitas propriedades distintas.

C. Objects and Qualities

Husserl abandona o realismo clássico, fechando a existência do mundo natural para deixar o fenômeno governar o cosmos. A intencionalidade não apenas une o sujeito e o objeto, mas “também contém objetos separados como conteúdos específicos, incluindo eu mesmo na medida em que não sou idêntico ao que intenciono” (p. 29). A redução eidética tenta chegar ao núcleo essencial de uma coisa por meio da variação de seus modos de aparição e retirando os traços mais transitórios até que ganhemos a intuição direta de sua essência (p. 30). Assim, a redução fenomenológica suspende qualquer conversa sobre realidade externa daquilo que percebemos, achatando tudo em um único plano intencional no qual sujeito e objeto se unificam.

D. The Borderlands

A lição cumulativa deste livro, até agora, é a de que a fenomenologia se prende ao ponto médio de duas intersecções: (a) de um lado, lidamos com objetos, pois simples dados de sentidos sem forma não são nunca encontrados, por outro lado, um mundo de “tão somente objetos” não poderia ser tangível ou experienciado de qualquer maneira, visto que os objetos sempre nos enganam. (b) de um lado os fenômenos estão unidos à nossa consciência em um único ato intencional, enquanto, de outro lado, eles estão claramente separados, uma vez que nos fascinam nas extremidades da atenção ao invés de se misturarem indistintamente dentro de nós (p. 32). Neste livro, iremos para além da descrição do fenômeno para retornar às regiões abandonadas da metafísica, a despeito de todos os avisos sobre seus perigos.

 

3.Bathing in the Ether (p. 33-44)
Resumo elaborado por Isabel Jungk

Husserl (EH), alerta aos contornos sensíveis das coisas, as trata como fenômenos mas não como objetos indissociados de um sujeito humano pensante, sem deixar claro o que é o meio sensual de nossa experiência, já que objetos nunca se fazem carnalmente presentes nem são constituídos de puros dados pré-objetivos. Apesar de Heidegger (MH) poder ser lido como um realista que corrige EH, também ele não atenta para o significado filosófico da colisão entre objetos. Por outro lado, a escola de filósofos “carnalistas”, Levinas (EL), Merleau-Ponty e Lingis, se banha num éter dos sentidos, atentando para a névoa de qualidades e estímulos em que nossas vidas estacionam. Para EL nossa relação com esse éter pode ser descrita como fruição.

A. Passivity

Estamos numa zona concreta de realidades sensuais. EL postula um Outro além da concretude de qualquer momento, ao mesmo tempo em que descreve detalhadamente esses momentos. Segundo ele, em EH toda intencionalidade e percepção é representação ou está fundada nela, privilegiando a inteligibilidade, à qual ele contrapõe sua própria filosofia. Porém, toda intencionalidade é orientada ao objeto e não representacional. Entretanto, a fim de superar o naturalismo científico, EH retira das coisas seu caráter de agentes autônomos. É possível dizer que para EL a representação não envolve qualquer passividade ou sensibilidade. Para EH, a distinção entre elas ocorre em cada camada da percepção. Em contraposição à atividade da representação mental, EL enaltece a passividade da fruição e a vulnerabilidade da existência corporal.

B. Quality without Substance

Na fruição (sensibilidade) as coisas não são absorvidas na finalidade técnica que as organiza em sistemas; elas são tomadas em seus próprios termos, autonomamente. O meio em que a fruição ocorre é chamado o elemento, no qual as coisas são captadas em suas qualidades elementares (não objetividade). Essa experiência é constante e a relação com ela assemelha-se ao banhar-se. O éter do meio elemental é conteúdo sem forma, é não substancial. São qualidades soltas sem suporte, que nada determinam, desligadas de substâncias, adjetivos sem substantivos. Qualidades sensíveis não são conhecidas (representadas), são vividas. Porém, fruímos objetos específicos de maneiras específicas, o caráter da fruição muda a cada ato de fruição. Assim, não há fronteiras absolutas entre sensações passivamente recebidas e os objetos formados ativamente; não há dualismo entre sensação e pensamento, somente uma cisão ubíqua entre a coisa como unidade e a miríade de facetas sensuais pelas quais ela aparece, não sendo possível segregar o mundo em duas zonas cujas estruturas de fato permeiam a ambas.

C. Satisfied with Appearance

Para EL há uma realidade que excede toda compreensão. Sua simpatia pela plenitude substancial das coisas mostra antipatia pela sua disponibilidade (presence) à mão. A estranheza que a fruição confronta é uma sempre nova profundidade de ausência; essa forma de existir sem se revelar, fora do ser e do mundo é chamada de mítica, existência impessoal sem existentes (il y a). O sensível é uma aparição sem haver qualquer coisa que apareça. Tanto EL quanto EH falham em dizer algo sobre a relação entre objetos no mundo, restringindo-se a uma filosofia do acesso humano às coisas.

D. The Ether

EH se ocupa da estrutura objetivadora da intencionalidade, sendo os objetos limites ideais nunca acessíveis diretamente. EL, junto com M-Ponty, é um dos primeiros a atentar para o éter carnal e sensual que acompanha todo fenômeno. Entretanto, seu modelo de que todas as coisas em nossas vidas emergem de um único elemento sem forma tem fraquezas teóricas: 1) Confina-se a uma única camada passiva ou receptiva da realidade; 2) As profundezas da realidade é um rumor autônomo sem partes, e a pluralidade somente pode ser estabelecida pelos sentidos humanos; 3) EL compreende mal sua própria noção de sinceridade de consciência, presente tanto na fruição como em atos intencionais objetivadores.

4. The style of things (p. 45-58)
Resumo elaborado por Tarcísio Cardoso

No capítulo 4, Harman critica as ideias do fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (ex: prosa árida da filosofia contemporânea, que pode ser comparada a um gerador de texto randômico). Para Harman, as “qualidades sensíveis” se tornaram um mistério não resolvido pela sua fenomenologia da percepção, pois ao mesmo tempo em que tais qualidades parecem sempre ser imediatas, geram um enigma sobre o mecanismo que governa a relação entre ser percebido e efeito da percepção.

A. Sensation

Em Merleau-Ponty, “sensação” é uma ideia que distorce a análise da percepção, e deve, portanto, ser suplantada. “Percepção”, por sua vez, já é uma interpretação de objetos (percebemos objetos, e não dados sensíveis forjados). Merleau-Ponty vê “matéria” (hylé) como conexão entre sensações.

