Quentin Meillassoux, Donald Trump, Elvis Presley e o playground da pós-verdade

por Gustavo Rick Amaral

Quentin Meillassoux, Donald Trump, Elvis Presley and the post-truth playground 

[Abstract]
“The objective of this paper is to compare the speculative realism introduced by the French philosopher Quentin Meillassoux in the book “After Finitude” and the kind of realism defended by Charles S. Peirce. The role phenomenology and semiotics have in the Peirce’s philosophical system makes the peircean realism totally incompatible with the speculative realism. The reason is that the anti-correlationist position of Meillassoux is at odds with some basic peircean thesis (like “all thoughts is in signs” – CP 5.253 [1868]).  This comparative study is followed by a description of some elements of the historical (cultural and political) context in which the Meillassoux philosophical project arise
.”

Na obra “Depois da infinitude”, o filósofo francês Quentin Meillassoux (2008) nos apresenta um projeto filosófico cujo ponto central é a reabilitação da distinção entre qualidades primárias e secundárias associado ao objetivo de estabelecer a tese segundo a qual a contingência seria o único princípio absolutamente necessário no universo. No presente artigo, não pretendemos desenvolver uma análise dos argumentos do filósofo e apresentar uma refutação de suas teses. Fosse esse nosso objetivo, acreditamos que um bom começo seria questioná-lo a respeito do problema de auto-referencialidade envolvido na sustentação do princípio acima anunciado. Se o princípio for um pensamento ou uma proposição, seria ele mesmo contingente, i.e., estaria ele mesmo submetido ao princípio (cf. o que Ray Brassier chamou de paradoxo da contingência absoluta – Brassier, 2007, p. 85)? O objetivo deste artigo é fazer, em primeiro lugar, uma comparação de diretrizes e características gerais do realismo especulativo de Meillassoux e da filosofia peirceana (para demonstrar a incompatibilidade entre as duas filosofias) e, em segundo lugar, uma contextualização (no cenário político e cultural contemporâneo) das instigantes propostas teóricas do filósofo francês. Comecemos com um trecho da obra “Depois da Finitude” em que Meillassoux apresenta a tarefa do realismo especulativo. Continuar lendo

I Colóquio Realismo Especulativo e Realismo Peirceano

I Colóquio Realismo Especulativo e Realismo Peirceano
Tema: Realismo Especulativo sob o signo da diversidade

cartaz_realismos01

4 de novembro de 2016, das 9h às 16h00
PUC-SP Campus Perdizes — Rua Monte Alegre, 984
Auditório 239 – Prof. Paulo Barros de Carvalho

Evento: https://www.facebook.com/events/909370192526751
Inscrições: https://goo.gl/forms/rKmqMSCVDhwj5NQu1

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Surgimento do Realismo Especulativo

por Isabel Jungk

The Beginning of Speculative Realism

[Abstract]

“Since the 1990’s and early 2000’s, a new form of epistemology and metaphysics focused on the objects themselves began to emerge This post aims to present some of the most important moments in the formation of this philosophical movement – known as Speculative Realism – as well as the positions relative to the choice of its name by the various authors who initially formed the movement, showing their differences and their common denominator in criticizing correlacionism or the so called philosophies of access, and towards the development of an object oriented ontology (OOO).”

capa_realismo especImagem da capa do livro The Speculative Turn: Materialism and Realism 
(BRYANT et al., 2011)

Desde a década de 1990 e início dos anos 2000, uma nova forma de epistemologia e metafísica voltada para os existentes em si mesmos começou a emergir; mais tarde, ela viria a se autodenominar Speculative Realism, nome “potente” mas “controverso” (cf. NÖTH, 2016). Os momentos mais relevantes para a formação desse movimento filosófico são relatados por Graham Harman, filósofo e professor na Universidade Americana do Cairo, em seu livro Quentin Meillassoux: Philosophy in the Making, sobre a obra do jovem filósofo francês, lançado em 2011 e que recentemente em 2015 recebeu sua segunda edição. Como o próprio Harman (2011, p. 77) afirma, “não é exagero dizer que o Realismo Especulativo tem sido até agora o mais visível dos movimentos na filosofia continental no século XXI”.

