Notas para se pensar as bolhas online a partir de Peirce

por Juliana Rocha Franco

[Abstract]:

“It is well known that the idea that Facebook’s algorithm promotes filter bubbles. However, a study conducted by the University of Michigan and published in the Science journal showed how the user interferes with the way the algorithm behaves. According to the study, the order in which users view stories in the News Feed depends on many factors, including how often the viewer visits Facebook; how much they interact with certain friends, and how often users clicked on links to certain Sites in the News Feed. If the algorithms are not the most important element in filtering the content, why would embubblement happen? Our hypothesis is that certain modes of fixation of belief, as pointed out by the American philosopher Charles Peirce, stimulates the creation of bubbles, due to the cognitive inclination they promote and lead to preferring situations where the beliefs will be confirmed, thus avoiding the state of doubt.”

É já lugar comum afirmar que sites e serviços de redes sociais e ferramentas de busca nos oferecem uma visão personalizada criada através de algoritmos de empresas de tecnologia. Quando você faz uma pesquisa no Google, por exemplo, os resultados obtidos serão diferentes, dependendo do que a empresa conheça sobre você. Na maior parte do tempo, essa filtragem é útil: botânicos e cozinheiros obtêm resultados de pesquisa muito diferentes para a palavra “manga”, por exemplo.

No livro O filtro invisível, Eli Pariser (2012) utiliza o termo bolha para se referir aos algoritmos utilizados, por exemplo, pelo Facebook para filtrar e classificar as postagens que aparecem em cada timeline. Nesse caso, o que é chamado de bolha é proporcionado pelos filtros invisíveis do conteúdo que nos chega: “Mecanismos criam e refinam constantemente uma teoria sobre quem somos e sobre o que vamos fazer ou desejar seguir” (Pariser, 2012, p. 14).

Pariser sugere que o Facebook faz isso por moldar a nossa percepção do mundo com o seu feed de notícias algoritmicamente filtrado. Conforme afirma o autor (2012, p. 77), filtros personalizados podem, ao mesmo tempo, limitar a variedade de coisas as quais somos expostos, afetando assim o modo como pensamos e aprendemos.

Essa leitura das bolhas nos apresenta um mundo dominado por uma vontade algorítmica onde nos resta muito pouco a ser feito. Entretanto, muito embora algoritmos desempenhem um papel importante, um estudo recente (Bakshy, E.; Messing, S. & Adamic, L. A., 2015), realizado pela Universidade de Michigam e publicado na revista Science, chamado  “Exposure to Ideologically Diverse News and Opinion on Facebook”, mostrou como o usuário interfere na forma como o algoritmo se comporta. O que os indivíduos consomem no Facebook depende não apenas do que seus amigos compartilham, mas também de como o algoritmo do ranking do feed de notícias classifica esses posts, artigos e o que os indivíduos escolhem visualizar. A ordem em que os usuários enxergam histórias no feed de notícias depende de muitos fatores, incluindo a frequência com que os usuários visitam o Facebook, o quanto eles interagem com certos amigos e com que frequência os clicaram em links para determinados sites no feed de notícias.

O estudo (Bakshy, E.; Messing, S. & Adamic, L. A., 2015) permite afirmar que há uma bolha de filtro, mas que essa só existe porque os usuários escolhem ver as coisas a partir de como sua rede está composta. Assim, os indivíduos têm alguma agência para decidir a quem eles estarão conectados nas mídias sociais. Como J. P. Thompson (2005, p.139) afirmou, a recepção e apropriação de produtos culturais é um processo social complexo, que envolve uma atividade contínua de interpretação e assimilação do conteúdo significativo pelas características de um passado socialmente estruturado de indivíduos e grupos particulares.

Embora desempenhem um papel importante na limitação da exposição a diferentes pontos de vista, é possível afirmar que os algoritmos não são o mais importante elemento na filtragem do conteúdo e da agência individual. Logo, o embolhamento proporcionado pelo Facebook aconteceria por quais razões?

Sobre a noção de bolha e a fixação da crença

O lógico John Woods em suas pesquisas sobre a relação entre o conhecimento que o agente considera possuir e aquele que ele realmente possui, criou a noção de “bolha epistêmica” para explicar a interação complexa entre conhecimento e crença. Uma Bolha Epistêmica é um estado cognitivo em que a diferença entre “conhecer P” e “acreditar que se conhece P” se torna fenomenologicamente indistinguível. (Woods, 2005, p. 740).

A bolha epistêmica não é um fenômeno que diz respeito unicamente aos indivíduos isolados e pode ser aumentado e distribuído por mecanismos de feedback positivo de modo a formar uma espécie de bolha coletiva, que aparece claramente na dimensão retórica que caracteriza as interações sociais. Isso pode ser facilmente observado nas redes sociais online, por exemplo.