“Não há sensação que não esteja em comunicação com outras sensações ou com sensações de outras pessoas, e por esta mesma razão não há forma, não há apreensão ou apercepção, o ofício de dar significação para uma matéria que não a tem, e assegurar a unidade a priori da minha experiência e da experiência compartilhada com outros” [Merleau-Ponty, Phenomenology of Perception, 471]. Matéria não é um lugar específico em um mapa, um lugar para ser encontrado em um vento ou estrela como oposto aos exércitos organizados e às máquinas industriaus de larga escala. Ao contrário, é entrelaçada com formas em toda porção do cosmos, como já estava implícito em Husserl. (Harman, 2008, p. 47)

Deste modo, Harman gostaria de concluir que as qualidades pertencem aos objetos em si mesmos e não são conteúdos da mente. “[…] as qualidades são permanentemente subordinadas às coisas” (ibid., p. 48), o que torna os objetos espécies de organismos cujas cores, sons etc. são propriedades sensíveis que correspondem, estas sim, a uma e mesma “coisa”. 

B. The body

Na leitura de Harman, o “corpo” (e não a “mente”) é uma unidade de percepção capaz de “julgar” o tamanho relativo das coisas (ex: a bengala do cego aumenta sua percepção… o “carro percebido” pode caber na vaga…). Assim, as sensações e os corpos estão sempre abertos para o “mundo”, isto é, para novas percepções capazes de alterar os estados mentais e de estabelecer juízos.

 C.The in-itself-for-us

O conceito de “em-si-para-nós” representa uma reflexão sobre a existência ou não do mundo como uma realidade autônoma – o perspectivismo, segundo Harman, guarda afinidade com realismo e com idealismo. Por um lado, há uma “metafísica das relações”, pois um objeto não é redutível à minha perspectiva (mas nem é uma entidade real fora das perspectivas). Por outro, por objeto Merleau-Ponty entende um ponto focal de muitas perspectivas, o que afirma que a “casa-em-si” é a casa vista de todos os ângulos. Assim, a realidade de uma coisa é a soma de todas as perspectivas, pelas quais outras coisas a percebem, de modo que o “objeto” nada mais é do que os infinitos presentes que se interseccionam sem deixar nada oculto.

Como diria Merleau-Ponty, “é da natureza do real comprimir, em cada instante seu, uma infinidade de relações” (apud Harman, 2008, p. 51). Essa fenomenologia concilia realismo e idealismo, pois o objeto está sempre na experiência (ele é “para nós” e ele é “em si”). Ela é oposta à de Husserl, para quem o ser (objeto intencional) é um princípio ideal unificante dos modos de aparência. Aqui o ser (objeto intersubjetivado) é a soma total dos modos percebidos, e “percebido” é independente da “alma” (HARMAN, 2005, p. 51-52). Mas Merleau-Ponty não aceita que “espelhos perceptivos” sejam independentes da esfera humana. Ao contrário, para essa filosofia intersubjetivista, o mundo é um todo indiferenciado que ganha sentido apenas com a consciência humana. Ex: tempo e espaço são plenos, até que observadores humanos os fraturem, segmentando e dando sentido. Essa abordagem guarda bastante similaridade com o idealismo, e Merleau-Ponty se coloca uma questão parecida com a questão de Berkeley: “que sentido há em dizer que o mundo existia antes da humana consciência?”.

D. Flesh

Em Descartes, o vão entre a alma e o mundo é tão grande que apenas a influência divina poderia superá-lo (Harman, 2008, p. 53). Mas para Merleau-Ponty a “carne” do mundo é uma espécie de plasma, de causa ocasional capaz de conectar as esferas (alma/mundo). Assim, todas as relações entre “eu” e o “ser” (ex: a visão, a fala) são relações carnais com a sensualidade do mundo. Desse modo, ter um corpo é estar envelopado nas coisas, e a materialidade carnal é uma condição de interface, que faz a mediação, o entrecruzamento dos materiais da alma e do mundo.

E. Style

A reflexão sobre o “estilo” busca um contato entre ficção e realidade. A arte, p/ Merleau-Ponty, não é redutível a uma lista de qualidades. Do mesmo modo, o “objeto” é uma unidade estilística, isto é, é uma entidade com certos comportamentos, e não um mero conjunto de propriedades (Merleau-Ponty apud Harman, 2008, p. 56). Neste sentido, o objeto sempre excede seus contornos visíveis. É um “estilo invisível”, uma maneira singular de ser (uma “realidade” da coisa). Objetos são “estilos”, por isso nunca aparecem. O que aparece é sempre o elemento carnal, o meio de manifestação.

5. The levels (p. 59-70)
Resumo elaborado por Gustavo Rick

Neste capítulo, Harman se concentra numa obra do filósofo norte-americano Alphonso Lingis intitulada “O imperativo” para poder comparar o posicionamento deste pensador com o dos demais fenomenólogos cujas obras foram discutidas nos capítulos precedentes.

A. The imperatives objects

Na primeira seção (A) do quinto capítulo, Harman apresenta a concepção de objetos imperativos  e passa a argumentar que, com tal concepção, Lingis não pretende afirmar que o objeto imperativo seja uma imposição que serviria para restringir nossa liberdade. A ideia de Harman é afirmar que, com esta concepção, Lingis não pretende introduzir uma espécie de código de ética que seria estabelecido para a percepção. O caráter do imperativo é mais ontológico do que ético.

B. The Senses under Command

Harman começa a seção B do quinto capítulo afirmando que, para Lingis, é a própria percepção que possui uma estrutura imperativa e exatamente isto que aproxima este pensador das teorias dos atos intencionais (discutida nos capítulos anteriores). Para Harman, esta obra de Lingis pode ser entendida como um “fusão de Levinas e de Merleau-Ponty” (respectivamente, uma fusão entre uma teoria unificada no campo da ética e uma fenomenologia da percepção).  De acordo com a descrição de Harman, Lingis entende que, na percepção, o papel central é exercido não pela liberdade humana, mas pela voz comandante das coisas. Como Merleau-Ponty, Lingis sustenta que respondemos ao imperativo das coisas menos com conceitos e mais com pequenos ajustes corporais que trazem o objeto para perto de nós.

When we look at the sequoias, our eyes follow the upward thrust of their towering trunks touching the sky and their sparse branches fingering the mist. We comprehend this . . . not with a concept-generating faculty of our mind but with the uprighting aspiration in our vertebrate organism which they awaken.  (Lingis, 1998,  p. 62)[1]

De acordo com a interpretação de Harman, a expressão mais importante da perspectiva filosófica de Lingis está na concepção de níveis do mundo. Esta concepção é tratada por Harman na seção C do quinto capítulo.

C. The Levels of the world

É neste ponto da discussão filosófica que Lingis se afasta da fenomenologia da percepção. No mundo imperativo, os objetos como o vemos nunca estão completos. Perceber é atravessar e experimentar níveis do mundo. O que unifica algo na percepção não uma lista de fatos ou um sentido total, mas é um estilo que define o próprio nível da atividade em questão. Para Lingis, estilo não é algo que concebemos, mas algo que captamos e que nos cativa. Utilizamos nossos corpos para entrarmos no estilo do ambiente e de qualquer objeto que encontremos neste ambiente. Para Harman, este conceito de nível dentro do pensamento de Lingis é responsável por afastá-lo dos dogmas centrais da filosofia continental. O principal ponto deste conceito é que os níveis não dizem respeito a uma característica da percepção humana, mas diz respeito a uma característica da natureza em si mesma. Aos homens resta explorá-los, sem a responsabilidade de os ter criado. Por este motivo, Harman afirma que dos três “fenomenólogos carnais” discutidos em seu livro, apenas Lingis possui algum grau de “instintos realistas”.

