Desencontros entre os realismos de Peirce e de Meillassoux

por Tarcísio Cardoso

[Abstract]:

“Will the sun rise tomorrow? This naïve question covers profound questions of philosophy, especially worked out by David Hume. Is it possible to ensure from the regular experiences of the past the need for a future event? What is the validity of this reasoning? What is the basis of human understanding if this type of inference is not valid? Problems like these represent the passage from metaphysical problems (which ask about what there is) to epistemological problems (that ask about the ways of access to what there is). The aim of this text is to retake this kind of metaphysical-epistemological question under the eyes of two philosophers who stand out in the discussions of this group: Charles S. Peirce and Quentin Meillassoux. It is interesting to return to the subject, already treated in the post of Gustavo Rick, of the distance between Peirce’s philosophical proposal (pragmatism) and Meillassoux’s (anti-correlationism), the latter, basis for the subsequent development of speculative realism. In the post mentioned, the distance between Peirce and Meillassoux was already clear (says Gustavo Rick: “Meillassoux’s anti-correlationist project is incompatible with Peircean philosophy”). Next, we will reflect a little more on such differences by asking for both philosophical systems what they would have to say about our certainty that the sun will be rise tomorrow.”

O sol nascerá amanhã? Essa pergunta ingênua encobre profundas questões de filosofia, especialmente bem trabalhadas por David Hume. É possível garantir a partir das experiências regulares do passado a necessidade de um acontecimento futuro? Qual a validade desse raciocínio? Qual a base do entendimento humano se esse tipo de raciocínio ampliativo não for válido? Problemas como estes representam a passagem de problemas metafísicos (que perguntam sobre o que há) a problemas epistemológicos (que perguntam sobre os modos de acesso ao que há). O objetivo deste texto é retomar esse tipo de questão metafísico-epistemológica sob o olhar de dois filósofos que se destacam nas discussões deste grupo: Charles S. Peirce e Quentin Meillassoux. Interessa-nos voltar ao tema, já tratado no post de Gustavo Rick, da distância entre proposta filosófica de Peirce (batizada por ele de pragmatismo) e de Meillassoux (batizada de anti-correlacionismo), esta última, base para o desenvolvimento subsequente do realismo especulativo. No post mencionado, já estava clara a distância entre Peirce e Meillassoux (diz Gustavo Rick: “o projeto anti-correlacionista de Meillassoux é incompatível com a filosofia peirceana”). A seguir, vamos refletir um pouco mais sobre tais diferenças perguntando para ambos os sistemas filosóficos o que eles teriam a dizer sobre nossa certeza de que o sol vai nascer amanhã.

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Quando as coisas significam outras coisas. Considerações sobre o abismo flusseriano e suas outras realidades

Por Monica Allan

[Abstract]:

The Czech thinker Vilem Flusser used to rewrite his books instead of translating them, how was everyone’s knowledge. That´s the reason some editions from one language to another may present some differences. The universe of technical images: praise of superficiality (2008) is the example of this. The Portuguese edition develops the philosopher´s ideas in four degrees to get into abstraction, chapter Abstrair. In the German one, according to Santaella (2016, p.106-117), it would be the fifth degree whereas the first of them is the condition of the primitive man in basic constitution. Therefore these are the degrees: 1) three-dimensionality, 2) two-dimensionality, 3) one-dimensionality, 4) zerodimensionality.

This article plunges into Flusserian dialogue from its fourth degree – zerodimensionality (Port ed.), where in lieu of nothing there are possibilities – the abyss´s plunge. The Flusser´s image theory (his anthropologic model of communication) allow us to investigate images as speculative realities.

 

Zerodimensionalidade: modo enter

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Figura 1 - Les Voyageurs, Cédric Le Borgne, 2016, foto de Mattew Andrews.

