Sobre After finitude: reflexões sobre as ideias de Quentin Meillassoux

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Sobre After finitude: reflexões sobre as ideias de Quentin Meillassoux
Por Tarcísio Cardoso

O livro After Finitude (2009 [2006]), de Quentin Meillasoux, apresenta o empreendimento especulativo do autor, que se caracteriza fundamentalmente a uma oposição ao “correlacionismo”, nome dado pelo próprio autor para uma abordagem filosófica caracterizada por sua insuficiência em lidar com problemas atuais com que a filosofia cada vez mais se depara. As ideias do correlacionismo têm sua gênese em Kant e no giro copernicano proposto por sua crítica, mas se fortifica sobretudo com filósofos que desenvolveram suas ideias. Envolto em um fundamento fenomenológico, pautado pela inseparabilidade entre mente e mundo (a exemplo de Husserl, Merleau-Ponty e Heiddegger), o correlacionismo, mesmo quando trata de se afastar do idealismo, não consegue fugir à finitude essencial que se encerra na discussão sobre a correlação (pensamento-ser), e sua inegável oposição à ideia de absoluto.

De maneira bastante ousada, Meillassoux busca uma via diferente para as questões de Kant e mesmo as de Hume sobre a relação entre necessidade e entendimento. Se, para Hume, nossa crença na necessidade baseia-se unicamente no hábito e nas experiências e não na razão, e se para Kant as leis são necessárias por causa da faticidade da representação, para Meillassoux, é a nossa própria crença na “necessidade” que deve ser revista. Isto porque pode não haver necessidade alguma, ou pode ser que a única necessidade seja a contingência (MEILLASSOUX, 2009 p. 76).

A divisão do livro em cinco capítulos visa apresentar a relevância de um deslocamento proposto pelo autor para questões ao mesmo tempo epistemológicas e metafísicas, com fortes consequências para a filosofia contemporânea. No primeiro capítulo, o autor aponta uma timidez do correlacionismo para problemas que tangenciam o conhecimento científico, evidenciada na medida em que é recolocado o problema da “ancestralidade”. Já o segundo capítulo mergulha no cerne da metafísica ao explorar conceitos como o real, o ser e a correlação, apresentando o conflito entre contingência e faticidade, e situando grandes nomes da filosofia contemporânea no debate sobre o ser, para esclarecer como esse debate tem sido problemático do ponto de vista das conclusões acerca de um absoluto, cada vez mais retirado do escopo da filosofia. No terceiro capítulo, Meillassoux apresenta a sua ideia mais inovadora: a conciliação entre “contingência” e “factialidade” na especulação, seu método para alcançar o absoluto, essencialmente caótico, mas que perfaz o real contingencialmente. O quarto capítulo traz a questão de Hume (qual a origem da crença na necessidade?) para o debate, adicionando uma visão matemática sobre o conceito de transfinito de modo a revelar uma diferença essencial entre contingência e acaso, no intuito de sustentar a ausência fundamental de contabilização do possível. E, finalmente, o capítulo cinco confronta suas ideias com as consequências do correlacionismo, esclarecendo a incapacidade deste último de lidar com o problema da ancestralidade, entendido agora como o problema da diacronia, ressaltando ainda a fraqueza da metafísica, do ceticismo e do transcendentalismo em questionar o necessário. Para simplificar a discussão, as ideias principais do livro serão retomadas aqui, não na ordem que lá aparecem, mas em formas de tópicos com os temas centrais da sua argumentação.

Correlacionismo
O termo correlacionismo, como mencionado anteriormente, diz respeito a uma tendência ao kantismo, bastante criticada pelo autor, segundo a qual pensar e ser são essencialmente correlacionados. Portanto, é impossível considerar subjetividade e objetividade como independentes uma da outra.

Por “correlacionismo” entendemos a ideia segundo a qual só temos acesso à correlação entre pensamento e ser e nunca a um ou outro termo considerado separadamente do outro. (MEILLASSOUX, 2009 p. 5)