Esse problema nos leva imediatamente a tentar entender como a informação adquirida por um agente cognitivo pode se torna uma “crença”, que guiaria suas ações. O filósofo americano, Charles Sanders Peirce, apontou como a formação de crenças se baseia em um fator emocional que não pode ser ignorado: a irritação da dúvida.

A irritação da dúvida causa um grande esforço no sentido de se alcançar um estado de crença (2008, p. 45). Ou seja, quando estamos em dúvida, estamos numa situação de desconforto da qual queremos rapidamente escapar. Para Peirce a dúvida é um estado de insatisfação e inquietude do qual se quer afastar, e o estado de crença, é um estado “calmo e satisfatório” no qual se quer manter-se. Dessa forma, faz sentido pensar que, na medida em que navegamos pela internet, curtimos posts e paginas no Facebook, agimos nas redes sociais em duas direções que se completam: buscamos aplacar a dúvida (aqui o conceito de dúvida pode ser considerado como de uma amplitude que vai do tipo mais primitivo, passando por perplexidades pragmáticas até as mais altas atitudes científicas e filosóficas) e buscamos o estado calmo e tranquilo de manter nossas crenças.

Peirce nos lembra que o desgosto de um estado mental indeciso, exagerado num vago receio da dúvida, faz os homens se agarrarem `as posições já tomadas. Mesmo em nossas interações online, tal situação não é diferente. Dessa forma, haveria uma inclinação de nossa parte de privilegiar relações e informações nas redes sociais por exemplo, que confirmariam nosso estado de crença.

Ao fazer uma leitura peirceana da ideia de bolha, é possível afirmar que a possibilidade de se estar em uma Bolha Epistêmica é uma situação a qual mentes estão sujeitas e esse processo está intimamente ligado aos modos de fixação da crença, visando escapar do estado de dúvida. Peirce considerou quatro estratégias principais que são utilizadas por nós visando escapar da irritação da dúvida e fixar uma crença: o método de tenacidade, o da autoridade, o “a priori” e o método da ciência.

O Método da Tenacidade é aquele pelo qual qualquer resposta que se queira pode ser adotada sem qualquer questionamento. Promove-se uma recusa a qualquer questionamento que por ventura viesse abalar o estado de crença. Um rápido passeio pelo Facebook nos levaria a identificar tal modo de fixação da crença sendo aplicado por várias pessoas. No contexto de polarização politica que vivemos atualmente e que pode ser identificado nas querelas online sobre os mais diversos temas, assistimos pessoas agarrando-se tenazmente às suas ideias e crenças. Quem adota este método de fixar uma crença, não se propõe a ser racional, mas adquire uma tranquilidade e satisfação de ter a dúvida aplacada.

Método da Autoridade é aquele no qual a crença se institui a partir da opinião de uma autoridade e por isso, é considerado dogmático e também não implica em questionamento, já que os questionadores são excluídos. Nas interações do Facebook isso pode ser visto através de debates políticos, religiosos, dentre outros.

O Método A priori é aquele pelo qual se adota uma resposta que geralmente é a mais agradável à razão (Peirce, 2008, p. 52). Segundo Peirce (2008, p. 55), a própria essência dele, é pensar o que se está inclinado a pensar. Seu risco consiste no fato de partir da premissa de que o que agrada à razão deve ser verdadeiro. Ou pior: se está na internet, então deve ser verdade.

O que se percebe nesses três modos de fixação da crença, é que agimos com desgosto e irritação diante de tudo o que possa perturbá-la. Isso é compreensível, já que as crenças orientam nossos desejos e criam em nós uma espécie de hábito, que por sua vez orienta nossas ações. O estado de crença fornece uma tranquilidade e satisfação do qual não queremos sair. Isso levaria as pessoas a adotarem tais métodos de fixação da crença e não desafiar suas próprias concepções. Conforme afirma Peirce, não se pode negar que a fé  sólida e imutável proporciona grande paz mental.

A Recusa em admitir a existência de qualquer coisa que possa abalar uma convicção, é justamente aquilo que gera a incomunicabilidade entre opiniões opostas e contraditórias e proporciona o embolhamento, que pode ser compreendido como o resultado de uma necessidade cognitiva estratégica para reduzir tanto quanto possível a dúvida. Entretanto, no caso da bolha, embora a satisfação da busca cognitiva seja atendida por uma avaliação emocional final positiva (ou seja, o alívio da irritação da dúvida), essa avaliação não é um sinal da realização adequada do conhecimento.