 

Flusser não vivenciou as imagens digitais mas antecipou a virtualidade, a queda no abismo do sistema mítico-mágico enquanto cenário e emergência do novo, da criatividade programável, consciente. O abismo do qual Flusser refere-se em seu livro O universo da imagens técnicas: elogio à superficialidade é em si o mergulho modo enter em outras realidades possíveis, como o autor antevia e a matemática pode viabilizar imagens em pixels. Nessa obra citada acima, assim como em Comunicologia (2015), fica claro o processo de transição dos mundos em graus evolutivos do pensamento até a zerodimensionalidade. Esse processo de abstração também descrito como modelo comunicacional da teoria da imagem faz ponte atomista em Demócrito, quando o filósofo tcheco descreve o clinamen onde as partículas caem no “vazio” e os mundos são criados desse nada (ausência de formas) a partir do cálculo – degrau por degrau. Na opinião do autor, esse é o momento em que a abstração leva à concretude e realiza a inversão do paradoxo criativo (antes a abstração partia do concreto/cenário para o imaginário). Santaella (2016), faz uma minuciosa análise dessa proposição flusseriana da história da cultura em quatro ou cinco graus/degraus no artigo Paradoxal retorno do concreto, quando a autora se entusiasma pelo modelo antropológico de evolução pela imagem. Continuar lendo

A leitura “espacializante” de Meillassoux da metáfora kantiana da revolução copernicana

por Gustavo Rick Amaral

[Abstract]:

“The main objective of this text is to present a study on the Meillassoux analysis of the Kantian metaphor or analogy of Copernican revolution. In his analysis (presented in the book “after finitude” Meillassoux focus on the spatial relation involved in this Kantian metaphor or analogy. This particular focus is part of a strategy (common to all others philosophers of Speculative Realism) to present Kant as a philosopher who contributed greatly to the anthropocentrism in the modern era. In this paper, we sustain that the Kantian (Copernican) revolution in epistemology represents a philosophical trend that strives to combat anthropocentrism. The Kantian metaphor or analogy can be read in this same key.”

Na obra “depois da finitude”, Meillassoux (2008) introduz o termo correlacionismo para designar a tradição filosófica que limitou o pensável, o cognoscível ao campo do que poder ser correlacionado à experiência (possível) do sujeito. Do ponto de vista dos filósofos do Realismo Especulativo (RE), sobretudo, Meillassoux, o correlacionismo fundamental é estabelecido por Kant na Crítica da Razão Pura. Para os realistas especulativos, a crítica kantiana (no campo da epistemologia) é o pecado original da filosofia. Em “depois da finitude”, Meillassoux desenvolve uma análise da célebre metáfora da revolução copernicana à qual recorreu Kant no prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura. Kant entende que a tarefa de sua crítica no campo da epistemologia é promover um movimento de inversão semelhante àquele operado por Copérnico no campo da ciência. Acreditamos que a análise de Meillassoux desta metáfora é uma excelente síntese de um movimento geral central ao RE: a crítica ao correlacionismo (ou ao que Harman denomina “filosofia do acesso).

A tese principal da análise de Meillassoux é que a revolução copernicana de Kant é, na verdade, uma contra-revolução ptolomaica (2008, p. 118). A revolução de tipo copernicano operada por Kant no campo da epistemologia é, na verdade, uma revolução de tipo ptolomaico operada (neste campo) contra a verdadeira revolução copernicana feita no campo científico. Esta tese que considera ptolomaico o movimento operado pela crítica kantiana está associada a uma das principais teses de Meillassoux nesta obra, saber, a ideia de que a ciência possui um “modo não-correlacional de conhecimento”, ou seja, um caráter eminentemente especulativo (2008, p. 119).

A revolução copernicana no campo científico é entendida como um descentramento. A contra-revolução ptolomaica no campo epistemológico é entendida como um centramento. Nesta, os objetos passam a orbitar o sujeito. Continuar lendo

II Colóquio Realismo Especulativo: desafios do humano na contemporaneidade

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A internet das coisas está hoje sincronizando com uma tendência filosófica que emergiu recentemente sob o nome de “realismo especulativo”. O realismo especulativo — ou filosofia orientada a objeto, ou ainda ontologia orientada a objeto (OOO) — funciona apenas como um guarda-chuva que abriga uma série de autores com tendências distintas e que partem de gêneses também distintas. Alguns são teóricos da literatura e filmes, outros são especialistas em games, outros ainda são ecólogos. Dessa forma, o realismo especulativo vem chamando a atenção mundial em diversos campos, especialmente no campo da arte contemporânea, do design e da arquitetura.

O II Colóquio Realismo Especulativo: desafios do humano na contemporaneidade procura explorar desde os fundamentos desta tendência filosófica, passando pelas críticas a ela, pelas possíveis interfaces com outras teorias filosóficas, chegando às possíveis relações como a arte, a ciência e a vida cotidiana.

