O filósofo e o artesão

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por Eduardo Camargo

  1. Carpintaria filosófica

No capítulo 4 de seu livro Alien Phenomenology, Bogost (2012, pp. 85-111) estende o termo carpintaria para além do ofício do artesão e o direciona para o mundo da produção acadêmica. Ele sustenta que o resultado do trabalho intelectual, principalmente nas áreas das humanidades, restringe-se à publicação de artigos e livros e, como efeito desta obsessão, aponta dois problemas recorrentes: primeiro, com sua tendência à obscuridade, à incompreensibilidade e ao uso de jargões, normalmente, o acadêmico é um mau escritor; segundo, considerar que apenas através da escrita podemos acessar o mundo pode ser perigoso, pois, enquanto damos atenção exclusiva à linguagem, garantimos nossa ignorância de tudo o mais. Então, seria a escrita o melhor e mais apropriado meio de expressão para o trabalho acadêmico? Ou, mesmo, seria o único? Continuar lendo

Caminhos para uma arte especulativa

por Clayton Policarpo

google_sonhosFigura 1: Imagem criada pelo sistema de redes neurais do Google, 2015

1- Notas sobre uma Nova Estética

Um dos principais dilemas na pesquisa em arte contemporânea é a natureza da ação. É a constante renegociação entre autor, obra e espectador que constitui a experiência estética (Grossman, 1996, p. 35). O artista, antes tido como o agente intermediador entre o mundo fenomenológico e sua representação, delega ao público a responsabilidade de completar a obra. O espectador já não é tão somente o sujeito que contempla, mas passa a integrar a ação que constitui o momento arte, contribuindo ao ato criativo. 

Novas tecnologias introduzem novos hábitos culturais e, como em outros períodos, é conduzida à arte a incumbência de mediar e alçar novos limites que ampliem a compreensão das alterações geradas pelas possibilidades que emergem. Ocorre que com a introdução de equipamentos e sistemas, deveras mais complexos, a agência de criação passa a evidenciar o papel de atores de natureza diversas (smartphones, GPS, objetos inteligentes, bancos de dados, algoritmos, etc.). Ao tempo que a arte contemporânea, ao instaurar-se em um meio de constante negociação entre o conceitual e o sensorial, favorece novas perspectivas críticas que prezam por evidenciar a participação de agentes não-humanos em sua efetivação. Neste contexto levantamos algumas questões: poderia a experiência estética ser construída e percebida por mecanismos não-humanos? Uma máquina é capaz de se expressar ao ponto de produzir uma obra de arte? Continuar lendo