O surgimento do movimento se deu em função de uma série de encontros, convergências de interesses e buscas filosóficas, entre Ray Brassier, Ian Hamilton Grant, Quentin Meillassoux e o próprio Graham Harman, que ele relata em seu livro (ibid., pp. 77-85). Em 2005, Harmam houvera proferido uma palestra com o título Heidegger’s Thing and Beyond, cujo tema se aproximava bastante de outra palestra proferida por Grant meses antes, e da qual Harman tomou conhecimento através de Brassier. Em conversações com Harman, Brassier comentou sobre um livro recém lançado à época (2006), de autoria de um filósofo francês, Quentin Meillassoux, cujo título era Après la finitude: Essai sur la nécessité de la contingence, e cujas idéias tinham muito em comum com aquelas que vinham sendo discutidas por eles. A partir da leitura do livro, surgiu a idéia de um encontro acadêmico entre os quatro, que foi viabilizado por Alberto Toscano. Harman também sugeriu a Bruno Latour um seminário sobre o livro de Meillassoux, que foi realizado em fevereiro de 2006. Continuar lendo

Ecos da exaptação no realismo de Bryant

por Guilherme Henrique de Oliveira Cestari

Echoes of exaptation in Bryant’s Speculative Realism

[Abstract]

“The term exaptation was coined in 1982 by the evolutionary biologists Stephen Gould and Elisabeth Vrba. The phenomenon is also known as pre-adaptation, preaptation or cooptation. The term refers to an evolutionary process during which structures and features of a bodily organ acquires uses for which they were not initially designed. In Onto-Cartography (2014), Levi Bryant takes exaptation to describe the evolution not just of living organisms, but also of objects in general, called by him machines. According to Bryant, there is no planning in the course of the evolution of nature. All phenomena emerge randomly in organisms. In an evolutionary sequence of couplings with other structures, the functions of organs become highly flexible. In contrast to most evolutionists, Bryant rejects the idea that bodily organs were originally been designed for specific purposes. Bryant claims that purposes of organs are acquired and not ontologically inherent. Bryant adopts the concept of exaptation to conceive of evolutionary processes in a “geophilosophical” perspective in order to map a material non-teleological universe permeated with diverse types and layers of machines. In their operative flows, such “machines” are interdependent among themselves and tend to couple with each other.”

Que regras e estruturas regem a evolução histórica e social dos usos das coisas? Esse percurso evolutivo tem algo em comum com a evolução biológica dos organismos e espécies? Neste texto abordamos a exaptação como processo evolutivo que incorpora o imprevisto e que caracteriza a evolução como ação criativa, combinatória e contínua. Em especial, discutimos a apropriação feita por Levi Bryant do termo oriundo da biologia para descrever a evolução das máquinas em sentido abrangente.

O uso da palavra “exaptação” foi proposto por Stephen Jay Gould e Elisabeth S. Vrba para descrever o processo evolutivo por meio do qual estruturas e qualidades de um organismo envolvidas em outros usos (ou mesmo sem uso aparente) são aliciadas para um uso diferente e inesperado (Gould e Vrba, 1982, p. 6). Segundo Lass (1990, p. 81), a criação e a utilização do termo pressupõem que teorias da evolução embasadas única e estritamente na seleção natural têm grandes chances de serem heuristicamente restritivas. O caso de exaptação incialmente comentado por Gould e Vrba (1982, p.7-8) é o deslocamento da função (“functional shift”) das penas e da estrutura óssea das asas em ancestrais de pássaros. Originalmente, as penas possuíam as funções de isolamento térmico. Elas foram cooptadas para a captura de grandes insetos aéreos, atuando como uma teia natural que ajuda a encurralar presas (cf. Ostrom, 1974, p. 34, 41). Apenas posteriormente as características de captura de insetos passaram a servir, via nova exaptação, para voar (cf. Figura 1). Continuar lendo