II Colóquio Realismo Especulativo: desafios do humano na contemporaneidade
Org. Lucia Santaella

07 de dezembro de 2017 – quinta-feira – a partir das 9h
Rua Caio Prado, 102 – Prédio 4, Auditório 415 (1º andar)
PUC – SP Campus Consolação

*Evento gratuito com emissão de certificado para os participantes

Programação completa em:
https://transobjeto.wordpress.com/agenda/realismo-especulativo/

Realização: Transobjeto
Apoio: PUC-SP e TIDD

Por um mundo incomum: Ontologia e Infinito

por Rodrigo Petronio

[Abstract]

The concept of infinity is one of the most complex concepts of the history of thought. Not only in its mathematical and formal impasses, but also in its ontological implications and radical cosmologies. This paper aims three objectives: 1. Describes the problem of the relations between ontology and infinity 2. Understandes the implications of the infinitesimal cosmologies and ontologies and how this concept of infinite differentiation creates own concept of the world 3. Proposes a new paradigm that can be defined as a paradigm of infinitization. Finally, this article proposes the foundations of the theory of mesons or mesology, a media ontology and cosmology created by Rodrigo Petronio based in its infinitesimal paradigm.” 

Mundo Comum

O título deste texto traz em si um phármakon. Uma perigosa ambivalência de veneno-remédio, à maneira de Derrida. Falar em nome de um mundo incomum é reivindicar um mundo singular, apartado do comum e da possibilidade de comunidade dos seres. Paradoxalmente, ainda que singular, esse mundo incomum é um mundo. Há uma comunicação recíproca das substâncias que o compõem enquanto mundo. Os elementos que o constituem configuram uma unidade e mantêm relações entre si. Por seu lado, a differánce, marcada na escrita-fala, leva-nos a entender a expressão em um sentido oposto: mundo em comum. O locativo em designa o liame e o ponto de convergência que possibilitam uma comunidade possível. As relações entre o negativo-restritivo in e o participativo-compartilhado em não devem ser depuradas de suas aporias estruturais.

A marca dessa indecidibilidade ou dessa indiscernibilidade chancela as bases da reflexão que proponho aqui a partir das relações entre infinito, ontologia e mundo. Um mundo universalmente compartilhado apenas pode vir a se efetivar no plano da realidade no momento em que esse mesmo mundo se diferencie das concepções de mundo pluralistas que lhe sejam coetâneas, ou seja, quando consiga homogeneizar a heterogênese (Tarde, 2010, Guattari, 1988) e unificar em si as diversas ontologias regionais, incorporando-as a si à medida mesma que se distingue delas. Por outro lado, tampouco é possível sustentar uma diferenciação infinita dos seres sem recorrer a alguns critérios de demarcação, ainda que provisórios. Continuar lendo

A astúcia da fotografia: diálogos foto-ficcionais com Flusser

por Camila Mangueira Soares

[Abstract]

“The impulse of this essay was my desire to meet with Vilem Flusser and his smoking pipe in order to discuss contemporary extensions of the photographical gesture. This dialogue came through a continuing reflexive situation presented by Flusser in Los Gestos (1994) in which a photographer captures a pipe smoker in a room. Thereby, I suggest here an imaginative exercise using situations in which Flusser and I emphasize the astuteness of photography, in a way to revisit it, conduct it and complexify it through present photographical scenarios.”

Este ensaio parte do desejo de, literalmente, encontrar-me com Vilém Flusser e seu cachimbo para discutir extensões contemporâneas do gesto de fotografar. Diálogo possível através de uma continuidade da situação reflexiva apresentada por Flusser em Los Gestos (1994) na qual um fotógrafo, em um salão, fotografa um fumante de cachimbo. Assim, proponho aqui uma espécie de exercício imaginativo de situações nas quais eu e Flusser salientamos a astúcia da fotografia, de maneira a revistá-la, conduzi-la e, por que não, complexificá-la através de situações fotográficas atuais.

Gostaria de esclarecer que esta reflexão trata-se de uma tentativa advinda de minha implicação com o pensamento de Flusser e a fotografia. Se a leitura soar estranha, principalmente para o acadêmico, é porque escapa ao rigor científico tradicional para vibrar próxima aos fenômenos. Espécie de ficção filosófica na qual o “post” de um grupo de estudos encontra uma literatura ensaística.

