Dust Bowl

 

Montagem-Ilustracao-post-TransObjeto_30062017Trator (1910); tempestade de areia; crianças com proteção; seca
(Crédito/Reprodução: http://www.pbs.org/kenburns/dustbowl/legacy/)

 

por Alessandro Mancio de Camargo

[Abstract]:
“Dust Bowl is a climactic phenomenon which for 10 years caused dust storms during 1930s that greatly damaged the ecology and agriculture of the Midwest in US (Texas, Oklahoma, Kansas). Its causes have largely documented in agricultural history. In this post it is used like as a preliminary example of technography.”

“Nós apenas precisamos de alguém com a coragem de dizer o que precisa ser dito”. A frase anunciada pelo presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump faz parte do seu projeto programático para tornar a América poderosa novamente, conforme o livro Great Again: How to Fix Our Crippled America, lançado antes de ele ser eleito e que no Brasil foi traduzido pela Editora Citadel (América Debilitada, 2016).

Esse projeto programático já se posicionava sobre o clima do planeta [1; 2]. “Admito que a mudança climática esteja causando alguns problemas: ela nos faz gastar bilhões de dólares no desenvolvimento de tecnologias que não precisamos”, declarava cerca de um ano antes de anunciar, em maio de 2017, o desembarque do Acordo de Paris, tratado internacional com vistas a reduzir o aquecimento global.  

A origem da soberba humana ao tratar as questões climáticas remonta uma tradição que coloca o homem como propulsor e avalista das mudanças no planeta, atribuindo-lhe o “santificado comando bíblico”, usado para “subjugar o resto da criação de Deus” (LOWENTHAL, 2016, p. 52). Essa ideia foi veiculada pelo pastor e teólogo liberal norte-americano Horace Bushnell (1802-1876) no Sermão sobre o Poder de Uma Vida sem Fim e usada como epígrafe, em 1864, no livro Man and Nature; or, Physical Geography as Modified by Human Action do diplomata americano George Perkin Marsh (1801-1882).

Bushnell prega nesse sermão que, embora longe do “domínio perdido no Éden com a Queda de Adão”, o redentor poder divino melhorado voltou a ser atribuído ao homem [por meio de novas tecnologias, como as do setor AGRO], e após isso acontecer, “nem todos os ventos, tempestades, terremotos, mares e estações do mundo fizeram tanto para revolucionar a terra como o HOMEM” (MARSH, 1864; LOWENTHAL, 2016, p. 52).

Desse modo, por inúmeras gerações a ação física do homem atua na Terra e supera as mudanças ocasionadas por grandes revoluções naturais, segundo Bushnell. Sob esse viés o poder humano é avassalador; resulta de sistemas sígnicos como o religioso e o científico, entre outros. Mas exagerar esse papel é ignorar que o homem não está de fato no comando do comportamento ecossistêmico na Terra como será discutido mais à frente.

Tecnosfera – A abrangência e a integralidade dos diversos elementos que compõem os ecossistemas – conjunto formado por animais, plantas, bactérias, água, solo, vento – afastam a noção de que os homens operam como agentes independentes nas variadas dimensões do planeta (LÉVÊQUE, 2001). Exemplifica isso até a limitada influência no próprio comportamento da tecnosfera, sistema tecnológico do Antropoceno, que responde por estruturas e organizações globais como “comunicação, transporte, redes financeiras e outras, governos e burocracias, cidades, fábricas, fazendas e uma miríade de outros sistemas ‘construídos’”, explica o professor emérito de Geologia e Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Duke Peter K. Haff (2014, p. 126).

Diferentemente do que ocorre em sistemas de tamanho similar, como atmosfera e biosfera, os fluxos de energia, matéria e informação que constituem a tecnosfera não têm autonomia suficiente para reciclar seus rejeitos: desperdício de alimentos, desemprego, inflação, terrorismo, poluição. Na agricultura, isso tem gerado uma série de críticas sobre às práticas de manejo adotadas no campo. Os embaraços apontados destacam o uso de nitratos e fosfatos como fertilizantes para o crescimento e desenvolvimento acelerado das plantas, entre outros pontos desabonadores para o setor AGRO. O homem até cumpre um papel preponderante nisso, mas não detém o controle sobre os rejeitos da tecnosfera.