Part Two: SETTING THE TABLE
6. Objects (p. 71-88)
Resumo elaborado por Maria Ribeiro

Guerrila Metaphysics é uma continuação e um contraponto das e às ideias apresentadas em Tool-Being. O livro quer alcançar aquilo que pode ser dito sobre os objetos, para além das suas relações. Harman conclui que os objetos, eles mesmos, afetam uns aos outros, estabelecendo relações não apenas casuais, mas de natureza diversa, capaz de afetar— diretamente— aquilo com o qual estabelece vínculo. O gesto humano, nas suas dimensões práticas e teóricas, tende a reduzir as coisas a meras caricaturas; muito embora os objetos usufruam de certa realidade que está aquém da nossa tentativa de esgotá-los.

O dualismo fundamental não é aquele que põe versus o espírito e a natureza ou o fenômeno e o noumenon, mas o que julga irrealizável uma espécie de relação entre as coisas, entre coisas confrontadas com coisas, resguardada a “realidade íntima” que as subjaz. O autor julga que, diante do postulado, a metafísica passa adiante, deixando atrás de si as fenomenologias, os círculos hermenêuticos, as práticas meramente textuais e linguísticas e demais “filosofias de acesso”. Todas as relações apontáveis no cosmos, sejam perceptíveis ao olho humano, sejam de origem distinta, participam do mesmo plano filosófico. Tudo aquilo que se disser sobre o “objeto” é uma meia-verdade, pois o “objeto” tem, precisamente, um modo de vida público e outro(s) que nos escapa(m). Escapam-nos as realidades fantasmagóricas e o universo metido em vácuos, exclusivos e pertencentes a maneira de comunicação dos “objetos” com seus pares.

Martin Heidegger (MH) teria indicado um caminho hermético, bem como os fenomenólogos carnais teriam prescrito o acesso por meio de prazeres sensuais. Ambas as posições têm sua porção de falsidade e verdade. O termo “objeto” não reúne sob sua insígnia um conjunto de “espécies naturais” em detrimento de demais realidades. Qualquer objeto, em qualquer “nível” do mundo, tem uma realidade que pode ser, infinitamente, explorada e observada desde incontáveis perspectivas. Todos os objetos estão ligados, em todos os níveis, por qualidades classificadas como etéreas. Tais qualidades, entretanto, não podem ser coladas à coisa, a maneira de decisivos sobre. Uma coisa não é parte, simplesmente, de uma mônada da qual “participa”. Mas é parte, bem como é parte a mônada ela mesma.

A. The revival of substance

A filosofia orientada ao objeto insiste sobre uma impossibilidade: a de sondar a totalidade de relações estabelecidas entre as coisas e, mais ainda, supô-las esgotáveis. O que subjaz todos os eventos é um inescrutável, são substâncias encontrando-se numa espécie de vácuo indeterminado. Os vácuos podem se comunicar uns com os outros. Eis guerrilla metaphysics.

O tema da metafísica é o objeto e suas interações, independente do que sejam — ou venham a ser, precisamente, tais objetos. A autonomia dos objetos é o que caracteriza a metafísica. O presente livro supõe a diferença absoluta entre a percepção e os objetos. Um dos dispositivos de economia assumidos pela mente humana é aquele que, raras vezes, permite abordar um tema do lado de fora de premissas já estabelecidas. Se ouvirmos um relato sobre “serpentes do mar”, a maioria de nós irá considerá-lo uma supertição ou uma mentira. Aqui o que, convencionalmente, chamamos “paradigma”. Os iniciantes em qualquer campo do conhecimento estão alheios aos paradigmas, razão pela qual suas ideias parecem confusas. É a experiência aquilo que nos permite um método rápido, e mais dado à previsibilidade, de organização das ideias. Muitas vezes, é uma imagem mental que culmina com o progresso intelectual.

B. Vacuums Everywhere

Nenhuma relação determina o objeto.Um objeto pode derivar de um dado evento, muito embora o evento não possa precisar a natureza daquele objeto. Os objetos sempre reagem às forças dos seus vizinhos, permanecendo cego para todo o resto. Os objetos implicados em um evento estão sempre, de alguma forma, em algum lugar divorciado de todas as relações. O que a Guerrilla Metaphysics procura é a realidade vazia das coisas. O fato de que os seres humanos parecem ter maior poder cognitivo não resulta em uma diferença ontológica de saída.

C. The Wheel of Objects

A filosofia orientada para objetos não distingue qualidades primárias de secundárias, nem estabelece diferença entre realidades ditas privilegiadas e outras derivadas, de segunda mão. As substâncias estão por toda parte. Não temos um universo dividido em unidades de espécies naturais, mas um universo composto por objetos embrulhados por outros objetos. A razão pela qual chamamos tais objetos de “substâncias” não é por serem inquebrantáveis, mas por não poderem ser identificados a partir das suas relações com outras entidades. Cada objeto é tanto uma substância quanto um complexo de relações. E se cada objeto pode ser considerado um conjunto de relações entre suas partes ou qualidades, é verdade que qualquer relação deve contar como uma substância.

Quando dois objetos entram em relação genuína, geram outra realidade, criam algo que não existia antes, algo que é — verdadeiramente — um. Exemplo: quando o sol e a lua são unidos em um eclipse, há uma identidade que pertence a nenhuma das partes e é irredutível às formas de manifestação que conhecemos. Os objetos aqui descritos nunca estão todo o tempo presentes, de modo que, talvez, devessemos falar em uma “metafísica da ausência”.

D. The Quintessence

O mundo está repleto de objetos retirados de qualquer ideia de “relação” e que habitam vácuos privados próprios. Além disso, os objetos não se limitam a um nível de realidade. Não há uma parte do mundo feita de objetos e outra feita de relações. O mundo está atulhado de vazios, mutuamente, isolados.

7. The Problem of Objects (p. 89-100)
Resumo elaborado por Eduardo Pires de Camargo

Harman divide o capítulo em 4 problemas:

A. Vicarious Cause

O problema: se os objetos não podem estar em contato uns com os outros, como podem interagir?  A solução para isto seria uma causação vicária, através de um intermediário não especificado. E isto teria algo a ver com as “qualidades soltas” dos fenomenologistas carnais que atuam em níveis, ou “medium”, nome dado a Harman para o espaço através do qual dois objetos interagem.