Noções flusserianas de ensaio, implicação, astúcia, gesto e ficção filosófica estão explicitadas no desenho deste texto, pois o que interessa neste momento é o processo de empatia e reconhecimento ao próprio gesto. De maneira tal que até o científico, implicado nas situações postas, não tenha alternativa se não a de questionar e convocar suas próprias experiências com a imagem para efetivar a confrontação reflexiva. A falta de explicações mais diretas, se assim preferir, parte como uma provocação com caminho dado para as referências postas ao final. Continuar lendo

Gamificação, um ideal de aplicação?

por Fabrício Fava

[Abstract]

“About two months ago was published online a video of a 99U Anual Conference talk placed at New York on 7-9th June. Presented by designer Natasha Jen the presentation had a provocative title: Design Thinking is Bullshit. This file led me instantly to Ian Bogost’s article Gamification is Bullshit – this text was first wrote as a critique of Wharton’s Gamification Simposium and got an extended version latter.”

Há cerca de dois meses foi publicado online o vídeo de uma palestra ministrada na 9ª Conferencia Anual da 99U ocorrida entre os dias 07 e 09 de junho em Nova Iorque. Ministrada pela designer Natasha Jen, a apresentação trazia um título provocativo: Design Thinking is Bullshit (2017). O encontro com esse arquivo lembrou-me, de maneira imediata, do texto Gamification is Bullshit (2015), de Ian Bogost – inicialmente escrito como uma crítica a um Simpósio de Gamificação ocorrido em Warthon (2011) e publicado posteriormente com mais profundidade.

Essa aproximação instantânea me veio como um gatilho interessante para debater acerca de um entendimento comum da Gamificação centrado num possível ideal de aplicação ou conjunto de convenções do aplicar.

Desde o meu doutorado percebo que a apreensão e o exercício da Gamificação pedem não apenas uma reflexão acerca das lógicas dos jogos, mas das implicações entre jogos, criatividade e design. Dessa maneira, na tese (FAVA, 2016), trabalho a Gamificação através de uma perspectiva do design ligada aos viés semiótico peirceano e a teoria sistêmica (2007). Assim, é importante discorrer inicialmente sobre algumas questões que parecem passar despercebidas quando se trata da relação entre o Design Thinking e a Gamificação. Continuar lendo

Sobre Tempo e Consciência

por Ronaldo Marin

[Abstract]

“In the last few years the quantum gravity theory has been presented as one of the theories that could be able to promote the unification of the fields of relativistic and quantum physics. At its core, however, lies the condition that time doesn’t exist at the most fundamental level of reality. This text defends the validity of such an argument while presenting the natural perception of a continuous time and space as the composition of the conscious mind so that it can sustain a meaningful narrative bond – based on the past-present-future sequence – which is critical to the behavior of consciousness. However the subjective temporal structure past-present-future is only realized through memory, making the phenomenon of consciousness inseparable from biological materiality, which allows us to propose a connection between the inexistence of time at the fundamental level of reality and the impossibility of the disembodied mind.”

texto em PDF

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A persistência da memória (1931) – Salvador Dali 

 

O tempo é a informação que não temos.
O tempo é a nossa ignorância.
Carlo Rovelli

Tempo e espaço sempre foram fundamentais para qualquer descrição da realidade na história do pensamento. Lugar e tempo são duas das dez categorias aristotélicas, existindo também como faculdades a priori no sujeito nas categorias do intelecto kantiano. Há pouco mais de um século Albert Einstein demonstrou, através da teoria da Relatividade Restrita, que não podemos separar essas duas grandezas físicas. Temos que pensá-las como uma só: o continuum espaço-tempo. Se, por um lado a questão foi resolvida com relativa facilidade através da colocação de um simples hífen, de outro trouxe uma enorme dificuldade para o entendimento da realidade para a maioria das pessoas, por se tratar de uma percepção contra-intuitiva da natureza. Até mesmo as leis da física clássica lidavam com essas grandezas de maneira absoluta e dissociada, mas agora o quadro da realidade objetiva começava a ser pintado sobre a tela do universo constituída pelo tecido contínuo do espaço-tempo. Alguns anos mais tarde, Einstein trouxe à luz a teoria da Relatividade Geral explicando a gravidade como o efeito da maleabilidade do tecido do espaço-tempo mediante a presença de matéria. Quase ao mesmo tempo, o interesse pelas relações entre matéria e energia e pela estrutura fundamental desta matéria – que em grande quantidade é capaz de curvar o espaço-tempo – iria estabelecer as bases de outra visão revolucionária, a Teoria Quântica. Entretanto, a tentativa de fazer com que as duas teorias trabalhassem juntas unificando os novos conceitos de gravidade, relatividade e quantização é uma questão que continua a desafiar a física do século XXI. Entre as teorias que tentam lidar com o problema e construir uma teoria de campo unificado há a denominada gravidade quântica que nos leva direto ao cerne de uma importante questão: a não existência do tempo na fundamentação da realidade. Continuar lendo

Por que a Ciência anda tão parecida com a Religião?