As artes contemporâneas & o realismo especulativo

por Lucia Santaella

Contemporary arts & speculative realism

[Abstract]

“Why has speculative realism been the subject of interest of contemporary art, from the part of theoreticians, critics, and curators of this art? That is a question which arouses curiosity and even perplexity. This post presents an overview of speculative realism followed by a presentation of contemporary art from the dusk of modernism on. The increasing complexity of the arts also points to their growing ontological instability. The consequent loss of pre-determined parameters to cope with these challenges results in the search of renewed ideas which can be found in the dizzying mise en abyme of object oriented ontology.”

Nalini Malani
Nalini Malani, Documenta de Kassel – 13, 2012

Por que o realismo especulativo tem sido objeto de interesse das artes contemporâneas, tanto dos teóricos quanto dos críticos e curadores dessa arte? Eis aí uma questão que desperta curiosidade e, para alguns, provoca até mesmo perplexidade.

Para os leitores que estão chegando apenas agora ao blog do Transobjeto, vale a pena apresentar com bastante brevidade o que vem a ser o realismo especulativo, muito embora essa questão já tenha sido objeto de vários posts anteriores de autores diferentes, neste mesmo blog. Não nos esqueçamos que esse é o tema central deste blog. Por isso, no primeiro texto de minha autoria, postado, em 30 de julho de 2013, sob o título de “Internet das coisas, uma nova ontologia e epistemologia do objeto”, dediquei uns poucos parágrafos a esse novo movimento filosófico, logo acompanhados, no meu post seguinte, por um rápido detalhamento. Uma introdução mais substancial pode ser encontrada no cap. 1 do livro Comunicação ubíqua. Portanto, isso me autoriza a passar muito rapidamente aqui pelo realismo especulativo para entrarmos na discussão da questão acima enunciada. Continuar lendo

Que ontologia dos objetos dispensaria os atores? Tópicos para o diálogo entre Latour e os realistas especulativos

por Tarcísio Cardoso

[Abstract]
“The main characteristic of the movement called speculative realism is its anticorrelationism approach. To Meillassoux, creator of the concept, correlationism would be a typical attitude of contemporary philosophy (both continental as analytical) to welcome and encourage the Kantian critique, and in particular the limit given by the Thought-Being binding. To reject the Kantian critique, speculative realists have found few reputed allies. One of them is the philosopher-anthropologist Bruno Latour, for whom Kant is visibly an opponent. However, Latour does not seem to agree with Meillassoux´s main project (the anticorrelationism), which is why we could hardly fit Latour as a member of speculative realism. The general proposal of that movement would be to encourage speculation in order to seek for a real detached from the subject, or in the attempt to map signals of a “being” beyond “thought”. For Latour, this labor turns out to frame them again in modern project, whereby it is possible to separate two spheres: subjects (society) and objects (nature). We can say that the thought of Latour moves away from Kantianism in a very particular way. Often, it is precisely the modern realism and the modern idealism that should be questioned for an analysis of “objects” and “facts.” To build his famous reading of modern philosophy, Latour seeks to complete a framework “modern-non-modern” which, once understood, can indeed be a good ally for the ideals of speculative realism. In order to contribute with this, we will resume here some of Latour’s ideas involved in his alternative to the modern philosophy”