B. Whole and Part

O problema: como um objeto unificado está relacionado com suas próprias partes. Para Harman, esta questão seria uma variante do problema mais geral da causa vicária. Harman adota o exemplo do moinho de vento que, segundo ele, deve estar conectado tanto com a pluralidade de suas qualidades, quanto com a fisicalidade de suas partes, relacionando-se com outros objetos ou consigo mesmo de modo vicário. E isto leva ao terceiro problema.

C. Worlds Inside of Vacuums

O problema: se os objetos se retraem, dificilmente podemos saber onde está localizado o mundo dos eventos e ocorrências (medium). Se cada objeto é um vácuo, todo vácuo deve conter um mundo, um médium onde distintas qualidades interagem ou, pelo menos, flutuam lado a lado num tipo de éter energizado. Os três problemas acima se unificam num único conceito: estão conectados no medium das qualidades etéreas. O próximo problema tem característica diferente ou mesmo oposta.

D. Firewalls

O problema: que tipo de firewalls teria uma substância que a previne de ser penetrada por qualquer antiga relação com qualquer antiga entidade? Harman questiona a diferença entre substância e agregado, considera, por exemplo, um cavalo como substância, mas um estábulo contendo vários cavalos como um agregado. Também levanta a questão de uma cadeia arbitrária de entidades, sem qualquer substancialidade em comum, ser considerada como uma única entidade quando agregadas por “decreto” humano. Dá, como exemplo as entidades lata de óleo, marreco e Mar Morto que nada têm em comum, mas quando agregadas na anedota “um marreco a nadar no Mar morto pescou uma lata de óleo”. Mas isso teria um problema: estaríamos definindo a substância pelo efeito externo que causam no mundo exterior a si. Ele, então, reúne essas questões sob o termo firewalls, ou seja, o que preveniria estranhas e arbitrárias reuniões de coisas tornarem-se uma substância.

8. Metaphor (p. 101-124)
Resumo elaborado por Clayton Policarpo

Neste capítulo, o autor trata da metáfora e do humor, tomando que estes são métodos capazes de descrever o modo pelo qual os objetos “se quebram e se fundem”. Ambas modalidades tem a capacidade de provocar reações opinativas em um grau maior do que qualquer outro tema filosófico, pois segundo Harman, falam ao núcleo privado de cada um de nós. Embora ambos sejam úteis no contexto do livro não são centrais na investigação, deste modo não é apresentado um levantamento completo de tudo que foi escrito sobre os dois temas.

Para a discussão sobre metáfora, Harman limita-se a um ensaio pouco conhecido do filósofo espanhol Jose Ortega y Gasset, o qual ele aponta relações com Max Black e os contra-argumentos de Donald Davidson. Além de apresentar várias críticas ao livro “Mitologia Branca” de Jacques Derrida.

A. Execution versus Presentation

Ortega apresenta dois modos do ser aos quais ele chama de “execução” e “imagem”. Para o autor, há um abismo, uma espécie de diferença ontológica no modo como minha vida é executada em si e a vida do outro vista de fora. Por mais minuciosa que seja uma descrição de algo, ainda existe uma diferença que não pode ser ignorada entre a imagem que é criada e sua execução (p.103).

Ao abrir espaço para a teoria da metáfora, Ortega se coloca além dos limites da filosofia pós-kantiana. A execução e imagem não seriam privilégios do homem, em verdade contempla todas as coisas, objetos e situações. O pronome “Eu” para Ortega, não é exclusivo dos seres vivos, objetos também possuem propriedades executantes que os dota de personalidade, sendo estas inacessíveis ao homem.

Ortega afirma que a interioridade das coisas é uma profundidade que nunca pode ser absolutamente compreendida, na medida que não é intercambiável com qualquer soma de seus atributos. Para o autor, a linguagem apenas alude a interioridade, nunca a mostra. “Uma narrativa torna tudo fantasma de si mesmo, colocando-a a distância, empurrando para além do horizonte do aqui e agora” (p. 105).

Ortega limita sua discussão sobre arte na teoria da metáfora. A metáfora escolhida em seu ensaio vem do poeta Lopez Pico de Valencia, “o cipreste é como o fantasma de uma chama morta”. Em uma versão simplificada: “o cipreste é uma chama” (ibid.). A tentativa de união não seria através da assimilação mútua de qualidades reais, na verdade a metáfora se mostra eficaz apenas quando utiliza de qualidades não essenciais.

B. The Plasma of Things

“Em uma metáfora, os objetos se colidem entre si e suas carapaças duras racham enquanto sua matéria interna em estado fluido, adquire a suavidade de um plasma, pronto para receber uma nova forma e estrutura” (p.107).

A afirmação do autor para a metáfora é que ela apenas apresenta a execução interna da coisa de forma simulada. Poetas não podem cruzar arvores e chamas. Para explicar a ação dos poetas, Ortega apresenta um conceito de “sentimento”, para além de qualquer noção psicológica, como estados mentais internos ou excitações fisiológicas, ele insiste em uma ligação entre sentimentos e objetos. “Cada imagem objetiva” diz ele “ ao entrar ou sair de nossa consciência, produz uma reação apenas subjetiva”.

Relacionamo-nos, então, com a coisa-como-imagem e não com a coisa-como-execução. Na medida em que tomo contato com o cipreste, ele entra na esfera de experiências e deixa de ser mera imagem sensorial para também ser uma realidade executante dentro de minha vida, uma experiência real a qual eu me submeto. O cipreste não é tão somente uma imagem com características diversas, mas também uma unidade oculta para mim.

Meu sentimento executante do cipreste e meu sentimento executante da chama tenta fundir um com o outro, mas sem um resultado final. Este novo ser pode ser construído a partir de sentimentos, e dado o conceito de Ortega, é algo novo que surge no mundo e não um estado mental específico. Criar tais objetos implica em des-criar as imagens externas que os identificam, remodelar o plasma de suas qualidades em uma estrutura híbrida.

C. Reality without Presence

Harman inicia este tópico com diversas críticas ao trabalho de Derrida, segundo ele, alguns dos equívocos do filósofo são herdados de Heidegger, porém se mostram em um grau maior no trabalho do sucessor.

A obra tomada para análise é “Mitologia Branca”, descrita como “um núcleo contundente de dez páginas cercado por um adicional de cinquenta páginas de colagem intelectual rebuscada” (p.111). No livro, Derrida assumiria uma posição contrária a qualquer significado “literal”. Para abordar o tema, ele faz observações a conceitos linguísticos apresentados por Aristóteles. Para este, em um primeiro sentido, há o significado literal ou comum das palavras denominado kurion, e em outro sentido temos idion, que pode incluir palavras raras ou metáforas.

A discordância de Derrida sobre Aristóteles é em relação a sua aparente predileção para um discurso unívoco, para o sentido literal como verdadeiro sentido da coisa. Mas, de acordo com Harman, em uma leitura acurada de tais passagens em Aristóteles é fácil perceber que  elas tem um significado diferente do que Derrida lhes atribui.  O que Aristóteles realmente diz é que “não faz diferença se alguém diz [uma palavra] significa mais de uma coisa, [enquanto ela é] apenas um número limitado…” Seria um equívoco afirmarmos que tudo tem um número infinito de atributos pois deste modo estaríamos dizendo que todas as coisas são sinônimos. Posição diferente da adotada pelo  filósofo grego.