 

por Ricardo Maciel Gazoni

[Abstract]:
“Scientific publishing seems to have a function other than spread scientific knowledge among the scientific community: it also seems to work as an authority that announces to the non-specialists what is “scientific proven” defining what might be regarded as true. The text analyses this phenomenon and some consequences based on Peirce’s theories on the methods for the fixation of belief.”

* * *

Certos acontecimentos parecem ter uma razão oculta quando de maneira quase milagrosa cristalizam uma ideia que vinha sendo gestada aos poucos, sem que a tenhamos percebido. Aconteceu comigo esses dias: lendo o texto delicioso da Juliana Rocha Franco neste mesmo espaço internético (“Notas para se pensar as bolhas online a partir de Peirce”) tive a impressão de que o texto estava lá para resolver um problema que começou a martelar um bocado antes. Digo “resolver”, mas não há solução nenhuma aqui. É que de repente parece possível formular a pergunta certa, o que já é um alento. Comecemos do começo.

Em 15 de Maio de 2017 o Jornal da USP publicou um artigo intitulado “A homeopatia é uma farsa”, assinado por Beny Spira, doutor em genética molecular pela Universidade de Tel-Aviv. O texto, que pode ser lido aqui, é uma resposta a um texto anterior publicado no mesmo jornal (este aqui) que critica a deficiência no ensino de homeopatia veterinária na USP. O artigo de Beny Spira é conciso e apresenta alguns estudos científicos publicados em revistas de renome que suportam a argumentação do autor, que é uma crítica ao próprio jornal de USP pela publicação de conhecimento “errado, arcaico e perigoso”. Leitura que, por citar boas fontes, permite também acompanhar a discussão a respeito da homeopatia nas publicações científicas. O texto encontrou respostas no próprio Jornal da USP (por exemplo, esta) e repercutiu nas redes sociais, onde foi citado pelos que defendem e pelos que atacam a homeopatia, além de ser compartilhado por páginas que se preocupam em louvar o saber científico em detrimento de outros saberes. Continuar lendo

O conceito de imaginação de Vilém Flusser

por Thiago Mittermayer

[Abstract]:
The purpose of this article is simple. The goal is to disccuss the concept of imagination elaborated by Vilém Flusser. Within the theoretical legacy left by Flusser, this publication seeks to clarify his concept of imagination. Our reference is the article Eine neue Einbildungskraft (1990).”

Em outubro de 2016, o propósito da minha primeira publicação para este blog era delimitar o conceito de ficção elaborado por Vilém Flusser. Na ocasião, vimos a forma pela qual o filósofo usa e abusa de reflexões provocativas, tal como ‘ficção é realidade’, para explicar as relações complexas entre realidade e ficção. Com o intuito de continuar a investigar o diagrama conceitual deixado por Flusser, o presente post busca esclarecer a visão do filósofo a respeito do conceito de imaginação. Como referência utilizaremos o capítulo Uma nova imaginação do livro O mundo codificado (2007).

Uma nova imaginação

Esse capítulo é uma tradução do texto original Eine neue Einbildungskraft (1990) disponibilizado pelo Vilém Flusser Archive. Aqui, a preocupação do filósofo está voltada para a capacidade do humano em criar imagens para si mesmo e para outros. O tema é de longa data tanto na filosofia quanto na teologia. Segundo Flusser (2007), nestas duas tradições, a imaginação ou faculdade imaginativa é retratada como uma certeza, algo dado como certo. Com base em Edmund Husserl, Flusser (ibid., p. 161) diz ser imprescindível eliminar o pressuposto de certeza absoluta e que temos, de fato, encarar a imaginação como um fenômeno. Para ele (ibid.), a faculdade imaginativa “manifesta-se como um gesto complexo, deliberado (“intencional”), com o qual o homem se posiciona em seu ambiente”.

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Figura 1. Vilém Flusser na palestra Television image and political 
space in the light of the Romanian revolution. 
Fonte: DVD “We shall survive in the memory of others”Flusser Archive.

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