A principal característica do movimento chamado realismo especulativo e que faz unir pensamentos tão diversos em um mesmo círculo está na noção de anti-correlacionismo. Para Meillassoux[1], criador de tal conceito, correlacionismo seria uma atitude típica da filosofia contemporânea (tanto continental quanto analítica) de acolher e fomentar a crítica kantiana, e em especial o limite dado pela vinculação pensamento-ser. Ao rejeitarem a crítica kantiana, os realistas especulativos têm encontrado poucos aliados de renome. Um deles é o filósofo-antropólogo Bruno Latour, para quem Kant é visivelmente um oponente. No entanto, Latour não parece concordar com o cerne da leitura de Meillassoux nem com seu projeto anti-correlacionista, motivo pelo qual dificilmente poderíamos enquadrar Latour como um realista especulativo propriamente dito. A proposta daquele movimento seria fomentar a especulação para buscar um real desvinculado dos sujeitos, na tentativa de mapear sinais de um “ser” para além do “pensamento”. Para Latour, assim como para Viveiros de Castro[2], tal empresa acaba por enquadrá-los novamente no projeto moderno, segundo o qual é possível separar as duas esferas: dos sujeitos (sociedade) e dos objetos (natureza). Continuar lendo

A ontologia Deleuzeana e o realismo especulativo

por Daniele Fernandes 

Uma mesma voz para todo múltiplo de mil vias, um mesmo Oceano para todas as gotas, um só clamor do Ser para todos os entes. Mas à condição de ter atingido, para cada ente, para cada gota, e em cada via, o estado de excesso, isto é, a diferença que os desloca e os disfarça, e os faz retornar, girando sobre a sua ponta móvel. (Deleuze, 2000, p. 477-478)

Neste artigo, temos o objetivo de realizar apontamentos sobre alguns dos conceitos da ontologia de Gilles Deleuze que influenciam o realismo especulativo, especialmente a Onto-cartografia de Levi Bryant e a Ontologia Orientada aos Objetos de Graham Harman. Exploramos a postura deleuzeana em relação aos conceitos de substância, indivíduo, ente, sujeito, objeto, máquina e agenciamento. Ao longo do artigo ainda pretendemos apontar algumas conexões com a obra de Peirce. Continuar lendo

Sobre Realismo Especulativo e Política

Por Eduardo Weinhardt

O movimento do Realismo Especulativo tem apresentado não só uma nova perspectiva teórico-ontológica, mas também um processo bastante único na geração de conhecimento, Além da produção nos meios institucionalizados, como revistas e livros, a internet desempenha papel central no debate, principalmente nos blogs que tratam do tema. Muitos dos conceitos dessa linha filosófica são forjados inicialmente nesse diálogo digital entre os pensadores. Discussões muitas vezes intensas e acaloradas, que deixam entrever rusgas não perceptíveis para o leitor que se atém às publicações tradicionais. Continuar lendo

A persona estendida e a internet das coisas

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por Eduardo Camargo

  1. A mente estendida

Onde a mente termina e o resto do mundo começa? Como resposta, alguns sustentam que o que está fora do corpo físico está fora da mente. Outros se impressionam com argumentos que sugerem que os significados de nossas palavras estão fora da mente, assim sendo, o externalismo a respeito dos significados implicaria também no externalismo de nossas mentes. Andy Clark, cientista cognitivo e filósofo da mente, propõe uma terceira posição, um externalismo ativo baseado no papel atuante do ambiente na condução de processos cognitivos (Clark, 2011: 220-232). Continuar lendo

Quem sou eu, este que pensa? Objetos sensíveis, qualidades sensíveis e tensão temporal

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Por Adelino Gala

Continuando o post sobre Harman, vamos explorar um pouco mais a construção de seus objetos sensíveis e qualidades sensíveis a partir de Husserl.

Em uma rápida leitura do que é mais relevante de Husserl para o autor, temos que Husserl é apontado como o fundador da fenomenologia no início do século XX. A base filosófica husserliana evolui a partir de dois dos principais campos científicos com maior destaque na época, a psicologia e a matemática (principalmente a lógica) e se configura como uma disciplina que “se apresenta como o estudo descritivo de todos os fenômenos que se oferecem à minha experiência de sujeito” (Depraz, 2007, p. 7). Continuar lendo