O uso de nitratos e fosfatos está associado ao aumento dos gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Os fertilizantes sintéticos, portanto, que ganharam destaque a partir da década de 1950 durante a Revolução Verde – saudada como a solução para o problema da fome no mundo –, comprometeriam a sustentabilidade dos ecossistemas segundo os defensores da agroecologia (CAMARGO et al., 2000).

O processo “Haber-Bosch”, tecnologia utilizada na produção dos fertilizantes inorgânicos, assemelha-se ao ciclo do nitrogênio realizado pelas bactérias para fixá-lo ao solo (CONWAY, 2003, p. 257-258). O nitrogênio é um dos elementos essenciais para o crescimento das plantas ao promover, entre outras reações, a quantidade e a qualidade da geração de matéria orgânica que serve de nutriente a elas. Utilizado após a Segunda Guerra Mundial para produção de fertilizantes, o processo Haber-Bosch responde pelo sustento de cerca de 40% da população do planeta (HAFF, 2013). Resolveu, assim, a maior parte da equação malthusiana da fome, que apregoava que a produção de alimentos não acompanharia o aumento populacional.

Extrapola os objetivos deste post discutir especificamente qual dessas argumentações contraditórias entre si – baseadas na promoção da agroecologia ou nos benefícios das técnicas do agronegócio – está certa. De todo modo elas indicam, ao menos em parte, uma fratura entre aspirações da natureza humana que deseja produtos orgânicos e a forma de organização eficiente e assertiva da tecnosfera, como o processo Haber-Bosch.

Uma estratégia metodológica para estudar fenômenos complexos que integram relações entre sistemas vivos e não-vivos, como agroecologia e agronegócio, é adotar uma postura tecnográfica. A tecnografia pode ser resumida como uma etnografia da tecnologia, segundo pesquisadores do departamento de desenvolvimento agrário e tecnológico da Universidade Wageningen, da Holanda (JANSEN; VELLEMA, 2011). Vista dessa forma ela se assemelha, porém, não é idêntica, a teoria ator-rede, cujo estado da arte está descrito no livro Ciência em Ação do antropólogo e sociólogo Bruno Latour.

A interdisciplinaridade envolvida nas relações do agrossistema resulta do emprego em suas atividades tanto de conhecimentos tácitos e populares quanto religiosos e científicos. Para estudar a natureza dessa linguagem complexa a tecnografia leva em conta que:

A agricultura integra a dimensão técnica (como o tipo de práticas de lavoura do solo que reduzem a erosão) com a dimensão social e econômica (a maneira como os agricultores mobilizam e mantêm uma força de trabalho ou selecionam as culturas de acordo com as condições do mercado). Embora saibamos pesquisar cada uma dessas áreas separadamente, há pouco consenso sobre como projetar pesquisas que integrem os processos biofísicos e a determinação social das práticas tecnológicas envolvidas (JANSEN; VELLEMA, 2011, p. 169).

Nesse sentido, “a tecnografia pode ser considerada como uma ciência social descritiva da tecnologia que examina a interação homem / máquina ou ferramenta” com o ecossistema (JANSEN; VELLEMA, 2011, p. 169). Tecnologia entendida num sentido amplo, de objetos técnicos, artefatos ou linguagens que resultam da aplicação prática de conhecimentos de diversos tipos, entre os quais o científico. No caso da tecnografia, o interesse primário recai na explicação do impacto de uma tecnologia em seu local e momento de uso, principalmente, e as trocas sistêmicas e semióticas envolvidas nisso.

Adotada no estudo de casos particulares ou locais, a tecnografia desvela o frágil equilíbrio entre os fluxos da tecnosfera e o comportamento ecossistêmico, que ao ser perdido provoca impactos sociais, políticos e econômicos. De maneira preliminar, isso é discutido no resgate feito a seguir da chamada Dust Bowl: cuia de pó, numa tradução livre, cujo efeito é indicativo da incapacidade da tecnosfera em cuidar sozinha de seus rejeitos.

Ponto sem volta? – Fenômeno climático caracterizado por tempestades de areia que, a partir de 1930, afetou por 10 anos as planícies altas do Meio Oeste dos Estados Unidos (Texas, Oklahoma, Kansas) e multiplicou os efeitos econômicos e sociais da Grande Depressão, a Dust Bowl está amplamente documentada [3; 4; 7; 8].