D. The Wolf-System

Uma vez que o ensaio de Ortega não é amplamente citado na literatura sobre metáfora, Harman estabelece neste tópico ligações do trabalho com o artigo “Metáfora” de Max Black e o confronta aos contrapontos vindos de Donald Davison.

Black se opõe ao entendimento comum de metáfora que a vê como um substituto para significados literais, fenômeno o qual ele chama de “teoria da substituição”. Tanto Ortega quanto Black, concedem a existência de significados literais, no entanto ambos veem a metáfora como uma ferramenta que possibilita um contato mais íntimo com o objeto.

Black também cita a “teoria da comparação” como uma variante da teoria da substituição. Por exemplo: “Richard é um leão”, a teoria da substituição diria: “Richard é corajoso”, enquanto para a teoria da comparação “Richard é como um leão na medida que ambos são corajosos”. Em ambas parece não haver perda substancial na substituição, para Black as teorias se mostram mais preocupadas com as propriedades das coisas, ao invés das coisas como um todo. Aqui, Black e Ortega compartilham a visão que a metáfora é concedida como unidade de ideias ou coisas e não com conjuntos específicos de qualidades. Em suma em uma metáfora é desejável que se reúna unidades de coisas, objetos, ideias e não qualidades particulares destes.

Ao dizermos “o homem é um lobo”, temos duas unidades simples das quais ninguém pode dar uma descrição completa, tratamos então do que Black chama de “sistema de lugares comuns associados” ou “conjunto de platitudes atuais”. Não há um lobo-qualidade, mas sim um “sistema-lobo de lugares comuns relacionados”. Assim como o cipreste-chama, o lobo-homem fundem-se como sistemas inteiros ao invés de entrar em um acordo de quais qualidades compartilham.

Um ponto observado por Harman, e que adquire importância dado o contexto, é que para Davidson, a chave da metáfora é o observador, afirmação que remete a uma retomada da visão heideggeriana. Embora concorde que o conteúdo da metáfora é infinito, ele afirma que a imensidão se dá por meio do próprio ser-humano o que é contrário as teorias levantadas por Black e Ortega.

9. Humor (p. 125-144)
Resumo elaborado por Adelino Gala

A.Reduced to mechanisms

Harman inicia o tópico falando sobre as teorias que procuram definir o ser humano como algo único. Por exemplo, as faculdades metafóricas discutidas desde Aristóteles. Discorda das mesmas ao lembrar-se das reflexões e abordagens das metáforas como extensões do homem e sua aplicabilidade aos animais e demais objetos. Avança conectando o tema dos sonhos, sem se aprofundar em Freud e chega ao ponto das discussões sobre tragédia e humor. Afirma que muitos estudos foram produzidos sobre o primeiro, mas quase nada sobre o segundo. Afirma que o humor é universal no humano e depende de sua cultura. Rebate a ideia de que fatos contextuais e do humor podem ser expressos como metáfora, mas que isso não implica que os mesmos sejam metáforas em si.

As mesmas metáforas e humor, como qualidades, podem funcionar para determinadas experiências culturais e falhar em outras. Nesse ponto, segue sua discussão baseada na teoria do humor de Bergson, por ser a de caráter mais generalizadora: “a comédia ocorre quando testemunhamos o que é o humano reduzido a mecanismos.” Todo objeto tem uma sinceridade ingênua da qual é incapaz de se libertar.

B.Sincerity, comedy, and charm

Harman discorda da ideia de que o humor esteja ligado ao absurdo patente de uma situação e discorda de que esteja ligado aos contrastes intelectuais. Discorda de Alexander Bain no que tange a degradação da dignidade. São todos mecanismos particulares de humor. A teoria de Bergson, diferentemente, é universal, pois deveria ser vista como uma arte que nos mostra uma realidade limpa dos símbolos como utilidade, limpa ainda das convenções sociais e de tudo que vela a realidade de nós. Avança afirmando que a percepção nunca será equivalente ao percebido, habitando um espaço próprio.

Nesse sentido, vivemos em uma zona intermediária entre as coisas e nós mesmos. Mas não a região entre a práxis e a teoria que reduz tudo a superfícies de si. Mas no local onde a sinceridade ingênua persiste independente de nossa consciência. O humor existe, portanto, em mecanismos rígidos que gostariam de ser flexíveis, adaptáveis e mutáveis. Existem nas atividades duais entre tensão e elasticidade.

Para Harman, assim como a metáfora é muito rasa para explicar a realidade quando compara ao humor, a tragédia é muito rasa para explicar a realidade quando comparada ao encanto. A ideia de tragédia está ligada ao quão preso estamos ao nosso destino, aos nossos hábitos e a nossa parte rígida, em oposição a ideia de liberdade. Porém a liberdade não é um objeto que podemos, ou almejamos conquistar, assim como ninguém quer ser reconhecido como um sujeito cartesiano, ou como um sujeito livre.

C. Allure

O que queremos ser e conquistar são os objetos que encantam como os super-heróis. Os objetos que encantam são os objetos da arte, flexíveis, mutáveis e adaptáveis. São aqueles que pretendemos simular. A nossa relação com o encanto carrega as qualidades tangíveis e objetivas que a relação entre tragédia e liberdade não carregam.

Para Harman, o encanto, em lugar da tragédia e o humor, em lugar da metáfora, são os dois lugares onde a sinceridade de um agente pode ser depositada. No primeiro caso isso se dá pelo fascínio e no segundo pelo desdém. Em busca de um termo mais geral que cubra os dois, Harman propõe o termo fascinação (allure).

Portanto a relação geral entre as coisas em si e suas qualidades pode ser entendida como a relação da sinceridade ingênua que persiste e a fascinação. Tal relação ocorre em um modo onde o ser é separado de suas qualidades. Nesse sentido, os objetos sensíveis são separados objetivamente das qualidades sensíveis. Habitam espaços diferentes no mundo. As experiências não podem ser desveladas ou convertidas em qualidade, sua realidade é muito mais ampla, profunda e oculta. Assim como as qualidades não podem versar ou reduzir as experiências de modo direto.

Terceira Parte — QUADRUPLE PHILOSOPHY
Resumo elaborado por Alessandro Mancio de Camargo (p.  145 – 168)

10. The root of vicarious causation (p. 147 – 150)

O autor defende que deve haver um único tipo de realidade, uma forma de ser auto-suficiente, que pertence tanto aos fenômenos encontrados pelos sentidos quanto pelos seres ferramentais que recuaram de nós. Para esta forma de realidade, discutida na parte 1 do livro, temos todo o direito de usar o termo imediatismo, uma vez que refere-se ao lado das coisas que não é influenciada de forma alguma por suas relações com outras coisas, mas repousa em si mesmo.

