A astúcia da fotografia: diálogos foto-ficcionais com Flusser

por Camila Mangueira Soares

[Abstract]

“The impulse of this essay was my desire to meet with Vilem Flusser and his smoking pipe in order to discuss contemporary extensions of the photographical gesture. This dialogue came through a continuing reflexive situation presented by Flusser in Los Gestos (1994) in which a photographer captures a pipe smoker in a room. Thereby, I suggest here an imaginative exercise using situations in which Flusser and I emphasize the astuteness of photography, in a way to revisit it, conduct it and complexify it through present photographical scenarios.”

Este ensaio parte do desejo de, literalmente, encontrar-me com Vilém Flusser e seu cachimbo para discutir extensões contemporâneas do gesto de fotografar. Diálogo possível através de uma continuidade da situação reflexiva apresentada por Flusser em Los Gestos (1994) na qual um fotógrafo, em um salão, fotografa um fumante de cachimbo. Assim, proponho aqui uma espécie de exercício imaginativo de situações nas quais eu e Flusser salientamos a astúcia da fotografia, de maneira a revistá-la, conduzi-la e, por que não, complexificá-la através de situações fotográficas atuais.

Gostaria de esclarecer que esta reflexão trata-se de uma tentativa advinda de minha implicação com o pensamento de Flusser e a fotografia. Se a leitura soar estranha, principalmente para o acadêmico, é porque escapa ao rigor científico tradicional para vibrar próxima aos fenômenos. Espécie de ficção filosófica na qual o “post” de um grupo de estudos encontra uma literatura ensaística.

Noções flusserianas de ensaio, implicação, astúcia, gesto e ficção filosófica estão explicitadas no desenho deste texto, pois o que interessa neste momento é o processo de empatia e reconhecimento ao próprio gesto. De maneira tal que até o científico, implicado nas situações postas, não tenha alternativa se não a de questionar e convocar suas próprias experiências com a imagem para efetivar a confrontação reflexiva. A falta de explicações mais diretas, se assim preferir, parte como uma provocação com caminho dado para as referências postas ao final. Continuar lendo

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O conceito de imaginação de Vilém Flusser

por Thiago Mittermayer

[Abstract]:
The purpose of this article is simple. The goal is to disccuss the concept of imagination elaborated by Vilém Flusser. Within the theoretical legacy left by Flusser, this publication seeks to clarify his concept of imagination. Our reference is the article Eine neue Einbildungskraft (1990).”

Em outubro de 2016, o propósito da minha primeira publicação para este blog era delimitar o conceito de ficção elaborado por Vilém Flusser. Na ocasião, vimos a forma pela qual o filósofo usa e abusa de reflexões provocativas, tal como ‘ficção é realidade’, para explicar as relações complexas entre realidade e ficção. Com o intuito de continuar a investigar o diagrama conceitual deixado por Flusser, o presente post busca esclarecer a visão do filósofo a respeito do conceito de imaginação. Como referência utilizaremos o capítulo Uma nova imaginação do livro O mundo codificado (2007).

Uma nova imaginação

Esse capítulo é uma tradução do texto original Eine neue Einbildungskraft (1990) disponibilizado pelo Vilém Flusser Archive. Aqui, a preocupação do filósofo está voltada para a capacidade do humano em criar imagens para si mesmo e para outros. O tema é de longa data tanto na filosofia quanto na teologia. Segundo Flusser (2007), nestas duas tradições, a imaginação ou faculdade imaginativa é retratada como uma certeza, algo dado como certo. Com base em Edmund Husserl, Flusser (ibid., p. 161) diz ser imprescindível eliminar o pressuposto de certeza absoluta e que temos, de fato, encarar a imaginação como um fenômeno. Para ele (ibid.), a faculdade imaginativa “manifesta-se como um gesto complexo, deliberado (“intencional”), com o qual o homem se posiciona em seu ambiente”.

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Figura 1. Vilém Flusser na palestra Television image and political 
space in the light of the Romanian revolution. 
Fonte: DVD “We shall survive in the memory of others”Flusser Archive.

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A ficção flusseriana

por Thiago Mittermayer

The Flusser’s fiction

[Abstract]

“The purpose of this article is to discuss the concept of fiction formulated by Vilém Flusser. Within the broad theoretical legacy left by visionary philosopher, it was chosen to present his original vision of fiction. The relevance of the debate is in the fact that fiction — in a general perspective — is a plural and diverse concept, since it takes different connotations in different areas. The problem takes shape and complexity when the different conceptions of fiction are muddled. And it’s in this nebulous terrain that Flusser demarcates fiction, he explains fiction especially linking philosophy, literature, communication and science.”

A ficção é discutida na filosofia, ciência, arte, cultura, literatura, comunicação, política e por aí vai. A qualidade da ficção está em ser plural, ou seja, a ficção é uma concepção multifacetada, pois assume diferentes significados em várias áreas. Todavia, o problema da ficção é exatamente ser multifacetada porque as conotações são tantas que passam a se embaralhar e a ganhar complexidade. Krause (2008, p. 126) reflete que “o poeta experimenta a ficção como a matéria-prima com a qual ele constrói a sua verdade. […] O cientista experimenta a ficção da hipótese como seu instrumento para também se aproximar da verdade”. Logo, o objetivo do presente post é delimitar o conceito de ficção estipulado por Flusser. Para isto utilizaremos o artigo Da ficção (1966) e o livro Vampiroteuthis Infernalis (2011). Além dos textos do filósofo, exploraremos os pontos de vista de Schäffauer (2011), Felinto e Santaella (2012) e Krause (2008) a respeito da ficção flusseriana e de outros conceitos circunvizinhos. Continuar lendo