Ecos da exaptação no realismo de Bryant

por Guilherme Henrique de Oliveira Cestari

Echoes of exaptation in Bryant’s Speculative Realism

[Abstract]

“The term exaptation was coined in 1982 by the evolutionary biologists Stephen Gould and Elisabeth Vrba. The phenomenon is also known as pre-adaptation, preaptation or cooptation. The term refers to an evolutionary process during which structures and features of a bodily organ acquires uses for which they were not initially designed. In Onto-Cartography (2014), Levi Bryant takes exaptation to describe the evolution not just of living organisms, but also of objects in general, called by him machines. According to Bryant, there is no planning in the course of the evolution of nature. All phenomena emerge randomly in organisms. In an evolutionary sequence of couplings with other structures, the functions of organs become highly flexible. In contrast to most evolutionists, Bryant rejects the idea that bodily organs were originally been designed for specific purposes. Bryant claims that purposes of organs are acquired and not ontologically inherent. Bryant adopts the concept of exaptation to conceive of evolutionary processes in a “geophilosophical” perspective in order to map a material non-teleological universe permeated with diverse types and layers of machines. In their operative flows, such “machines” are interdependent among themselves and tend to couple with each other.”

Que regras e estruturas regem a evolução histórica e social dos usos das coisas? Esse percurso evolutivo tem algo em comum com a evolução biológica dos organismos e espécies? Neste texto abordamos a exaptação como processo evolutivo que incorpora o imprevisto e que caracteriza a evolução como ação criativa, combinatória e contínua. Em especial, discutimos a apropriação feita por Levi Bryant do termo oriundo da biologia para descrever a evolução das máquinas em sentido abrangente.

O uso da palavra “exaptação” foi proposto por Stephen Jay Gould e Elisabeth S. Vrba para descrever o processo evolutivo por meio do qual estruturas e qualidades de um organismo envolvidas em outros usos (ou mesmo sem uso aparente) são aliciadas para um uso diferente e inesperado (Gould e Vrba, 1982, p. 6). Segundo Lass (1990, p. 81), a criação e a utilização do termo pressupõem que teorias da evolução embasadas única e estritamente na seleção natural têm grandes chances de serem heuristicamente restritivas. O caso de exaptação incialmente comentado por Gould e Vrba (1982, p.7-8) é o deslocamento da função (“functional shift”) das penas e da estrutura óssea das asas em ancestrais de pássaros. Originalmente, as penas possuíam as funções de isolamento térmico. Elas foram cooptadas para a captura de grandes insetos aéreos, atuando como uma teia natural que ajuda a encurralar presas (cf. Ostrom, 1974, p. 34, 41). Apenas posteriormente as características de captura de insetos passaram a servir, via nova exaptação, para voar (cf. Figura 1). Continuar lendo

Design no crescimento dos hábitos

por Guilherme Henrique de Oliveira Cestari

Neste texto, utilizando especialmente os conceitos de “hábito” em Peirce e de “máquina” em Bryant, problematizamos os percursos da atividade criativa conduzida de modo eminentemente colaborativo por designers e projetistas; sublinhamos a relevância da contínua expansão dos hábitos em direção à permanente e insistente evolução das relações entre mentes e alteridade. No âmbito humano, estas relações estão inscritas nos caminhos semióticos da cientificidade e da racionalidade. Continuar lendo

A persona estendida e a internet das coisas

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por Eduardo Camargo

  1. A mente estendida

Onde a mente termina e o resto do mundo começa? Como resposta, alguns sustentam que o que está fora do corpo físico está fora da mente. Outros se impressionam com argumentos que sugerem que os significados de nossas palavras estão fora da mente, assim sendo, o externalismo a respeito dos significados implicaria também no externalismo de nossas mentes. Andy Clark, cientista cognitivo e filósofo da mente, propõe uma terceira posição, um externalismo ativo baseado no papel atuante do ambiente na condução de processos cognitivos (Clark, 2011: 220-232). Continuar lendo