  • Correlacionismo fraco (posição do próprio Kant):
    Posição que se opõe ao cartesianismo afirmando que a “coisa em si” é incognoscível, apesar de ser pensável (MEILLASSOUX, 2009 pp. 30-31). A conclusão óbvia é: portanto, ela deve existir.
    Para Kant, o argumento ontológico de Descartes confunde definição com fato, e afirma que “Se Deus é perfeito e existir é perfeição, então Deus deve existir”. Mas isso é um argumento circular, pois se uma coisa é criada por um conceito, isso não quer dizer que essa coisa é existente de fato. Para Kant, não há contradição alguma em negar a existência, pois o ser nunca é parte do sujeito, nunca é um predicado do sujeito. Neste sentido, Kant ainda acredita em um “em si”, ele só não coloca sua ênfase nele. Tenta pensar as condições universais para acessá-lo.
    Desse modo, toda propriedade não vem da coisa em si, mas são construídas das condições universais para o acontecimento dos fatos ou da comunicação intersubjetiva (norma do pensável, não do possível) (MEILLASSOUX, 2009 p. 42).
  •  Correlacionismo forte (posição que parece dominante hoje em dia [ibid, p.30]):
    Para este posicionamento, há uma primazia do inseparável, uma primazia do correlato. Nada pode ser, a menos que seja em correlação (mente-mundo). Nada existe para além da correlação. Esta tese se aproxima muito do idealismo, pois nega que haja um real fora da correlação, fora do pensamento sobre o mundo.
    O paradoxo do correlacionista forte é: nada podemos dizer daquilo que está fora do pensamento. Para eles, “[…] é impensável que o impensável seja impossível” (MEILLASSOUX, 2009 p. 41).
  • Correlacionismo muito forte (posição de Husserl, Wittgenstein I e Heidegger):
    Neste posicionamento, há uma tendência em negar qualquer variação de universais (visto como um problema de mistificação da metafísica) e declarar que é necessário que pensemos a faticidade da nossa relação com o mundo como uma situação que é, em si, finita (MEILLASSOUX, 2009 p. 43). Tal ideia nos leva à constatação de que, para o correlacionista muito forte, há uma renúncia do absoluto, uma primazia da correlação e uma faticidade da correlação capaz de negar o próprio idealismo absoluto. Se a correlação é finita, transitória, ela é modificável por direito, de modo que seria ilusório pensar que se pode ganhar distância suficiente, capaz de permitir uma formulação válida para todos os humanos, em todos os tempos e lugares (ibid.).

Diacronicidade
A antítese para o correlacionismo é dada por Meillassoux pelo argumento da diacronicidade, que consiste em uma desconexão temporal entre pensamento e ser, entre mente e mundo. O conceito de ancestralidade é o maior exemplo de diacronicidade apresentado no livro. Ancestral é o evento que tem de ter ocorrido, mas que não havia possibilidade de ter ocorrido em simultaneidade com o pensamento. A idade do arque-fóssil comprovada pelo estudo do carbono 14, por exemplo, existiu muito antes de uma mente humana, e é claramente independente dela para existir, portanto escapa à correlação.

A diferença entre ancestralidade e diacronicidade está no fato de que esta última não está restrita à ideia de passado, mas pode se estender também ao futuro.

Faticidade
O livro concorda que toda correlação é um fato, isto é, está inscrita no presente, diz respeito a uma interação entre mente e mundo e produz uma representação. No entanto, o correlacionista assume a esta faticidade da correlação. O correlacionista se apega à ideia de faticidade.

Para ele, mesmo um evento do passado só pode fazer sentido no presente na medida em que representar significa estabelecer uma conexão entre um pensamento e um objeto. Toda revelação é uma ocorrência, um fato, uma ligação. Nada há para além desse fato e pensar um “em si” é cair em contradição, pois não pode haver “em si” para a mente sem a própria ideia (mente) que a pensa. Se não há sujeito sem objeto, nem objeto sem sujeito, é porque não há nada em absoluto para além do fato da correlação. Este é o argumento que Meillassoux se opõe.

Factialidade
Conceito chave na filosofia de Meillassoux, a factialidade é a descoberta de uma falha na filosofia correlacionista. Se a correlação é tudo o que há (nada havendo como sujeito puro ou objeto puro), então a correlação deve ser absoluta. Mesmo que a totalidade do que é racional fosse a totalidade correlacional, essa correlação entre mente-mundo não pode ser ela mesma correlacional – deve ser absoluta. Qualquer filosofia não solipsista deve supor um outro, mesmo para a correlação existir, e pressupor este fora é pressupor um absoluto. No mínimo, a faticidade é absoluta. Consequência: há um absoluto.

Para o autor, esse absoluto não deve ser confundido com um ente necessário, mas ao contrário como a ausência de um ente necessário. A factialidade é uma espécie de correlacionismo paradoxal, que vê a correlação absolutizada, e portanto detecta a falta de necessidade da representação. Necessária é a possibilidade do fato da representação. Nós somos efêmeros, mas o absoluto como possibilidade é perene. E ele não é razão, mas, ao contrário, contingência.