A técnica inteira dos fenomenólogos carnais é pesquisar os contornos deste imediatismo, pelo menos na medida em que é acessível aos sentidos. Na parte 2 do livro, considerou-se a situação de fascinação de um objeto sensual, da qual se desprende suas próprias qualidades, as quais nos atingem com um poder ativo infundido ao longo de suas várias propriedades, superando-as. O ponto relevante aqui é que a fascinação mostra uma relação entre os pólos do ser que é suposta ser independente, mas que na verdade estão envolvidos em constante interação. “E uma vez que este livro já descreveu a impossibilidade aparente de interações diretas entre realidades separadas, há uma necessidade de introduzir alguma forma de causalidade indireta” (p.148). Dessa forma, são destacadas três formas básicas de relação indireta:

  • Em primeiro lugar, existem as relações que existem entre os objetos distintos do mundo. Estes são os vínculos causais entre as coisas. O grande insight do ocasaionalismo é: impossibilidade de uma substância nunca tocar outra se a substância é definida como um objeto além de todas as relaçõ
  • Em segundo lugar, há o duelo incessante entre um objeto em si, como uma coisa única, e o mesmo objeto como composto de inúmeros recursos especí “Nesse quesito está em jogo a ligação física que há dentro de qualquer objeto: a coesão entre um rato e sua velocidade e malandragem, ou entre um oceano e sua turbulência, salinidade, e as trevas” (p.149).
  • Terceiro e último, existe uma outra partição em objetos quando eles são considerados realidades subterrâneas não como independentes, mas como existente em relação a nós, e talvez até mesmo a outros objetos em geral. Este racha dentro aparência é a terra natal dos fenomenólogos carnais, com a sua visão compartilhada para a discórdia entre os objetos intencionais escondidos e suas fachadas coloridas. O que está em jogo aqui é o vínculo sensual em objetos de percepção.

Uma atenta reflexão sobre esses três tipos de relação — a causalidade, a física, a sensual — já foi tocada mas nunca mapeada, segundo Harman. O objeto em si é apenas duplo, dividido entre a sua unidade formal e sua abundância de traços (o vínculo físico). Mas quando entra em relação com outra coisa (o vínculo causal), ou pelo menos com entidades sencientes, esta duplicidade em si dobra: o objeto parece tornar-se quádruplo (via o vínculo sensual).

No entanto, os quatro pólos do objeto percebidos sofrem de uma incapacidade hereditária para tocar um ao outro, uma vez que cada qual retém seu ser completo dos outros. “Estamos mais uma vez confrontados com os dois problemas filosóficos centrais já levantadas na parte dois: (1) Qual é o meio através do qual os diferentes objetos ou pólos de objetos interagem, e como essa interação ocorre? (2) Qual é a realidade de cada um desses objetos ou pólos de objetos em seu próprio direito?” (p. 150).

A. Severed qualities (p. 150)

O que temos, segundo Harman, em toda forma de fascinação, discutida no cap. anterior, é a contenda entre um objeto e suas próprias qualidades, que parecem ser cortadas a partir desse objeto. E que não se sabe muito sobre o significado de “qualidade”. No início, a diferença geral entre fascinação e sua ausência parece fácil de descrever: fascinação aparentemente traz objetos diretamente em jogo, chamando-os como agentes. É verdade que a retirada do objeto intencional está presente ao longo de toda percepção.

No entanto, na percepção normal, esses objetos estão ligados tão diretamente com suas superfícies carnais que sentem nenhuma distinção entre os dois reinos. A condição sine qua non é que toda forma de fascinação faz uma separação clara entre um agente e suas qualidades, entre quem conta uma piada e a piada em si. Essa invocação de objetos é o mesmo estratagema típico dos sedutores e manipuladores. Um manipulador acadêmico, por exemplo, escuta nossos planos, fingindo homologá-los; mas acrescenta ameaçadoramente que ele “não tem certeza se o reitor vai gostar disso”, antes de sair da sala para evitar o escrutínio de sua ameaça vazia” (p.152). Em tempos mais recentes, essa é também a melhor maneira de interpretar os paradigmas de Thomas Kuhn em relação à história da ciência. Um paradigma não é um princípio arbitrário construída por uma comunidade social em um momento e local contingente e imposta pelo poder da multidão, mas sim o estado de um objeto científico unificado além de todos os argumentos. Em todo caso, sempre segundo Harman, devemos ter em mente esse rompimento entre os objetos e suas qualidades, seja em casos explícitos de fascínio, em casos normais de percepção, ou mesmo na mera existência de objetos separados de suas propriedades.

B. A downward spiral of objects (p. 153)

Se a fascinação é a separação de um objeto a partir de suas qualidades, então devemos perguntar o que essas qualidades são. E acima de tudo, é preciso lembrar que as qualidades vêm em dois tipos diferentes: qualidades públicas e as notas privadas. Vamos nos concentrar na primeira. (Neste livro, relembra o autor, ele diz abraçar um modelo de mundo em que os objetos são sempre ausentes, escondidos da visão humana, mas também de uns com os outros). O que quer que este material sensual misterioso possa ser,

“é a cola do mundo — o meio de condução que se estende entre os objetos e faz com que as interações se tornem possíveis. Além disso, uma versão deste cimento ontológica deve estender-se entre todos os pólos de outra forma separados da realidade, ou eles pertencem a diferentes universos. Em outras palavras, o mesmo éter sensual que se espalha entre as coisas e suas qualidades visíveis torna possível tanto as relações físicas quanto causais. Vai ser a fonte de toda a causação indireta” (p. 153-154).

Depois de grande digressão, na qual o autor recorre a uma espécie de parábola na qual Husserl se debate com “centauros”, Levinas, Leibniz etc. (p. 154-160), Harman anuncia que o problema agora é: como a percepção [das qualidades] pode estar em qualquer lugar, uma vez que já se tornaram qualidades objetos, o que significaria se elas fossem retiradas de toda forma de contato?

C. Elements (p. 160)

Segundo o autor, experiência sensual é relacionada aos objetos, embora os objetos nunca tornem-se presente nela, à medida em que os próprios objetos nos iludem. Há uma regressão infinita de objetos embrulhados em objetos. Na medida em que esses objetos são incontáveis, eles tornam-se elementos que compõem o campo sensual e talvez até mesmo o mundo inanimado também. No entanto, na medida em que os elementos são objetos, eles não podem tocar seus vizinhos diretamente, já que nenhum deles pode esgotar totalmente a realidade dos outros. “Assim, a interação entre esses elementos na esfera sensual tem o caráter de causalidade indireta, e o mundo sensual está repleto de elementos pressionados uns contra os outros, como vácuos ou bolhas de realidade de alguma forma envolvidos na influência mútua sem contato direto” (p. 161).

