Simondon: uma perspectiva ontoepistemológica para a contemporaneidade

Por Isabel Jungk

[Abstract]:

“Situated in the interchange zone between philosophy and scientific knowledge, the fertile thought of the French philosopher Gilbert Simondon is able to offer a renewed perspective on the ontoepistemological issues of contemporaneity. This post explores some of the main characteristics of his philosophy, which seeks to understand the problems of the individuation of vital and technical beings following their transformational processes of genesis and evolution, without predefined separations of any nature among different types of beings.”

simondon
Gilbert Simondon (1924-1989).

Na contracapa do documentário “Simondon du Désert”, dirigido por François Lagarde (2013), lê-se: “Pensador de um mundo em processo de devir, criador de conceitos que expressam uma nova relação entre humanos, natureza e tecnologia, Gilbert Simondon é o contemporâneo de todos aqueles que buscam um filosofia para nossos tempos”. Essa afirmação, mais do que despertar a curiosidade sobre um pensador original, aponta para o fato de que a obra deste meticuloso filósofo francês representa um ponto alto no pensamento do século XX. O conhecimento aprofundado de questões filosóficas, aliado à intimidade com conceitos científicos e tecnológicos, embasa uma produção intelectual que ainda não foi tão explorada quanto poderia e cujo caráter próprio, em consonância com os avanços de nossa época, promete muitos frutos a todos aqueles que lhe dedicarem a merecida atenção.

Simondon é mais conhecido pela sua filosofia da técnica do que pela sua teoria da individuação da qual sua reflexão sobre os objetos técnicos é decorrente. Contudo, seu pensamento tem ganhado cada vez mais destaque. Como observa Barthélémy (2012, p. 204), da mesma maneira que sua tese de doutoramento A individuação à luz das noções de forma e informação, defendida em 1958, reabilitou a filosofia da natureza em uma época em que a fenomenologia de Merleau-Ponty e o existencialismo de Sartre eram dominantes na França, O modo de existência dos objetos técnicos, sua tese complementar, defendida e publicada no mesmo ano, reabilitou a técnica em um contexto que era tecnofóbico em grande medida, tecnofobia da qual ainda há muitos resquícios atualmente, e à qual Simondon tece uma crítica clara e coerente. Continuar lendo

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Surgimento do Realismo Especulativo

por Isabel Jungk

The Beginning of Speculative Realism

[Abstract]

“Since the 1990’s and early 2000’s, a new form of epistemology and metaphysics focused on the objects themselves began to emerge This post aims to present some of the most important moments in the formation of this philosophical movement – known as Speculative Realism – as well as the positions relative to the choice of its name by the various authors who initially formed the movement, showing their differences and their common denominator in criticizing correlacionism or the so called philosophies of access, and towards the development of an object oriented ontology (OOO).”

capa_realismo especImagem da capa do livro The Speculative Turn: Materialism and Realism 
(BRYANT et al., 2011)

Desde a década de 1990 e início dos anos 2000, uma nova forma de epistemologia e metafísica voltada para os existentes em si mesmos começou a emergir; mais tarde, ela viria a se autodenominar Speculative Realism, nome “potente” mas “controverso” (cf. NÖTH, 2016). Os momentos mais relevantes para a formação desse movimento filosófico são relatados por Graham Harman, filósofo e professor na Universidade Americana do Cairo, em seu livro Quentin Meillassoux: Philosophy in the Making, sobre a obra do jovem filósofo francês, lançado em 2011 e que recentemente em 2015 recebeu sua segunda edição. Como o próprio Harman (2011, p. 77) afirma, “não é exagero dizer que o Realismo Especulativo tem sido até agora o mais visível dos movimentos na filosofia continental no século XXI”.

O surgimento do movimento se deu em função de uma série de encontros, convergências de interesses e buscas filosóficas, entre Ray Brassier, Ian Hamilton Grant, Quentin Meillassoux e o próprio Graham Harman, que ele relata em seu livro (ibid., pp. 77-85). Em 2005, Harmam houvera proferido uma palestra com o título Heidegger’s Thing and Beyond, cujo tema se aproximava bastante de outra palestra proferida por Grant meses antes, e da qual Harman tomou conhecimento através de Brassier. Em conversações com Harman, Brassier comentou sobre um livro recém lançado à época (2006), de autoria de um filósofo francês, Quentin Meillassoux, cujo título era Après la finitude: Essai sur la nécessité de la contingence, e cujas idéias tinham muito em comum com aquelas que vinham sendo discutidas por eles. A partir da leitura do livro, surgiu a idéia de um encontro acadêmico entre os quatro, que foi viabilizado por Alberto Toscano. Harman também sugeriu a Bruno Latour um seminário sobre o livro de Meillassoux, que foi realizado em fevereiro de 2006. Continuar lendo

Como uma coisa pode coisar? Apontamentos para uma reflexão sobre a técnica

CERAMICA

Por Isabel Jungk

A reflexão filosófica se vale da linguagem verbal para expressar suas indagações e conclusões, ainda que parciais, sempre passíveis de questionamento posterior por mais peremptórios que sejam seus autores ao afirmá-las. Em seu amor pelo saber, a filosofia cria, molda e modifica conceitos designados sempre por palavras, algumas novas outras renovadas num movimento constante e crescente. Continuar lendo

Uma chave para a mediação

chave de berlim

por Isabel Jungk 

De aparência bastante peculiar, a Chave de Berlim como ficou conhecida é na verdade uma chave de fechamento forçado (Schließzwangschlüssel). Criada pelo chaveiro berlinês Johann Schweiger e produzida pela Albert Kerfin & Co. a partir de 1912, seu mecanismo permite uma forma de controle de acesso ao local em que é utilizada e sua configuração simétrica, com dois segredos e sem “cabeça” não permite desvendar sua utilização facilmente. Inquietante, ela foi tema de um célebre artigo do filósofo e sociólogo Bruno Latour. Continuar lendo