Arte contemporânea – O objeto como dejeto

por Sueli Andrade

Contemporary art – the object like a waste

[Abstract]

“The present text aims to discuss one of the possibilities of reading the object in the contemporary artistic area. The contemporary art discussion in this article is inspired by psychanalysts Jacques-Allan Miller and Gerard Wajcman and the positioning of the object, and a new gaze at it is provided by Didi-Huberman.”

Debater sobre arte é sempre um tema que demanda discussões complexas nos estudos midiáticos, culturais e sociais. Um dos aspectos que se pode optar para tal discussão é justamente observar a forma como cada movimento artístico insere o seu objeto no meio. Pode-se comprovar tal afirmação quando evocamos o exemplo do Barroco. Este movimento artístico cultural europeu oriundo dos séculos XVII e XVIII tomou o objeto como algo dividido entre a luz e a escuridão, a fé e razão, trazendo em si um paradoxo, um puro contraste por justamente fazer parte de uma transição significativa do cenário politico e econômico que vivia a Europa – a se destacar a cena da mudança no poder e influência da Igreja Católica no mundo. Após séculos de hegemonia, novas religiões, como o Protestantismo, pareciam se moldar melhor ao modelo de produção pré-industrial capitalista e que, portanto, estariam mais aptas a se expandir junto com o projeto da modernidade. Mas é na arte contemporânea que o problema da relação com o objeto de arte como um objeto perturbador se torna proeminente. Como pensar essa relação? É o que se pretende discutir a seguir.

Uma das formas de se pensar essa relação pode ser encontrada no trabalho do historiador da arte e psicanalista francês Didi-Huberman. O teórico defende a necessidade de se reorientar a forma de se olhar os objetos de arte. Continuar lendo

All Is Full Of Love – o corpo cibernético da mulher não-toda

por Sueli Andrade

[Abstract]

All is full of love is a Bjork music video directed by Chris Cunningham in 1999. Cunningham was one of the most influential music video directors in the 90’s. He is very well known for his authorship concept in the music video field. Steven Shaviro in his blog Pinocchio Theory compares Cunningham to Godard, due to the high experimental level in his works such as music videos, installation-videos, performances and advertising. In general, two topics can be noticed in his gallery: bodies and technology. Related to both issues is a concern with cyborg representation and the Posthuman that can be illustrated in All is full of love. Around the cyborg discussion this post can be placed in terms of debates proposed by Donna Haraway, who developed the cyborg concept as a kind of neutral gender. Opposed to that, there is the Lacanian theory that provides a formal way to analyze and discuss the relationship between the logic of the cyborg and the logic of phallocentrism. Thus, how can we rethink Cunningham’s cyborgs? What kind of thoughts can be reached about the love between two cyborgs in the Posthuman discussion? This post explores the relationship between the perspectives of the Posthuman body and the Lacanian female body.

All Is Full Of Love é um videoclipe dirigido pelo britânico Chris Cunningham no ano de 1999 para a música de mesmo nome da cantora islandesa Björk. Trata-se de um dos trabalhos mais impactantes na carreira do diretor-autor e paradigmático para a história do videoclipe segundo especialistas no assunto. Colocada a relevância deste vídeo em particular, caminhemos para uma breve análise sobre o mesmo, em conformidade com a provocação que está em pauta: o corpo cibernético como uma imagem da mulher não-toda. O primeiro passo, então, é compreender de que matéria é feito um corpo cibernético. De acordo com a teórica feminista Donna Haraway, o corpo ciborgue e/ou cibernético é um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. (SILVA, 2000:40). Ele é também um ser oriundo de um mundo pós-gênero, não possuindo qualquer compromisso com a simbiose pré-edípica (2000: 42). O ciborgue não está na oposição natureza e cultura, pois aparece justamente na transgressão da fronteira entre o humano e o animal, um território obscuro. Ele não se estrutura pela oposição público-privado e se define através de uma polis tecnológica: é um ser híbrido dividido entre o orgânico e o maquínico. Continuar lendo

Why Detroit Matters?

por Sueli Andrade

A alteridade é a experiência comum pela qual todos nós passamos, não importa a medida da mudança, deslocamento. Acompanha todos os seres humanos desde a sua primeira interação com o mundo, fora do útero materno. Do unheimlich freudiano (1919) às esferas de Sloterdijk (1998,1999 e 2003), a alteridade tem sido debatida nas suas diversas camadas de experimentação. Estranhamento consigo próprio, com a casa, a família e com a sociedade num crescente incremental das nossas interações com o mundo.

Essa breve introdução é para nos dar conta da importância do encontro com o outro e principalmente para o desenvolvimento intelectual-cognitivo e maturação do sujeito enquanto ser social. Dito isso, a oportunidade de poder estudar fora do Brasil, amplia-se muito além da experiência acadêmica-intelectual e justifica plenamente a importância de termos um programa público de financiamento para pós-graduação sanduiche. Outra língua, outros costumes, outros climas, outras roupas, outros sabores, outras pessoas. Tudo é da ordem do outro. E o outro é vital à existência do ser. Continuar lendo