Para Harman, parece haver uma estrutura quádrupla do mundo: um objeto, um elemento em si, está em conflito com suas próprias notas, e mesmo o objeto no plano sensual está em conflito com as suas qualidades, aparentemente, nos dando o mesmo dualismo tanto no porão e no piso térreo do mundo. Tocante a isso, “temos visto que o vínculo sensual entre os objetos/elementos e suas qualidades vem em duas versões: o caso normal da experiência perceptiva, e no caso especial de fascínio em todas as suas formas” (p. 161). Que é essencial sobre os elementos que compõem um objeto é a sua capacidade de servir como interface entre dois objetos, e não o fato de que os seres humanos tem consciência deles. “Esses elementos são a cola do mundo, a causa indireta que mantém o conjunto da realidade, o segredo comercial da carpintaria das coisas” (p. 166). Deriva daí a estrutura da filosofia quádrupla proposta pelo autor.

Em geral, pode dizer-se que o drama do mundo vem da tensão entre a ligação causal, por um lado, e a ligação sensual do outro (o papel da ligação física irá emergir mais tarde). O primeiro envolve a relação de um objeto com suas partes, ou um objeto e outros objetos, enquanto o segundo diz respeito a um duelo entre um objeto e suas notas ou elementos. O destino da filosofia orientada a objeto encontra-se principalmente no último domínio, uma vez que é aqui que toda a possibilidade de relações, contatos ou eventos é enrolada como uma mola de cobre perigoso. Ligações diretas de qualquer tipo parecem um modo de ser banido do mundo, deixando apenas contatos indiretos em nosso meio. Mas esses elementos parecem oferecer alguma forma desconhecida para contornar a impossibilidade de relações, uma vez que as relações e eventos, obviamente, ocorrem. Em certo sentido, nós ainda temos uma filosofia quádrupla em que a relação de um objeto com seus próprios elementos se repete no nível sensual quando o objeto entra em contato com outra coisa, como quando o duelo entre uma palmeira e suas características é repetido como o combate intencional entre objeto “palmeira” e suas características sensualmente acessíveis. Mas em alguns casos pode até ser mais fácil pensar em filosofia orientada aos objetos em termos do número três em vez de quatro. Por que nós sempre temos no mundo dois objetos em relação, por meio da interface composta de elementos, que servem como um terceiro termo indireto na relação. Seja qual for a numerologia, o que nos interessa é a relação vicária/indireta de uma coisa com aquilo que está fora dela. E a raiz de tal causalidade indireta coexistência dos elementos no mundo (p. 167).

11.Vicarious Causation (p. 169-234)
Resumo elaborado por Lucia Santaella

Os elementos são agora os heróis de Gerrilla Metaphysics. É da natureza dos objetos ocultar seus segredos uns dos outros. Os objetos encontram uns aos outros como formas unificadas.

O mundo descrito pela filosofia não é mais a mera irrupção de qualidades infundadas para a visão humana, nem uma colisão cansativa de pontos de matéria sólida, mas sim, a alquimia bêbada em que delfins, morangos e prótons se transformam ininterruptamente em ouro.

Temos que determinar o que os elementos são, pois seus trabalhos são a espinha dorsal para o tema da causação vicária. Elementos são as notas dos objetos sensórios (sensual).

A. The object and its parts (p. 173)

Devemos identificar o médium por meio do qual os objetos interagem. Para isso, alguns fatos foram determinados. 1. A relação entre os objetos deve sempre ser indireta ou vicária. 2. A relação entre os objetos não é diferente da relação do objeto com suas partes.

A fascinação (allure) realiza três coisas. 1. Ela empurra o objeto sensual para uma distância, como um objeto real e não um objeto intencional. 2. Embora a fascinação converta as notas de uma coisa em objetos sensórios (sensual) por seu próprio direito, a percepção meramente parece capitalizar suas várias partes. 3. O traço chave da fascinação está inteiramente em falta na percepção normal (p. 181).

Quando perguntamos se a percepção compartilha os três traços da fascinação, estamos perguntando sobre três tipos de ruídos que rodeiam um objeto a todo o momento. 1. O ruído mais sutil: aquele do objeto com suas qualidades. 2. Há as manifestações mutáveis de uma coisa, mesmo quando suas notas permanecem as mesmas. 3. Há um caos ambiental que rodeia o objeto sem afetá-lo (p. 183).

A filosofia orientada a objeto assemelha-se às formas clássicas da metafísica: como uma coisa se relaciona com suas próprias qualidades internas; com os traços inessenciais de sua superfície; e com outras coisas separadas no ambiente.

O ruído é definido como o material periférico dos objetos. O ruído negro indica que esse ruído está sempre orientado aos objetos, não formado de qualidades universais soltas. Devemos falar antes das notas do objeto sensorial (sensual) nele mesmo. Podemos falar de objetos ambientais que existem ao longo do cardinal, mesmo não formando uma parte dele. O cardinal também é adornado com traços acidentais que pertencem a ele sem se qualificar como membro entre as fileiras de suas notas inessenciais (p. 185).

Até agora vimos duas formas de causação vicária em ação. 1. Há as camadas de todos os objetos da percepção, nenhuma delas inteiramente exaurida pelos objetos subsequentes nos quais estão interligadas. 2. Há o caso da fascinação em que o objeto tanto está em contato direto com suas notas quanto não está em contato direto com elas.

Dois tipos de relações podem ser distinguidos. 2.1. o primeiro meramente cria uma nova relação no mundo e ipso facto um novo objeto. 2.2. o segundo destrói um ou mais de seus componentes ao quebrar suas notas e por fim à existência do objeto ao qual eles pertencem (p. 187).

Um objeto nunca afeta o outro diretamente, pois o fogo e o algodão não exaurem a realidade um do outro. Uma coisa encontra outra pela intermediação de certo número de suas notas, não ao tocar a coisa como um todo (p. 188).

A causação é puramente binária como o sim ou não da fascinação. Chamar de binária é chamar de instantânea.

Percepção e causação estão sempre interligadas. Duas variações resultam disso: 1. Se dois objetos podem interagir, eles devem estar suspensos no mesmo éter, ligados à causa vicária de um objeto maior que eles usam como uma base ou álibi para sua relação. Sem um médium prévio compartilhado a causação não seria possível. 2. Todos os objetos só se relacionam no interior de outro objeto; toda percepção ocorre no interior de um objeto. Causação e percepção são equivalentes aos objetos e o interior dos objetos (p. 189).

Perceber não é representar, mas viver dentro do plasma de um objeto.

B. The object and its notes (p. 190)

A noção central deste livro é que a filosofia deve conduzir sua atenção na direção dos objetos. Nosso tema não é o acesso humano aos objetos, mas os objetos neles mesmos (p. 190). Se os objetos são diferentes uns dos outros, então, eles devem ter notas ou qualidades interiores.