No texto, o conceito de factialidade aparece como substituto do conceito de unreason – que expressa a falta de razão essencial do absoluto. Se o absoluto é a pura ausência de necessidade, então o princípio da razão suficiente é totalmente equivocado. E se não há razão alguma para a existência ser do jeito que é, e tudo pode vir a ser outro sem qualquer razão (unreason), então a única necessidade é a necessidade da contingência. Assim, é justamente porque o princípio da razão está totalmente equivocado que a factialidade é absolutamente necessária (MEILLASSOUX, 2009).

Contingência
A ideia de hipercaos da factialidade pressupõe a de contingência. Por contingência, Meillassoux entende tudo aquilo que acontece de ser, que não é regido por uma causalidade determinística, por uma regra, lei ou necessidade. Contingência se aproxima da pura possibilidade, desprovida de razão, uma qualidade que sequer pode ser apreendida por cálculo probabilístico. Do ponto de vista da factialidade, não há uma “chance”, uma medida de frequência para os eventos, sendo eles totalmente desprovidos de intencionalidade ou, na nomenclatura preferida pelo autor, são desprovidos de causalidade.

Transfinito
O conceito de transfinito, tomado por empréstimo da teoria dos conjuntos de George Cantor, é usado como metáfora para expressar o hiper-caos contingencial que aparece no conceito de factialidade. Na teoria de Cantor, “transfinito” diz respeito a uma prova matemática de uma ideia contra-intuitiva de cardinalidade de conjuntos infinitos. Na teoria dos conjuntos, o infinito aparece no conjunto dos números naturais, dos números inteiros, no dos números racionais etc., mas nem sempre os infinitos tem o mesmo tamanho. Cantor provou que os números racionais não podem ser pareados com os números naturais, sendo assim um infinito maior do que o outro.

Na teoria de Meillassoux, a ideia de transfinito é aludida como conotando uma capacidade de coexistência, não intuitiva, entre a estabilidade do cosmo e a sua contingência essencial. Estabelecer a relação entre contingência e estabilidade é importante, pois o próprio autor sugere que haja uma tendência natural a rejeitar a ideia de factialidade, que parece estranha. Como postular a existência de um Universo caótico, em que as aparências são fortemente regidas por leis, padrões, regularidades? Se o Universo é caótico, por que os eventos não variam o tempo inteiro?

A resposta de Meillassoux é, ao mesmo tempo, ousada e sugestiva: o universo parece todo regido por leis, porque a regularidade está sendo colocada em primeiro plano. Mas estes eventos podem deixar de ser regulares, sem razão alguma. Como Hume, Meillassoux diria que não há garantia de que amanhã as leis de hoje continuem valendo. Hume já havia provado que não há possibilidade de se demonstrar a necessidade, mas Meillassoux vai além ao sugerir que não haja qualquer necessidade (excluindo-se, como dito, a necessidade da contingência). Mais, a escala de tempo da existência não tem dívida alguma com a nossa escala de tempo, essencialmente finita, portanto, a experiência regular local é praticamente inofensiva para o transfinito na contingência primordial.

Absoluto
A ideia de um absoluto, em After Finitude, tem íntima relação com o objetivo de Meillassoux em acessar um mundo não-correlacional. Além disso, o tema do absoluto, central na sua filosofia, serve de base para denunciar a timidez da filosofia correlacionista. Para o autor, o correlacionista nem sempre chega a negar a existência do absoluto (haja vista o correlacionismo fraco de Kant), mas tira-lhe a devida importância, demovendo da filosofia o risco de alcançá-lo. O correlacionista estabelece um limite para suas indagações, e descredita a tentativa de indagar sobre o que vai além, taxando-a de ingênua. Essa abordagem é fácil, mas não contribui para capacitar a filosofia a elaborar teorias a respeito de temas que a própria ciência cada vez mais tangencia – haja vista os recentes estudos em física subatômica, sistemas complexos, redes neurais etc.

Por um viés anticorrelacionista, Meillassoux propõe uma volta ao absoluto, como algo que está além da correlação, e especula sobre um universo fundamentalmente contingencial e imensuravelmente maior do que nossa mente. Tal noção de absoluto parece deixar claro que o deslocamento antifenomenológico do autor pretende colocar o cerne da filosofia não mais na correlação mente-mundo, mas incluir a especulação, método capaz de versar sobre um mundo independente de qualquer mente, mas acessível, talvez, pelo materialismo especulativo.

Bibliografia
BRYANT, Levi, SRNICEK, Nick and HARMAN, Graham. 2011. The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism. Melbourne : re.press, 2011.

HARMAN, Graham. 2011. Quentin Meillassoux: Philosophy in the making. Edingburgh : Edingburgh University Press Ltd, 2011.

MEILLASSOUX, Quentin. 2009. After finitude: an essay to yhe Necessity of Contingency. London : Continuum, 2009.

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