Particularmente, ela foi provocada pela expansão das fronteiras agrícolas, a partir de 1910, incentivada pelo uso descontrolado de tratores no campo e desmedida valorização da produtividade. Numa área já afetada por mudanças climáticas como o El Niño, a Dust Bowl foi gerada, desta forma, por práticas inadequadas de manejo do solo que ignoraram noções sobre agricultura sustentável já conhecidas desde antes do início da Era Cristã.

Tecnologia revolucionária para expansão da produtividade agrícola, os tratores já tinham no início do século XX a aparência de verdadeiras locomotivas, pesavam várias toneladas e rasgavam o solo por meio de arados formados por vários discos de até 1,8 metro cada.

As consequências da Dust Bowl foram arrasadoras para aquela região. Uma área de cerca de 405 mil quilômetros quadrados, equivalente a cerca de 10% da floresta amazônica original, foi afetada pelo fenômeno. Não bastassem as intermináveis tempestades de areia a população, especialmente a infantil, sofreu ainda com severas doenças respiratórias. Além disso, parte das pessoas afetadas tanto no campo quanto nas cidades tiveram de viver longos períodos sem o contato com a luz do sol.

Somente em 1935, cerca de 850 milhões de toneladas de terra e restos vegetais encobriram os céus daquela região e adjacências. Isso levou o presidente Franklin D. Roosevelt a criar um plano de reflorestamento das planícies altas dos Estados Unidos e a incentivar as técnicas de plantação em curvas de nível para evitar a erosão do solo e reciclá-lo. Os fabricantes de implementos agrícolas também implantaram melhorias em suas máquinas, como tratores com cabines fechadas para enfrentar a poeira.

Originalmente, as planícies altas do Meio Oeste dos EUA tinham uma vegetação que resistia à seca, segurava a umidade do solo e aplacava os efeitos dos ventos, mesmo nos períodos do El Niño. Práticas agrícolas insustentáveis, mas fiéis à tecnosfera no início do século passado, desequilibraram o comportamento ecossistêmico naquela região.

O risco de enfrentar situação similar a desse ponto da história, criar um fenômeno local como a Dust Bowl, porém, sem retorno, é passível de ocorrer na Amazônia brasileira, segundo Thomas Lovejoy, professor que estuda a região desde 1965 e atualmente atua na área de ciência e política ambiental da Universidade George Mason (EUA).

A existência dos chamados rios voadores na região norte do Brasil – interação entre a cobertura verde e a atmosfera local, conforme indicado por diversas descobertas já nos anos 1970, em trabalhos como os do professor Eneas Salati do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) –, aponta que o desmatamento descontrolado pode pôr a perder modos ainda sustentáveis de equilíbrio ecossistêmico e emergir algo similar à Dust Bowl, mas com consequências mais abrangentes e desconhecidas. De acordo com Lovejoy:

Hoje sabemos que, além do desmatamento, o uso amplo de queimadas e as mudanças climáticas estão todos empurrando o sistema amazônico em direção a um ponto sem retorno. É difícil fazer uma estimativa precisa de onde se situa esse ponto, mas aqueles de nós que acompanhamos esses estudos pensamos que é provavelmente quando 20% da floresta tiver sido derrubada [5].

Em 2017, 19,5% da cobertura vegetal da Floresta Amazônica não existe mais [6].

Recicladores da tecnosfera – A ação humana não pode proporcionar respostas sobre como resolver todas as reiteradas situações que impactam negativamente a continuidade de determinados sistemas vivos ou não-vivos. Tampouco o ecossistema terrestre (LÉVÊQUE, 2001). Vide as mudanças bruscas de um estado homeostático para outro, ocorridas entre 3,8 bilhões e 2 bilhões de anos e com impactos duradouros na atmosfera devido à elevação dos níveis de oxigênio no planeta, que colocou em xeque a sobrevivência dos organismos anaeróbicos (VEIGA, 2012). Mas isso fez emergir de forma inesperada organismos complexos como os humanos. Igualmente, se a Terra adotar outro ponto de equilíbrio – uma nova Dust Bowl – é impossível dizer o que vai ocorrer. Realizáveis ou não, alterações climáticas como as previstas por Lovejoy têm o mérito de chamar atenção para interação com a tecnosfera, do mesmo modo que no passado o fantasma malthusiano atraiu interesse para o problema da carência alimentar.