As preocupações deste livro: 1. O estatuto dos elementos. 2. Os níveis do mundo ou causação vicária em geral. 3. A forma altamente especial de conexão e desconexão entre realidades conhecidas como fascinação, e que espécies mais amplas de gradações ela torna possível (p. 192).

Objetos não são nada se não seus interiores (p. 194). Objetos reais não podem ser conduzidos à presença nem mesmo parcialmente, enquanto os objetos sensuais estão sempre completamente presentes de saída. Enquanto a totalidade real é impossível, a totalidade sensual é automática (p. 200).

Causação vicária é uma contradição de termos. Uma vez que a causação tenha ocorrido, os atores envolvidos nela não estão mais separados, mas formam um novo objeto com seu próprio interior. Se a causação vicária começa como uma questão de contiguidade (metonímia) e acidentes, ela termina sua carreira como uma questão de metáfora e objetos, com o nascimento nada mais do que um novo objeto unificado (p. 206).

Para avançar, temos que entrar na questão dos acidentes (p. 209).

Os objetos sensuais no interior de um espaço sensual podem estar adjacentes uns aos outros sem entrarem em relação (p. 215).

Para que a fascinação seja possível, em vez de um objeto simplesmente se misturar com o outro como na metonímia, ele deve se fundir com ele ao mesmo tempo em que resiste a ele, como na metáfora. Há duas formas de fascinação humana: aquela que separa um objeto já existente, que chamamos de fissura. Mas há a metáfora, quando algo que não preexistia vem à existência pela primeira vez no momento mesmo em que se separa de suas notas. Esta é chamada de fusão (p. 216).

Se a fusão está dificultada pelo ruído negro da metonímia, a fissura é obstruída pelo ruído negro dos acidentes. O que impede toda possível causação e metáfora de levarem o seu curso em um único flash universal é o fato que o mundo sensual está esculpido em diferentes objetos que carregam pelo menos algum grau de autonomia (p. 217).

A causação é vicária, tamponada e assimétrica, três nomes do único tipo que há. Cada um deles nos diz algo diferente sobre o impacto que uma entidade tem sobre outra. Na vicária, todo objeto é uma realidade que recua a qualquer tentativa de ser percebido, tocado ou usado. A tamponada é aquela em que os objetos sensuais estão completamente presentes de saída em qualquer relação. Se os objetos reais recuam infinitamente de todo acesso, os objetos sensuais estão disponíveis para contato em princípio. A assimétrica unifica os aspectos vicários e tamponados da causação. Na vicária, objetos reais não podem afetar outro objeto, a tamponada significa que os objetos sensuais estão bloqueados para afetar outros objetos sensuais. Já a assimétrica aponta para uma única opção remanescente: um objeto sensual nu pode ainda afetar um elemento por vezes, e desse modo um objeto real pode vicariamente afetá-lo. Os objetos não se abrem ao outro diretamente, nas apenas aos elementos concretos (p. 223).

Causação significa que os objetos interagem uns com outros. Ela é sempre vicária porque os objetos envolvidos devem recuar da interação parte de sua realidade. Ela é assimétrica porque é sempre um objeto que afeta o outro, causação mútua não é nunca perfeitamente reflexiva, mas requer dois processos que se desenrolam por diferentes caminhos, ou seja, a causação sempre ocorre entre um objeto sensual e um objeto real. É o objeto sensual que é ativo e se quebra na fascinação para apontar para uma realidade mais profunda, enquanto o objeto real é passivo na relação e permanece estável na sua forma sensual ou elementar (p. 224).

C. Four questions in one (p. 230).

Guerrilla metaphysics ou filosofia orientada ao objeto encontra seu tópico na dinâmica do interior dos objetos. Clarificamos dois problemas: a realidade do objeto em si, e a possibilidade de relações entre objetos separados, o que só se esclarece quando refletimos sobre o laboratório alquímico que é o interior de uma coisa, um carnaval o caleidoscópio de elementos e que possibilita as relações entre coisas separadas (p. 232).

O único modo de nos livrarmos da separação entre realidade e aparência é multiplicar suas interrrelações infinitamente (p. 233).

12. Some implications (p. 235-256)
Resumo elaborado por Lucia Santaella

Definimos as ligações entre objetos e suas notas e objetos e suas partes. Mas isso ainda não é suficiente. Resta iluminar aquelas questões finais que o público associa com filosofia: natureza do espaço e tempo, a gradação exata da inteligência senciente, a morte.

A. Not critique (p. 237)

Não se deligar do vínculo animal e duvidar das versões hermenêuticas da crítica.

A distinção entre crítica e fascinação sugere um tipo bem diferente de estilo filosófico (p. 239).

Se a diferença entre humanos, animais e rochas não é uma distinção ontológica absoluta, temos que descobrir que espécie de distinção é essa (p. 241).

B. Gradations (p. 241)

Graham mostrou que a ontologia repousa sobre um nível mais primitivo do que quaisquer das muito conhecidas propriedades especiais dos seres humanos. A as-structure é encontrada até na matéria inanimada; os eixos duais do universo estão em todos os lugares, o que não significa abraçar o pampsiquismo, uma teoria fora de moda (p. 242).

Todos os cantos do mundo contêm dois eixos de divisão; o mundo é uma espécie de quadratura cujos habitantes são objetos entre os quais há gradações. Nenhuma delas implica distinções ontológicas básicas, mas são distinções ônticas. Há diferenças de fascinação que respondem pelas vidas diferentes de animais, plantas, rochas etc. (p. 244).

A fascinação separa os objetos de suas notas sensuais, mas não pode separar um objeto de suas notas reais o que incorreria na destruição do objeto. Ao separar os objetos sensuais a fascinação gera dois subprodutos: o distante objeto real sinalizando do além para um único ponto de unidade, mas que agora estão fragmentados e voltados para o objeto real profundo a que eles parecem pertencer. A fascinação também deve ocorrer no mundo inanimado, caso contrário, a causação seria impossível. Toda consciência é fascinação, mas nem toda fascinação é consciência (p. 245).

C. Time and space (p. 248)

Os objetos nos cercam na medida em que avançamos e recuamos em seu meio. Mas há algo que brilha em suas fachadas que não os altera no seu núcleo (p. 249).

Não é só o tempo que pertence ao interior do um objeto. O espaço é sempre o espaço de um interior específico (p. 250). O tempo se desenrola no interior dos objetos, enquanto o espaço forma o interior dos objetos (p. 251).

D. The carnival of things (p. 253)

O carnaval das coisas significa substituir o conceito pitagórico da filosofia como uma liberação unicamente transcendente que se levanta acima do mundo. De fato, a filosofia também é absorvida pelo mundo (p. 253).

Este livro ofereceu lampejos do carnaval das coisas, ou melhor, da carpintaria das coisas (p. 254).

Guerrilla metaphysics sinaliza que as tradicionais catedrais da filosofia estão em ruínas (p. 256).

 

[1] Lingis, Alphonso. The Imperative. Bloomington, IN: Indiana University Press, 1998.

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