All Is Full Of Love – o corpo cibernético da mulher não-toda

por Sueli Andrade

[Abstract]

All is full of love is a Bjork music video directed by Chris Cunningham in 1999. Cunningham was one of the most influential music video directors in the 90’s. He is very well known for his authorship concept in the music video field. Steven Shaviro in his blog Pinocchio Theory compares Cunningham to Godard, due to the high experimental level in his works such as music videos, installation-videos, performances and advertising. In general, two topics can be noticed in his gallery: bodies and technology. Related to both issues is a concern with cyborg representation and the Posthuman that can be illustrated in All is full of love. Around the cyborg discussion this post can be placed in terms of debates proposed by Donna Haraway, who developed the cyborg concept as a kind of neutral gender. Opposed to that, there is the Lacanian theory that provides a formal way to analyze and discuss the relationship between the logic of the cyborg and the logic of phallocentrism. Thus, how can we rethink Cunningham’s cyborgs? What kind of thoughts can be reached about the love between two cyborgs in the Posthuman discussion? This post explores the relationship between the perspectives of the Posthuman body and the Lacanian female body.

All Is Full Of Love é um videoclipe dirigido pelo britânico Chris Cunningham no ano de 1999 para a música de mesmo nome da cantora islandesa Björk. Trata-se de um dos trabalhos mais impactantes na carreira do diretor-autor e paradigmático para a história do videoclipe segundo especialistas no assunto. Colocada a relevância deste vídeo em particular, caminhemos para uma breve análise sobre o mesmo, em conformidade com a provocação que está em pauta: o corpo cibernético como uma imagem da mulher não-toda. O primeiro passo, então, é compreender de que matéria é feito um corpo cibernético. De acordo com a teórica feminista Donna Haraway, o corpo ciborgue e/ou cibernético é um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. (SILVA, 2000:40). Ele é também um ser oriundo de um mundo pós-gênero, não possuindo qualquer compromisso com a simbiose pré-edípica (2000: 42). O ciborgue não está na oposição natureza e cultura, pois aparece justamente na transgressão da fronteira entre o humano e o animal, um território obscuro. Ele não se estrutura pela oposição público-privado e se define através de uma polis tecnológica: é um ser híbrido dividido entre o orgânico e o maquínico. Continuar lendo

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Um tipi[1] para o enfrentamento do Real

tipi

por Adriano Messias

Quando vi Melancolia (Melancholia, Lars Von Trier, 2011) pela primeira vez, despertou-me a atenção aquela frágil cabana em estilo indígena que aparece nas últimas cenas. Sua armação faz lembrar, de forma estilizada, a de um guarda-chuva sem capa – quase um daqueles divertidos objetos ready-made da arte de vanguarda que intencionalmente, mediante a vontade do artista, perdiam sua função basal. Objet trouvé.

Enquanto boa parte dos críticos ficou atraída por aspectos da trama, resolvi insistir na poética e angustiante imagem que ganhou importância no desfecho. Quase toda criança teve a experiência de brincar em uma cabana improvisada, refúgio de aventuras em estilo Robinson Crusoé, onde se pudesse fantasiar livremente. O infantil, como sintoma para o adulto, é talvez o que se carrega de mais real. Sob outro prisma, uma cabana, de brinquedo ou não, é simulacro de uma morada primeva. Ela se configura, em várias obras, ao sabor da rusticidade que o encontro com a “Natureza” permitiu aos artistas, muitos deles do período romântico: desejo de comunhão – e não excomunhão – com o universo. São poucas as descrições jocosas de cabanas indígenas que tenham goteiras, sejam arrancadas pelo vento ou venham a ser corroídas por carunchos, e penso que uma tal inventividade cabe mais aos desenhos animados e HQs. Nos filmes de faroeste, em geral, os cônicos tipis revestidos de peles animais costumam se sustentar firmemente aos ataques dos ianques e, mesmo quando incendiados ou perfurados, seus esqueletos se mantêm como baluartes da resistência ao Outro. Continuar lendo