Tecnologia digital e episteme da mediação

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por Tarcísio Cardoso

Digital technology and mediation episteme

[Abstract]

“Since the first texts that inspired the philosophical movement that became known as speculative realism, one of the challenges that thinkers of this moviment assume seems to be the search for solutions to the obstacles promoted by contemporary philosophy (analytical and continental), especially the obstacles presented by philosophical binarism Implied in the pair of thought-being or subject-object. This search, in the view of the proponents, aims to give philosophy a capacity to reflect on the most current problems with which science and technology deals (MEILLASOUX, 2009). The purpose of this post is to reflect a little on technology, more specifically digital technology, in light of the concept of mediation proposed by contemporary thinkers such as Latour, Martino and Di Felice. The example of digital technology is a choice only partially arbitrary, since it seems to be the most paradigmatic example to identify some of the problems of the human-technical dualism. Not by chance, the digital has been recurring theme in this blog – see, for example, the recent posts of Gazoini (2016) and Camargo (2016). This text deals precisely with the relation between worldview and world experience, between episteme and culture in the universe of digital technologies.”

 

Desde os primeiros textos que inspiraram o movimento filosófico que ficou conhecido como realismo especulativo, um dos desafios que pensadores dessa corrente assumem parece ser o de buscar soluções aos entraves promovidos pela filosofia contemporânea (analítica e continental), em especial os entraves apresentados pelo binarismo filosófico implicado no par pensamento-ser ou sujeito-objeto. Essa busca, na visão dos proponentes, pretende conferir à filosofia uma capacidade para refletir sobre os problemas mais atuais com os quais lida a ciência e a tecnologia (MEILLASOUX, 2009). O objetivo deste post é refletir um pouco sobre a tecnologia, mais especificamente a tecnologia digital, à luz do conceito de mediação proposto por pensadores contemporâneos como Latour, Martino e Di Felice. O exemplo da tecnologia digital é uma escolha apenas parcialmente arbitrária, pois parece ser este justamente o exemplo mais paradigmático para identificar alguns dos problemas do dualismo homem-técnica. Não por acaso, o digital tem sido tema reincidente neste blog – ver, por exemplo, os recentes posts de Gazoini (2016) e Camargo (2016). Comecemos, portanto, com uma breve revisão histórica do que entendemos por cultura digital. Continuar lendo

Que ontologia dos objetos dispensaria os atores? Tópicos para o diálogo entre Latour e os realistas especulativos

por Tarcísio Cardoso

[Abstract]
“The main characteristic of the movement called speculative realism is its anticorrelationism approach. To Meillassoux, creator of the concept, correlationism would be a typical attitude of contemporary philosophy (both continental as analytical) to welcome and encourage the Kantian critique, and in particular the limit given by the Thought-Being binding. To reject the Kantian critique, speculative realists have found few reputed allies. One of them is the philosopher-anthropologist Bruno Latour, for whom Kant is visibly an opponent. However, Latour does not seem to agree with Meillassoux´s main project (the anticorrelationism), which is why we could hardly fit Latour as a member of speculative realism. The general proposal of that movement would be to encourage speculation in order to seek for a real detached from the subject, or in the attempt to map signals of a “being” beyond “thought”. For Latour, this labor turns out to frame them again in modern project, whereby it is possible to separate two spheres: subjects (society) and objects (nature). We can say that the thought of Latour moves away from Kantianism in a very particular way. Often, it is precisely the modern realism and the modern idealism that should be questioned for an analysis of “objects” and “facts.” To build his famous reading of modern philosophy, Latour seeks to complete a framework “modern-non-modern” which, once understood, can indeed be a good ally for the ideals of speculative realism. In order to contribute with this, we will resume here some of Latour’s ideas involved in his alternative to the modern philosophy”

A principal característica do movimento chamado realismo especulativo e que faz unir pensamentos tão diversos em um mesmo círculo está na noção de anti-correlacionismo. Para Meillassoux[1], criador de tal conceito, correlacionismo seria uma atitude típica da filosofia contemporânea (tanto continental quanto analítica) de acolher e fomentar a crítica kantiana, e em especial o limite dado pela vinculação pensamento-ser. Ao rejeitarem a crítica kantiana, os realistas especulativos têm encontrado poucos aliados de renome. Um deles é o filósofo-antropólogo Bruno Latour, para quem Kant é visivelmente um oponente. No entanto, Latour não parece concordar com o cerne da leitura de Meillassoux nem com seu projeto anti-correlacionista, motivo pelo qual dificilmente poderíamos enquadrar Latour como um realista especulativo propriamente dito. A proposta daquele movimento seria fomentar a especulação para buscar um real desvinculado dos sujeitos, na tentativa de mapear sinais de um “ser” para além do “pensamento”. Para Latour, assim como para Viveiros de Castro[2], tal empresa acaba por enquadrá-los novamente no projeto moderno, segundo o qual é possível separar as duas esferas: dos sujeitos (sociedade) e dos objetos (natureza). Continuar lendo

Latour é relativista e construtivista?

por Tarcísio Cardoso

Os textos desse grupo têm suscitado várias polêmicas. Sinal de progresso. Nada mais latouriano que atrelar o valor das palavras aos seus efeitos e tomar a relevância de um blog (espaço de intercâmbio de ideias) pela sua capacidade de incitar controvérsias. Desde que o pensamento de Bruno Latour foi associado com os nomes relativismo e construtivismo, não foram poucas as vezes em que tal leitura foi vista como polêmica. Eu mesmo vivencio controvérsias até hoje por conta de meras palavras(!). Nos debates relativos à minha própria pesquisa de doutorado, palavras são atores extremamente fortes e, a depender de como uma discussão for levada adiante, as polêmicas se acentuam de modo a suscitar batalhas quase homéricas. Não é meu intuito incitar a polêmica, mas as palavras de um pensador tão controverso quanto Latour já criam batalhas campais por si só. Continuar lendo

A tecnologia é nossa inimiga?

transcendente

por Tarcisio Cardoso

O filme “Transcendence – a revolução” representa um fracasso não só na carreira de Johnny Depp e na ficção científica hollywoodiana, mas também nas reflexões que se propõe a realizar e não consegue dar conta. A crítica tem sido implacável com o longa, que não conseguiu fazer sequer uma ficção com um sentido claro. Parece que, no meio de tanto assunto instigante (tecnologia, ativismo antitecnológico, questionamento de limites da inteligência artificial, singularidade/transcendência), o filme só conseguiu se fixar num apelo exageradamente tosco: “homens, parem de brincar de Deus”. Ao transformar a inteligência coletiva em monstro, comete ainda um erro dogmático anacrônico: propõe que seriamos mais felizes se os homens não buscassem transgredir aquilo que “lhes cabe”. Diante da imposição de tal axioma, parece oportuno perguntar novamente: seria a tecnologia inimiga da natureza humana? Por trás desse questão residem outras, ainda mais polêmicas: o homem, alguma vez, foi natural? O que seria o homem por ele mesmo? Continuar lendo

Rede, social e inteligência compartilhada

conect

por Tarcisio Cardoso

Quanto tempo passamos conectados por dia? A rede está em nossos celulares ou nós é que estamos na rede? Os dilemas do mundo conectado têm sido alvo de muitas críticas e rotulações, por vezes exageradas. O fato consumado é que por estarmos conectados, ou simplesmente “disponíveis” para a rede, somos pessoas diferentes, estranhas, às vezes dependentes da tecnologia e, certamente, somos cada vez mais difíceis de se entender. Uma série de estudos sobre as redes e as mudanças culturais podem nos ajudar, nesse caminho. Continuar lendo