Invocada no século XX, a falta de alimentos foi importante para mobilização em torno da Revolução Verde. Mesmo controversa ela rendeu, em 1970, ao engenheiro agrônomo norte-americano Norman Ernest Borlaug (1914-2009), o Nobel da Paz, por resolver a equação malthusiana. Ou seja: tornar a agricultura viável em termos produtivos para alimentar a população mundial de 2 bilhões de pessoas e em franco crescimento em 1950.

Como nesse momento de protagonismo da micro-história agrícola, a ação humana deveria agora invocar o papel não menos importante de recicladora dos rejeitos da tecnosfera. Se isoladamente o homem e a tecnologia não dominam o comportamento ecossistêmico, juntos podem guiar uma segunda Revolução Verde. Mas inspirada no que diz o professor do Centro de Política Ambiental da Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College, Sir Gordon Conway (2003): verde no sentido da sustentabilidade. Isso significa diminuir o desperdício de alimentos, por exemplo, já que a fome é um rejeito logístico e da distribuição de renda da tecnosfera, não da produção (VEIGA, 2007). Fato que força o agrossistema a revisar entre os indicadores de desempenho o peso dado à produtividade.

Referências:

CAMARGO, Alessandro Mancio de et al. Agricultura Orgânica. ComCiência, Unicamp, n. 7, p. 1-12, 2000. Disponível em: <https://goo.gl/Wgv0rx&gt;. Acesso em: 14 fev. 2017.

CONWAY, Gordon. Produção de alimentos no século XXI: biotecnologia e meio ambiente. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

HAFF, Peter K. Technology as a geological phenomenon: implications for human well-being. In: WATERS, C. N. et al. (eds). A Stratigraphical Basis for the Anthropocene. Londres: Geological Society, Special Publications, 395, 2013. Disponível em: <https://goo.gl/z9JZZe&gt;. Acesso em: 14 fev. 2017.

______. Humans and technology in the Anthropocene: Six rules. The Anthropocene Review, Vol. 1, n.2, p. 126–136, 2014.

JANSEN, K.; VELLEMA, S. What is technografphy? NJAS – Wageningen Journal of Life Sciences, Wageningen (The Netherlands), n. 57 , p. 169–177, 2011.

LÉVÊQUE, Christian. Ecologia: do ecossistema à biosfera. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

LOWENTHAL, David. Origins of Anthropocene awareness. The Anthropocene Review, v. 3, n. 1, p. 52-63, 2016.

MARSH, George Perkin. Man and Nature; or, Physical geography as modified by human action. New York, NY: Charles Scribner, 1864. Disponível em: <https://archive.org/details/manandnatureorp00marsgoog&gt;. Acesso em: 18 abr. 2017.

VEIGA, José Eli da (org.). Transgênicos: sementes da discórdia. São Paulo: Senac, 2007.

______ (org.). Gaia: do mito a ciência. São Paulo: Senac, 2012.

Notas:

[1] Saiba mais em: <https://goo.gl/wlgbRf&gt;. Acesso em: 03 jun. 2017.

[2] Saiba mais em: <https://goo.gl/dTpahW&gt;. Acesso em: 03 jun. 2017.

[3] Saiba mais em: <https://goo.gl/EkdOj8&gt;. Acesso em: 30 maio 2017.

[4] Saiba mais em: <https://goo.gl/mAbPFM&gt;. Acesso em: 30 maio 2017.

[5] Saiba mais em: <https://goo.gl/QGyOAC&gt;. Acesso em: 30 maio 2017.

[6] Saiba mais em: <https://goo.gl/y9Z8Id&gt;. Acesso em: 30 maio 2017.

[7] Imagens originais usadas na ilustração/montagem apresentada no post disponíveis em: <http://www.pbs.org/kenburns/dustbowl/legacy/&gt;. Acesso em: 30 maio 2017.

[8] Saiba mais em: <https://youtu.be/MYOmjQO_UMw&gt;. Acesso em: 7 jun. 2017.

 

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