De fato, a bolha epistêmica pode ser descrita como a atribuição automática do conhecimento ao sistema de crenças do agente. O resultado é que o agente é incapaz de distinguir perfeitamente o que é conhecido do que é meramente acreditado.

Conforme afirma Bertolotti (2015, p.236 ), o fato de sermos inconsciente de nossos erros e crenças inconsistentes é, muitas vezes, vinculado a uma auto-convicção de que não somos agressivos nas discussões que realizamos. Ou seja, a falta de consciência da nossa condição de embolhamento é muitas vezes acompanhada do desconhecimento do caráter agressivo dos nossos discursos (e comportamentos), o que justificaria inclusive a violência de certos discursos com os quais no deparamos online.

Dessa forma, um método de fixação da crença que melhor resistiria ao desafios da argumentação e da  demonstração, seria muito mais interessante para nós, no sentido de evitar embolhamentos. Isso é possível na medida em que,

como pensamento, conduta e sentimento podem ser controlados, supondo-se que eles estejam sujeitos, numa certa medida, e apenas em uma certa medida, ao autocontrole exercido por meio do autocrítica e da formação propositada de hábitos, tal como o senso comum nos diz que eles, até certo ponto, são controláveis (MS 655:24, apud Santaella 1994: 119-120).

Peirce propõe um quarto modo de fixação da crença, que ele denomina Método Científico. Esse não necessariamente precisa ser utilizado somente no domínio da ciência. Ele se baseia na ideia de que há uma realidade que existe independentemente de nossas crenças e que se força sobre nós e tem como princípio o falibilismo peirceano, que é a ideia de que que “não existe qualquer razão para atribuir as suas crenças um valor mais elevado que as de outras nações e outros séculos; e isso dá origem a dúvidas nas suas mentes” (Peirce, 1877: 14). A questão portanto, é de como se distinguem os processos de fixação da crença. Por meio de sua abordagem pragmática, Peirce sustenta que devemos descobrir crenças verdadeiras e justificadas, se a investigação for perseguida indefinidamente no longo prazo e que mesmo o método científico, é incapaz de nos dar conhecimento exato.

A proposta do método científico é eliminar o apego a uma dada crença, bem como a imposição de crenças a partir de alguma autoridade, assim como a busca elementos “agradáveis à razão”. É importante ressaltar, conforme afirma Wall, que “cada um dos métodos, de sua maneira própria, é legítimo e poderia até mesmo ser preferido ao científico, como melhor jeito de fixar a crença. Por conseguinte, Peirce não sustenta que o método científico deveria substituir os outros.” (Wall, 2007, p.38-39).

O três primeiros métodos apontados por Peirce (Tenacidade, Autoridade e A priori) estão bem mais sujeitos ao processo de formação de Bolhas Epistêmicas. Isso se dá devido a uma ânsia, decorrente de uma aversão instintiva a um estado indeciso da mente, de tomar como verdadeiro algo que, apesar de ser pouco provável, é capaz de acalmar a irritação da dúvida e posteriormente na relutância em descartar tal crença. Nesse caso, o processo de formação da bolha seria resultado de uma necessidade cognitiva estratégica para reduzir a dúvida e incerteza, tanto quanto possível. Tais bolhas promovem processos de imunizações cognitivas ao provocar um tipo de dissociação entre o signo e o objeto (dinâmico).

Dessa forma, por mais que exista um agência humana na configuração das relações online no Facebook e uma certa autonomia na hora de filtrar as informações, nossa própria inclinação cognitiva nos leva a preferir situações onde nossas crenças serão confirmadas, evitando assim o estado de dúvida. O que nos levaria a um embolhamento, nos termos de Wood (2005), já que a bolha epistêmica funciona como uma estrutura cognitiva voltada para a redução da irritação causada pela dúvida e consequentemente, qualquer comportamento disposto ou não intencional que entra em conflito com a bolha de um agente origina uma avaliação emocional negativa.

Referências Bibliográficas

BAKSHY, Eytan; MESSING, Solomon; ADAMIC, Lada A. Exposure to ideologically diverse news and opinion on Facebook. Science, v. 348, n. 6239, p. 1130-1132, 2015.

BERTOLOTTI, Tommaso. Patterns of rationality: Recurring inferences in science, social cognition and religious thinking. Springer, 2015.

PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Zahar, 2012.

PEIRCE, Charles S. Ilustrações da Lógica da Ciência. São Paulo, Ed. Letras e ideias, 2008.

SANTAELLA, Lucia. O método anticartesiano de CS Peirce. Unesp, 2004.

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005 .

WOODS, John. Epistemic Bubbles. In: We Will Show Them!. 2005. p. 731-774.

 

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